Passos Coelho nunca nos desilude.
deste sai e entra e entra e sai,
a falar ninguém os leva presos
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Nos últimos 10 dias por terras de França, submergimos na actualidade francesa, ouvindo horas de debates sobre Emmanuel Macron e o seu governo. O resto do mundo eclipsou-se, com excepção de Trump, que teve direito a um programa inteiro sobre ele.
Há algum autismo no Hexágono ou é só por causa do momento político atribulado?
Regressámos ao Luxemburgo, após uma excelente e repousante noite num motel absolutamente surpreendente pela qualidade, integrado num supermercado, com um quarto espaçoso, uma casa de banho excelente e uma oferta de café Nespresso à chegada. O pequeno almoço esteve à altura, com o melhor café da temporada, pão, queijo, fruta, enfim, uma delícia.
O sol despediu-se também, com o fim das férias. Intensa chuva, Luxemburgo caótica, cheia de carros, trânsito e obras.
Esta foi uma viagem desejada há bastante tempo. Visitar a zona de fronteira franco-alemã, local da permanente instabilidade na Europa ao longo dos séculos XIX e XX, desde a Guerra Franco-Prussiana à II Guerra Mundial, passando pela I Grande Guerra, é muito importante para entender as pulsões nacionalistas, como elas são importantes e podem ser manipuladas para se atingirem objectivos de poder expansionista, ver onde se sofreu e fez sofrer, onde se dizimaram populações, onde se praticaram coisas inimagináveis em nome de uma imaginada superioridade natural e genética. É mesmo uma das melhores formas de não repetirmos erros e massacres.
Nunca é demais percebermos que somos seres capazes do melhor e do pior, que a luta pela sobrevivência pode levar às maiores vilezas, mas que o sentimento de solidariedade e amor pelo próximo existem, são mais do que quimeras religiosas ou frases feitas, e são essenciais para a continuação da nossa espécie e até do nosso planeta. Novos perigos se aproximam, ou se calhar são velhos, mas com o verniz do tempo a reclamar actualidade. Saibamos ultrapassá-los com os olhos, o pensamento e o sentimento bem ancorado na reflexão do que se passou, porquê e como, para que não volte a passar-se.
Foram 10 dias muito felizes e intensos. Viajar é das melhores coisas do mundo. Pelo que de bom encontramos, de diferente aprendemos, do novo que nos inspira, mas também pelo apreciar do que de bom, ou mesmo de melhor nós temos para oferecer, neste nosso canto que tantas vezes diminuímos e desprezamos. E então quando se tem uma viagem tão bem planeada por um guia privado e particular, o sucesso está garantido.
Falta-me ainda referir a satisfação pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, que me apanhou em Nancy. Confesso que já há muitos anos que não assistia ao festival. As músicas, convenhamos, têm sido horríveis e todas iguais. Este ano ouvi a canção portuguesa na Rádio Comercial e fiquei rendida. É melodiosa e despretensiosa e tem uma letra que cola com a música. Na realidade nunca pensei que Portugal ganhasse. Pode ser que seja um bom presságio e que o festival mude um pouco e deixe de ser um conjunto de inanidades a todos os níveis. Parece que o público está a fartar-se de idiotices. Parabéns a todos os que contribuíram para este desfecho, principalmente aos irmãos Luísa e Salvador Sobral.
Cidade belga que, em Dezembro de 1944 e durante a Batalha das Ardenas, foi cercada e palco de um combate sangrento entre alemães e aliados, mais precisamente de algumas divisões do exército americano.
A batalha iniciou-se a 16 de Dezembro de 1944, com o ataque surpresa das forças alemãs, e terminou no fim de Janeiro de 1945, com a retirada das mesmas forças, para trás das suas posições iniciais. Bastogne era uma pequena cidade importante pela sua posição estratégica, na convergência das principais vias de comunicação (estradas).
A cidade foi cercada pelos alemães. Um Inverno rigorosíssimo, com o céu fechado aos aviões e temperaturas abaixo dos 15 graus negativos, levaram as tropas americanas e a população aos limites do esforço e da resistência, sem possibilidade de serem reabastecidos, substituídos ou tratados, com medicamentos, agasalhos e comida em falta. Mas nem assim os alemães conseguiram a sua rendição, a cuja resposta responderam “Nuts” (ou pelo menos foi o que se imortalizou) pela boca do General Anthony McAuliffe, comandante da 101ª Divisão Aerotransportada dos EUA.
O dia estava bastante cinzento e chuvoso, mesmo a convidar para o passar entre portas. O Bastogne War Museum está bastante interessante, com 3 pequenos filmes em que se dramatizam as histórias de 4 protagonistas, bem à maneira americana, em que tudo se personaliza para fazer as pessoas sentirem-se identificadas com a História. Os personagens são uma criança de 13 anos, uma professora de 24 anos (ambos belgas), um militar americano e um militar alemão.
