25 dezembro 2015

Dos Natais gastronómicos

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De facto o borrego ficou bastante bom. De pernas de peru que não havia, ao cabrito que também já tinha acabado, o almoço do dia de Natal transformou-se em perna e costeleta de borrego assadas no forno. Era mais condicente com almoço pascal, mas não faz mal, o senhor do talho foi bastante persuasivo, defendendo que o borrego era até bastante melhor que o cabrito porque o último é muito mais caro e tem mais ossos.


 


A marinada começou ontem à tarde, após a habitual confecção da aletria e das rabanadas, este ano feitas com pão de forma especial torradas. Ficaram melhores do que com as fatias mais finas, não há qualquer dúvida. O óleo gostou menos e saltou muito mais, mas são problemas menores comparados com a macieza das ditas, polvilhadas e a ensopar de açúcar e canela. As couves também já estavam arranjadas e o grão bem cozido, enquanto as postas de bacalhau (e a cara) esperavam a respectiva vez de serem cozinhadas.


 


Dizia eu que o borrego ficou a marinar em sal, pimentão doce, muito alho, cebola, tomilho, gengibre (eu agora uso gengibre em tudo), louro, margarina, azeite, vinho branco e aguardente. Antes de ir para o merecido descanso nocturno virei a perna e as costelas, para ficar tudo bem embebido. Hoje ficou a assar por duas horas e meia. Acompanhamos com castanhas, assadas ao mesmo tempo e no mesmo tabuleiro, esparregado e salada de tomate.


 


Enfim, vamos agora ficar a sopas de legumes até ao próximo Natal, depois de tanta doçaria - azevias, sonhos, fofos de abóbora, bolo escangalhado e umas maravilhosas filhós que, este ano, sofreram um upgrade aplicacional porque usei a batedeira em vez das mãos - menos tradicional mas muitíssimo mais prático, convenhamos. A revolução industrial serviu para alguma coisa.


 


E vai começar agora a degustação das ofertas recebidas. Devagar, para durar mais...

22 dezembro 2015

Governar é difícil

Começaram já as dificuldades deste governo. As esquerdas devem reflectir bem no que se vai passar. É óbvio que ninguém gosta da solução encontrada para o BANIF mas a dúvida é outra - qual a hipótese alternativa? Será este o primeiro teste à vontade das esquerdas para assumirem os problemas e os rigores da governação.


 


Quanto ao PSD e ao CDS, nem tenho palavras para a vergonha de colocarem sequer a hipótese de não apoiarem este orçamento rectificativo, quando eles são os responsáveis pelo dito.


 


António Costa tem mostrado o que é ser um Primeiro-ministro. O governo está a fazer o que pode e o que deve. Finalmente. Vamos ver quanto tempo ainda falta para que Carlos Costa se demita.

O direito à saúde

A morte de um jovem por aneurisma cerebral, num dos principais hospitais da capital do País, por não haver equipa de neurocirurgia durante o fim de semana é demasiado grave e chocante. Não é possível aceitar esta situação. Espero que, para além das demissões a que estamos a assistir, sirva pelo menos para que alguma coisa seja feita. Como é possível não haver neurocirurgia vascular de urgência em nenhum dos dois maiores Hospitais de Lisboa? Como é possível que os Directores dos Serviços de Urgência, os Directores dos Serviços de Neurocirugia, os Directores Clínicos, as Administrações Hospitalares, a própria ARS tenham convivido com esta realidade?

20 dezembro 2015

Da espiritualidade da Arte

As minhas comemorações de Natal começaram a 5 deste mês, com A Colectividade colectiva, sediada no Teatro Meridional para comemorar o seu 75ª aniversário. Tive a sorte de ter havido uma desistência mesmo à última hora, pois já estava tudo esgotado. Muito, muito bom, como aliás é hábito do Meridional, nomeadamente de Natália Luíza. Os espectáculos são sempre inovadores, divertidos, inteligentes e comoventes, fazendo a ponte entre a realidade e o imaginário, a crítica irónica e a militância cívica, saio sempre com o coração dilatado de ternura e orgulho.


 


Depois fui ver A ponte dos espiões, seguido de um jantar ameno com alguém que me aquece e aconchega, com quem a conversa nunca se esgota.


