Confesso que me escapam, por vezes, as razões pelas quais alguns assuntos causam incêndios nas redes sociais e outros não beliscam as consciências de quem ouve notícias.
Vem esta reflexão a propósito de alguns factos recentes da nossa informação televisiva. O primeiro caso que foi motivo de grande agitação foi o do programa Prós e Contras sobre o estado da Justiça em Portugal, em plena campanha eleitoral. Para minha estupefacção, as palavras de Paulo Rangel não serviam para mote de um programa de informação, uilizando-as para lançar a discussão em torno da Justiça, ou da falta dela, e da suposta partidarização da mesma/ politização da Justiça. Esta ideia motivou um violento ataque à pivot do programa e ao director de informação, tendo-se usado inclusivamente a insinuação de favores políticos pela existência de laços familiares entre Fátima Campos Ferreira e um membro do governo. Nada me parecia mais adequado, em plena campanha eleitoral, como o confronto dos vários intervenientes com a gravíssima declaração de Paulo Rangel. Após a transmissão do Prós e Contras fez-se um silêncio ensurdecedor, como se a polémica anterior não tivesse existido.
O segundo caso passou-se há poucos dias e refere-se à suposta graçola de José Rodrigues dos Santos em relação ao género do Prof. Alexandre Quintanilha. José Rodrigues dos Santos já mostrou por diversas vezes a sua incompetência, negligência, falta de pejo na indisfarçável parcialidade dos seus comentários pretensamente apolíticos e inteligentes, para além de um humor sem graça que se manifesta naquele inominável piscar de olho. Ao ver e ouvir o que disse e que, de facto, se presta à interpretação de um momento de pseudo brejeirice estúpida, é natural a indignação do Prof. Quintanilha e de todos os que o ouviram. Mas a verdade é que as explicações e o pedido de desculpa posteriores são, pelo menos, plausíveis.
O terceiro caso prende-se com uma notícia de há 2 dias, também fornecida pela RTP, em que terá havido pelo menos um caso de suspeita de fraude nas eleições de Domingo, quando duas eleitoras foram impedidas de votar porque os seus votos já teriam sido descarregados. E ao contrário do que se passou com as duas situações anteriores, não vi qualquer menção, nem indignação, nem petição, nem pedidos de explicações, nada, como se nada se tivesse passado. Ora a essência de um regime democrático e pluripartidário está na santidade de uma eleições livres e limpas, em que não se toleram suspeitas de fraude.
Não pretendo minimamente arvorar-me em juíza das boas e das más causas, mas estas coincidências causam-me alguma desconfiança quanto aos verdadeiros motivos destas indignações selectivas. Será que não haverá alguma animosidade contra a RTP e, especificamente, contra Paulo Dentinho?
Nota: Já agora reparo na discrição que acompanha e acompanhou a saída de António José Teixeira da direcção de informação da SIC Notícias logo após as eleições.