21 agosto 2016

O baú de Hambourg (1)

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Este foi um projecto ganhador, na tradição das melhores histórias policiais que tenho lido, passe o auto elogio.


 


O baú de HamburgoLa malle de Hambourg – é uma série francesa de 1972, que passou na nossa TV há muitos anos, talvez em 1976 ou 1977, não consigo precisar, da qual eu devo ter visto alguns bocados de alguns episódios. Naquela altura a quantidade de televisão que víamos era muito inferior e os nossos interesses bem mais diversificados, pelo que fiquei sempre sem saber exactamente o fio da história, assim como a sua conclusão.


 


Tudo girava à volta de um baú proveniente de Hamburgo, embrulhando-se depois o enredo em crimes, teatro amador e muito mais de que não me lembrava. Mas a curiosidade ficou e durante todos estes anos tenho tentado descobrir a série para ver se ainda mantinha o interesse que na altura me despertou.


 


O problema é que eu não sabia nada da série – não sabia se era francesa, belga ou outra qualquer nacionalidade onde se falasse o francês. Não me lembrava do nome – sabia que tinha algo ver com um porto e o nome que me vinha à memória era Amsterdão. Aliás, provavelmente condicionada por Jacques Brel, procurava afincadamente o nome Le port d’ Amsterdam. Não conhecia qualquer dos actores, nem tão pouco o realizador. Enfim, descobrir o rasto de uma obscura série televisiva que tinha passado por Portugal há cerca de 40 anos era uma tarefa árdua e quase impossível de concretizar.


 


Já não sei como me surgiu o verdadeiro nome da cidade portuária – Hamburgo! E depois, de imediato, o resto do título – A mala de Hamburgo!


 


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Porto de Hamburgo 


 


A Internet, mais uma vez, demonstrou ser uma prodigiosa ferramenta para detectives modernos e pesquisadores de tesouros enterrados nas brumas do tempo e da memória. Devolveu-me rapidamente La malle de Hambourg. Portanto não era uma mala mas sim um malão, ou um baú.


 


E pronto, reconheci de imediato a cara do actor que aparece no trailer. Sim, era mesmo aquela. O problema era encontra-la à venda – pode comprar-se através do INA, como me confidenciou alguém que encontra séries ainda mais arrevesadas que esta. Outro problema era compreender o francês, pois nem pensar em legendas de qualquer tipo, nem mesmo na língua original, o que ajudaria bastante.


 


Mas a satisfação era tanta e a possibilidade de, finalmente, ver a série de fio a pavio, que arrisquei. Chegaram 10 DVD, pelo correio, pontualmente 10 dias após a encomenda, tal como prometido…


 


…à suivre…


 

20 agosto 2016

De marfim

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Tjep.


Clockwork love paper - burning


 


 


Seria de marfim


etérea a cor e suave de mãos


o doce olhar final sobre o teu rosto.


Seria de coral


firme cantata que os lábios reconheceriam


por entre todas as flores que se enterram


nascentes de água perfumada na estranha


pálida e sombria palavra de escravidão


pelo amor


pelo reino


pelo pão.


 


Ao chegar ao cume da montanha


para lá de qualquer horizonte perdido


as ruas de um passado já deserto


abrem as neblinas encrespadas


e as velas dos navios naufragados


desfazem-se nas asas dos pássaros


de ébano


de fumo


de lume.


 


E assim terá que ser.


Encolhemos de terror e de bravata


lambemos os dedos e choramos as perdas


decididamente mergulhados no tempo que nos resta


por dentro da dor da preguiça do lodo


vamos criando raízes e sugando o mundo


por ti


por mim


por nós.


 

19 agosto 2016

Fotografia

 


worldpressphoto2016.jpgJonas Lindkvist


 


 


No espelho da água


os contornos da figura


e o pó da neblina desdobra a manhã.


No olhar fixo que interroga


a dúvida persiste


e para sempre perdura.

15 agosto 2016

La vie en rose


Richard Galliano & Sylvain Luc

Curtíssimas

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Jacob and the Angel


Sir Jacob Epstein


Tate


 


São de Verão, mas poderiam ser de qualquer outra estação.


 



  • O palavreado dos nossos políticos/ figuras públicas é cada vez mais vulgar - a lengalenga dos comentadores é sempre a mesma, os assuntos repetem-se ciclicamente nesta época, a aridez e a secura informativa queimam tudo.

  • É impressionante a desfaçatez, também eterna, das exigências de medalhas olímpicas a atletas e a modalidades de que ninguém fala durante os 4 anos de intervalos inter olimpíadas. Quanto à importância da participação independentemente do pódio, já não se disfarça a culpabilização de não se fazer parte da percentagem dos vencedores.