 


E hoje entrei pelo júbilo místico com a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach (Cantatas I, III e VI) no CCB, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Coro Lisboa Cantat, com os solistas Ana Quintans, Maria Luísa Freitas, Marco Alves dos Santos, João Fernandes, e os maestros Jorge Carvalho Alves (coro) e Leonardo García Alarcón (coro e orquestra). Que orgulho ouvir excelentes músicos e cantores líricos portugueses nesta maravilhosa interpretação das Cantatas de Bach.


 



Oratória de Natal, BWV 248 Cantata I


 



Oratória de Natal, BWV 248 Cantata III


 



Oratória de Natal, BWV 248 Cantata VI 


 


Investir na cultura deveria ser uma das prioridades para o desenvolvimento económico de Portugal. Sala cheia e aplausos demorados, de uma plateia cheia de gente sedenta de música. Começo bem o Natal.

Da reconfiguração das ideias

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A ideia de que o Estado deverá ser mínimo porque atrapalha e não se sabe gerir, e que apenas o sector privado faz mover a economia e tudo regula, desde o mercado de trabalho aos preços e ao consumo através da livre concorrência, demonstrou-se uma falácia.


 


A discussão à volta do eventual esvaziamento do papel do Conselho de Concertação Social, propagado pela direita, pois há décadas que a correlação de forças é nitidamente favorável às confederações patronais, é bem o exemplo disso mesmo. Com a demissão do Estado, no que diz respeito ao número de trabalhadores, à redução das tabelas salariais e à destruição das carreiras profissionais, não fez mais que permitir a selvajaria salarial no sector privado, baixando-se todos os níveis mínimos de remunerações, assim como o desinvestimento na qualificação, pois fica muito mais barato contratar precariamente pessoal jovem em início de carreira ou desqualificado, que trabalhadores qualificados ou quadros já com experiência. Como não há qualquer concorrência a nível estatal não há forma de elevar as fasquias das condições de trabalho, salariais, de horários, segurança e progressão formativa.


 


O número de desempregados é outro embuste. Há muitíssimas pessoas nas faixas etárias entre os 40 e os 60 anos que já saíram de todas as estatísticas porque já não fazem parte dos que estão inscritos em centros de emprego. Essa mole de gente resultante das últimas décadas de deslocalizações, de fusões e concentrações que produziram o tão almejado crescimento económico alicerçado na pobreza e nos despedimentos de hordas de trabalhadores, com a mirífica tese das eficiências e eficácias, engrossa os descrentes na democracia, formando exércitos silenciosos de revoltados que cada vez têm menos a perder.


 


Vale a pena fazermos uma reflexão profunda sobre vários dogmas que têm sido o corolário do centro político desde a queda do muro de Berlim. A ideologia comunista demonstrou na prática o tipo de sociedade totalitária, desigual, violenta, desumana e subdesenvolvida que criou. Mas a nova ideologia capitalista que subsistiu liberta da concorrência comunista, com o embuste da auto-regulação dos mercados, da concorrência e da globalização está a produzir uma sociedade violenta, desigual, subdesenvolvida e desumana, e também a caminhar para regimes distantes da democracia participativa e representativa, como se prova pela forma como a própria União Europeia tem lidado com os problemas dos países e das economias periféricas, induzindo se não mesmo impondo soluções governativas à revelia dos povos.


 


Um dos assuntos que nos deveria fazer pensar, sem preconceitos ideológicos, é a existência de um sector bancário privado que não se pode reger pelas leis do mesmo porque, ao contrário de qualquer outra actividade - farmácias, supermercados, escritórios de advogados, sapatarias, etc.. - não pode falir, sob pena do seu efeito se propagar a toda a economia, tendo o Estado que assumir os prejuízos.


 


Então, porque é que não se nacionaliza a banca? Por muito retrógrado e/ ou revolucionário que esta ideia pareça, não seria o mais lógico? Ou o Estado só vale quando tem que salvar os vários bancos que, ao longo de tanto tempo, distribuem dividendos aos seus accionistas mas não podem absorver as suas dívidas e as suas falências?


 


E que tal começarmos a abrir as janelas para arejar as ideias, soprar o pó, varrer as teias de aranha e alterar a decoração das nossas mentes?


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Nota: bem a propósito, vale a pena ler A. Teixeira - O autor da "coisa".

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...