30 maio 2017

Pássaros

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Graça Morais


La violence et la grâce
31 Maio - 27 Agosto de 2017


Fundação Calouste Gulbenkian - Delegação em França


 


 


Deitam-se os pássaros de solidão


asas e penas na imensidão


de um mundo que não voa.

28 maio 2017

Mistério Tremendo

Exposição individual de Rui Serra (desenho)


Arte Periférica (CCB)


até 22 de Junho


 


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 Rui Serra

Da gula sem culpa

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Há épocas de estoicismo em que as dietas são seguidas à risca, em que nos sentimos monjas de expiação do pecado da gula, fortalezas de força e vontade, sobrevivendo alegre e arrogantemente sem comer batatas, arroz, massa, pão, queijo, manteiga, doces, deglutindo pequenas quantidades de carnes brancas e peixes pouco gordos (é uma ciência esotérica), fiambre de peru, ovos, manteigas que não são manteigas, litros de sopas com os mais estranhos legumes, cogumelos a rodos, queijo fresco e iogurtes magros e gelatina 10 Kcal, a única guloseima permitida, muito saciante, para além das duas peças de fruta (contando os bagos de uva) e da inevitável garrafa de litro e meio de água.


 


(Confesso que não sei como os franceses não têm todos obesidade mórbida com a quantidade avassaladora de maravilhosos e gordíssimos queijos que comem, devidamente acompanhados por pão branco e vinho. Talvez a minha inveja não tenha sido totalmente visível nos olhares espantados com que os mimoseei, enquanto por lá passeei.)


 


Outras há em que vamos deixando as ervas daninhas das comidas normais entrarem nas nossas refeições, com as consequentes e abruptas alterações na nossa rotunda figura, em que nos debatemos diariamente com a negligência traduzida numa alimentação em que os proibidos hidratos de carbono, ou os líquidos de Baco reentram insidiosamente nos pratos e copos.


 


Este intróito vem a propósito das minhas pesquisas em relação à existência de sobremesas, daquelas fantásticas porque não são doces, com a respectiva concretização e degustação. E eu adoro tartes. Combinando receitas ouvidas pela rádio, do Chefe Avillez, com outros inputs dietéticos e a própria intuição, eis o resultado:


 


Tarte de maçã com canela e gengibre:



  1. Forra-se uma tarteira com 1 folha de massa folhada já feita (compram-se em qualquer super hipermercado), até pode ser uma light (também há);

  2. Acende-se o forno a médio gás

  3. Cortam-se várias maçãs (a quantidade depende da quantidade de recheio com que se quer encher a tarteira), com ou sem pele (eu tirei a pele) em gomos fininhos para dentro de uma frigideira anti aderente, em camadas, alternando com canela em pó, uma pitada de gengibre, também em pó, e uns borrifos de limão;

  4. Pode-se juntar 2 colheres de chá, mal cheias, de mel

  5. Deixa-se amolecer o recheio de maçã ao lume.

  6. Enche-se a tarteira com o preparado anterior

  7. Vai ao forno até assar a massa folhada (cerca de 30 minutos)


 


Tarte de pêra com chocolate



  • Exactamente o mesmo, mas em vez de maçã usa-se pêra.

  • Entre o ponto 6 e 7, rala-se chocolate em barra, preto (70% de cacau) para cima do recheio, como se fosse pó, ou mesmo em lascas


 


Experimentem. Ficam muito boas. Para quem não tem os problemas de rotundidade focados mais acima, junte uma bola de gelado de natas ou de baunilha.

22 maio 2017

Um dia como os outros (174)

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Não: publicar um vídeo que circulava nas redes sociais, de um rapaz a meter a mão nos jeans de uma rapariga enquanto à volta, num autocarro, outros rapazes e raparigas incitam e aplaudem, não é jornalismo. Um vídeo não é uma notícia. Notícia - porque tem interesse público - é informar sobre existência do vídeo, perguntar às autoridades se estão a investigar, procurar saber que autocarro era aquele, se o motorista sabia, tentar falar com alguns dos presentes ou até com os protagonistas, enquadrar o ocorrido em termos legais - pode ser crime? Se sim, qual? No caso de a jovem ser menor, quais as implicações? Filmar aquilo é lícito? E difundir?