  • É uma pena que as experiências anteriores não ensinem nada - os secretários de estado que viajaram a expensas da GALP já se deveriam ter demitido. Independentemente dos contornos criminais que a conduta possa configurar, é uma ponta solta para o ataque político a que o governo não se pode dar ao luxo.

  • Tenho a sensação de que a Procuradoria-Geral da República abre inquéritos ao arrasto do ruído mediático.

  • Já todos sabemos que a apresentação de imagens e filmes de fogo vivo excitam e motivam os pirómanos, tal como a multiplicação mediática dos corpos e das chacinas perpetradas pelos criminosos e terroristas apenas servem para propagar o medo, mas não há o menor vislumbre de um sobressalto de consciência e de sensatez da parte das televisões que, pelo contrário, rivalizam entre si medindo os minutos dedicados à exposição das chamas, dos desgraçados que perderam tudo, do desespero das populações - a tudo isto chamam o direito à informação.

  • A informação veiculada pelos jornais está cada vez mais ao nível da que usufruímos ao ler as opiniões e as partilhas requentadas do facebook.


 


Não sei bem porque ainda vou escrevendo alguma coisa. A total irrelevância do que escrevo deveria ensinar-me a resoluta opção pelo silêncio. Aquilo a que chamo poesia talvez só o seja para mim; os arroubos de cidadania não têm qualquer impacto, a partilha de opiniões são-no apenas para um círculo muito restrito que não necessita de ler o blogue. Porquê esta necessidade de protagonismo mediático? Nem é protagonismo nem é mediático. Suspeito que seja apenas triste e ligeiramente ridículo.

14 agosto 2016

Palácio Nacional da Ajuda

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O Palácio Nacional da Ajuda - o seu projecto, construção, readaptação de projecto, etc. - é um bom retrato da forma como o País funciona. Quando as idades passam a ser mais avançadas, a tendência para vermos degradação e laxismo nas novas gerações é cada vez maior. Mas basta um pequeno conhecimento, mesmo que escasso e limitado, da nossa História, e percebemos que sempre fomos feitos da mesma massa, e que os pendentes arrastados e seculares são um princípio, um meio e um fim, uma mistura de incúria, lentidão, arrojo, capacidade de adaptação e de ultrapassagem de dificuldades, económicas e outras, megalomania e realismo.


 


O Palácio Nacional da Ajuda, projectado para residência real no rescaldo do terramoto de 1755, foi erigido como Real Barraca que, como é hábito entre nós, foi um palácio provisório por 33 anos, tendo sido destruído por um incêndio. Depois, entre projectos barrocos e reprojectos neoclássicos, invasões francesas e mortes reais, o Palácio vai sendo construído durante anos e anos, mais ou menos habitado e utilizado até ao reinado de D. Luís, altura em que foi (de novo) adaptado ao Rei e, sobretudo, à Rainha D. Maria Pia.


 


A visita ao Palácio dá-nos um vislumbre da vida doméstica de D. Luís, D. Mia Pia e da sua descendência, com os aposentos da Rainha e do Rei, a sala de bilhar, a sala da música, os quartos de dormir, as ante câmaras, as salas onde o Rei despachava, recebia os dignitários nacionais e estrangeiros, etc. Ainda hoje alguns aposentos são usados, nomeadamente para banquetes de Estado e para cerimónias de investidura de governos, tanto quanto percebi.


 


O Palácio precisa de obras e de cuidados de manutenção, como tantos outros palácios, museus e galerias, património arquitectural periclitante e a esboroar-se, parte da nossa memória colectiva. Por vezes vêem-se placas para que fiquemos a conhecer os mecenas - a GALP, o Millenium BCP - que financiaram alguma da reabilitação.


 


Outro dos motivos para a visita é a exposição (até ao fim deste mês) de pintura romena entre 1875 e 1945, constituída por quadros da Colecção Bonte, para mim uma revelação, primeiro por total desconhecimento da pintura romena e porque as obras são muitíssimo interessantes.


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13 agosto 2016

Da desinformação doméstica

Aqui está como a desinformação e manipulação informativas já fizeram escola. 


 


Em abono da seriedade jornalística é bom que se reponha a verdade dos factos:



  • A hora não era assim tão matinal: eram 09:00h.


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  •  A Edna não estava a par das tardias horas de repouso do amantíssimo esposo.


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  •  O carinhoso pequeno almoço está suspenso até à necessária retratação.


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A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...