Entre os filmes passamos por várias salas profusamente ilustradas e com explicações de enquadramento da batalha das Ardenas, explicando os antecedentes da II Guerra Mundial, a ascensão das ditaduras, a eclosão da guerra e as consequências do pós-guerra com a reorganização mundial e a guerra fria.
Gostei muito do museu e penso que vale a deslocação. Cruzámo-nos com um grupo de excursionistas provenientes, penso eu, de um lar de 3ª idade, muitos em cadeiras de rodas. Pelas respostas dos acompanhantes - Non Simone, nous sommes au musée – para uma senhora que não se dava conta do que estava a fazer; Albert! Albert! – chamava outra acompanhante por um velhote que parecia querer escapulir-se a todo o custo, sabe-se lá para onde; os auscultadores que eram fornecidos à entrada, com as explicações em francês ou inglês, estavam colocados nos sítios mais inusitados da cabeça, pouco coincidentes com os canais auditivos… Enfim, o restaurante com a refeição que os aguardava pode ter sido o verdadeiro objectivo e o ponto alto daquela manhã.
Bastogne está grata aos americanos. É também um dos pontos da Via da Liberdade, justamente assinalada com o seu marco. Outro acontecimento imortalizado por uma rotunda com esculturas em ferro, é a prova de ciclismo Liège-Bastogne-Liège, cuja existência desconhecia totalmente.
Choveu o dia todo. No dia seguinte a viagem terminava.
Place Ducale
Antes de Bastogne, cidade mítica e mártir, aonde se defrontaram, num Inverno duríssimo, as forças alemãs e americanas, fizemos o caminho por Sedan, parando antes em Charleville-Mézières, uma vila resultante da reunião de duas: Charleville e Mézières. Muito bom tempo, uma vila muito bonita, com a sua Place Ducale, construída em 1606 e semelhante à antiga Place Royal de Paris (actual Place des Voges), onde conseguimos um lugarzinho num dos muitos cafés-restaurantes em baixo das arcadas.
Place Ducale
Chegámos a Sedan à tarde, já um pouco apressados porque queríamos ir visitar o Castelo de Sedan. Na realidade, durante a II Guerra Mundial, este forte não impediu que a Alemanha escolhesse esta área para a invasão da França, que não esperava o ataque por esse lado, tendo arrasado a cidade, que foi reconstruida após o término do conflito.
Mas é muito difícil visitar museus (e outras coisas) em França: abrem apenas a partir das 10:00h e, na prática, encerram por volta das 16:00 - 17:00h, conforme o tempo que duram as visitas, guiadas ou não, já não sendo possível entrar a partir dessas horas pois já não há tempo de terminar até às 18:00h. Mais uma vez já não chegámos a tempo.
Não me deixou saudades. No dia seguinte, bem cedo, partimos em direcção a Bastogne.
E chegou o radioso dia 16 de Maio, dia de Reims, champanhe a rodos e visita às respectivas caves.
Os planos estavam perfeitos. Passávamos por Ludes, nos arredores de Reims, para uma visita à Maison de Champagne Canard-Duchêne, seguida de uma maravilhosa degustação do maravilhoso líquido, até porque estávamos lá por volta do meio-dia, altura mais que perfeita para um aperitivo. Pois não, não dava. Désolée Madame, mais je suis seule e tenho um grande grupo para atender. Não era possível durante o dia todo. Paciência, iríamos mesmo a Reims.
Catedral de Reims
Vitrais de Marc Chagall
Começámos por deixar as malas no Hotel (o check in era só a partir das 14:00h). Muito simpático, pequeno mas suficiente para uma noite. A recepcionista, jovem escorreita e sorridente, mostrou-nos no mapa da Reims os locais mais importantes a visitar, nomeadamente duas grandes casas de champanhe, o centro da cidade, os locais para comer e a indispensável catedral, tudo onde se poderia facilmente ir a pé. Perfeito: depois de um almoço mais ou menos rápido, em que ingerimos uma óptima tábua de queijos, pusemos pés ao caminho, à torreira de um sol inclemente que ardia nos 27 graus, à desfilada pelos quilómetros infindos em busca das caves de champanhe. Uma hora depois entrámos esbaforidos por um enorme edifício, onde uma senhora muito sofisticada nos disse que só tínhamos lugar na última visita, em inglês, uma hora e meia depois. Como não tínhamos tempo de ir e voltar a outros locais, desistimos de esperar tanto tempo.