Tentar responder a estas perguntas básicas seria jornalismo. (...)


 


Fernanda Câncio

20 maio 2017

Fora do mundo

 


Nos últimos 10 dias por terras de França, submergimos na actualidade francesa, ouvindo horas de debates sobre Emmanuel Macron e o seu governo. O resto do mundo eclipsou-se, com excepção de Trump, que teve direito a um programa inteiro sobre ele.


 


Há algum autismo no Hexágono ou é só por causa do momento político atribulado?


 

Dos inevitáveis fins

Regressámos ao Luxemburgo, após uma excelente e repousante noite num motel absolutamente surpreendente pela qualidade, integrado num supermercado, com um quarto espaçoso, uma casa de banho excelente e uma oferta de café Nespresso à chegada. O pequeno almoço esteve à altura, com o melhor café da temporada, pão, queijo, fruta, enfim, uma delícia.


 


O sol despediu-se também, com o fim das férias. Intensa chuva, Luxemburgo caótica, cheia de carros, trânsito e obras.


 


Esta foi uma viagem desejada há bastante tempo. Visitar a zona de fronteira franco-alemã, local da permanente instabilidade na Europa ao longo dos séculos XIX e XX, desde a Guerra Franco-Prussiana à II Guerra Mundial, passando pela I Grande Guerra, é muito importante para entender as pulsões nacionalistas, como elas são importantes e podem ser manipuladas para se atingirem objectivos de poder expansionista, ver onde se sofreu e fez sofrer, onde se dizimaram populações, onde se praticaram coisas inimagináveis em nome de uma imaginada superioridade natural e genética. É mesmo uma das melhores formas de não repetirmos erros e massacres.


 


Nunca é demais percebermos que somos seres capazes do melhor e do pior, que a luta pela sobrevivência pode levar às maiores vilezas, mas que o sentimento de solidariedade e amor pelo próximo existem, são mais do que quimeras religiosas ou frases feitas, e são essenciais para a continuação da nossa espécie e até do nosso planeta. Novos perigos se aproximam, ou se calhar são velhos, mas com o verniz do tempo a reclamar actualidade. Saibamos ultrapassá-los com os olhos, o pensamento e o sentimento bem ancorado na reflexão do que se passou, porquê e como, para que não volte a passar-se.


 


Foram 10 dias muito felizes e intensos. Viajar é das melhores coisas do mundo. Pelo que de bom encontramos, de diferente aprendemos, do novo que nos inspira, mas também pelo apreciar do que de bom, ou mesmo de melhor nós temos para oferecer, neste nosso canto que tantas vezes diminuímos e desprezamos. E então quando se tem uma viagem tão bem planeada por um guia privado e particular, o sucesso está garantido.


 


Falta-me ainda referir a satisfação pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, que me apanhou em Nancy. Confesso que já há muitos anos que não assistia ao festival. As músicas, convenhamos, têm sido horríveis e todas iguais. Este ano ouvi a canção portuguesa na Rádio Comercial e fiquei rendida. É melodiosa e despretensiosa e tem uma letra que cola com a música. Na realidade nunca pensei que Portugal ganhasse. Pode ser que seja um bom presságio e que o festival mude um pouco e deixe de ser um conjunto de inanidades a todos os níveis. Parece que o público está a fartar-se de idiotices. Parabéns a todos os que contribuíram para este desfecho, principalmente aos irmãos Luísa e Salvador Sobral.

Maria dos cacos

Maria dos Cacos era, na verdade, Maria Póstuma, o nome da primeira grande ceramista de Caldas da Rainha. Filha e neta de oleiros, nascida no...