Decididos a deixar o champanhe para o jantar, arrancamos mais uns quilómetros para a catedral. Absolutamente espantosa. Enorme, majestosa, com lindíssimos vitrais, este local de sagração de tantos reis franceses, resistente aos bombardeamentos da I Guerra Mundial, é uma obra que nos exorta ao sagrado. A sua restauração só foi inaugurada em 1937, pouco antes do eclodir da II Grande Guerra.
Reims depois dos bombardeamentos (1914 - 1918)
O Museu da Rendição de 7 de Maio de 1945 teve que ficar para o dia seguinte, visto que fechava às terças-feiras. Mas valeu bem a pena. Localizado no antigo Collège Moderne et Technique (actual liceu Franklin-Roosevelt) onde Eisenhower instalou a Quartel General Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas (QGSFEA) entre 1944 e o fim da guerra, o museu conserva a sala onde foi assinada a rendição incondicional da Alemanha, pelo General Alfred Jodl (posteriormente julgado e condenado à morte em Nuremberga). Os mapas nas paredes, a mesa, as cadeiras, a identificação dos protagonistas, arrepiam e comovem quem a visita. Antes podemos assistir a um pequeno filme que explica como se passaram aqueles dias e também a necessidade de repetição da cerimónia da rendição, em Berlim, a pedido de Estaline, desta vez pelo Marechal de Campo Wilhelm Keitel (também julgado e condenado à morte nos mesmos julgamentos).
Sala da rendição
Declaração de rendição
O jantar anterior começou, de facto, com champanhe, numa esplanada agradável, comemorando 30 anos de planos que deram certo, outros não concretizados, muitas boas surpresas, algumas bem inesperadas, dias solarengos e outros cinzentos e de desilusões. É mesmo assim que tenho vivido, mais de metade dos anos que carrego, em excelente e grande companhia.
Ossuário
A Batalha de Verdun escreveu uma das mais devastadoras páginas da nossa História, da primeira metade do século XX, com a morte de cerca de 300.000 soldados franceses e alemães. Toda a área à volta de Verdun, agora verdejante e bucólica, é um imenso cemitério. Disso nos damos conta quando visitamos a Citadela subterrânea da Praça Fortificada de Verdun, com um muito bem conseguido percurso animado com projecções cinematográficas a 3 dimensões, retratando vários episódios-tipo da vida dos Poilus.
Citadela de Verdun
No Fort de Douaumont, onde chegaram a estar 3.000 soldados, deambulamos pelos labirínticos e gelados corredores e salas, imaginando o que era estar ali, sofrendo em permanência os bombardeamentos, dos quais os terrenos envolventes literalmente aos buracos são testemunha, para além dos restos das trincheiras que aí se vêem. Por todo o lado encontramos cemitérios militares, pequenos grupos de túmulos com os nomes daqueles que ali morreram.
Forte de Douaumont
Fizemos a via sacra de Verdun a Bar-le-Duc - uma estrada que permitia o abastecimento das tropas em Verdun - assinalada por marcos quilométricos encimados por une casque. Também, entre Verdun e Reims, percorremos um pouco da via da liberdade, que simboliza o caminho da libertação de França, Bélgica e Luxemburgo, efectuado pelo 3º Exército americano, comandado pelo General Patton, na II Guerra Mundial.
via sacra
via da liberdade
O Ossuário de Douaumont é absolutamente esmagador. Como foi possível, depois de todo aquele desperdício de vidas humanas que, 20 anos depois, novo conflito mundial tenha surgido? Será que as negociações de Chamberlain com Hitler não teria sido uma tentativa de evitar uma nova mortandade?
Cemitério militar, perto de Reims
Pergunto-me muitas vezes se os cidadãos da nossa sociedade europeia actual aceitariam combater da forma como o fizeram os jovens (e os menos jovens) nas Guerras Mundiais, principalmente na Grande Guerra. Na verdade, quantos daqueles soldados, de qualquer dos países envolvidos, tinha sequer saído da sua terra natal? Quais as suas motivações, para além da doutrinação que provavelmente era feita, na altura da mobilização e do treino militares? Seria hoje possível uma tal mobilização, uma tal doutrinação, uma tal entrega? Por outro lado, se calhar as próximas guerras mundiais não se centrarão em bombardear casas e pessoas, matar e esventrar países e continentes, bastam ataques informáticos para desestruturar a vida dos países e das pessoas.
trincheira em Verdun
Em Verdun a nossa alma encolhe. Quanto podem os homens fazer mal a si próprios e, ao mesmo tempo, quanto podem os homens sacrificar-se por si e pelos outros. Após um século convém lembrar a realidade daquilo que ninguém imaginava ser possível a 27 de Julho de 1914.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...