23 março 2014

Das indignações de termo incerto

 



 


 


Devo andar muito distraída ou cada vez mais vendida ao grande capital e à exploração desregrada dos trabalhadores, visto que fui surpreendida com uma indignação que alastrou qual incêndio em palha seca pelo facebook, a propósito de iogurtes oferecidos pela Danone a alunos estagiários, de uma reportagem da RTP sobre a opinião dos jovens estagiários, e de um programa da Antena 1, com Isabel Stilwell e Eduardo Sá que opinavam contra a indignação dos estagiários.


 


Ou seja, a indignação é o elemento comum de toda esta história descabelada. Além disso descobri que, no serviço onde trabalho, afanamo-nos a proporcionar estágios curriculares a vários alunos mas, pelos vistos, deveríamos recusar-nos a fazê-lo, para não os humilhar. E ainda por cima há uma espécie de tradição em que os alunos oferecerem um bolo ao serviço, no último dia de estágio...


 


Antes de mostrarmos tanto escândalo, talvez não fosse má ideia perceber exactamente do que estamos a falar para não confundirmos as coisas.


 


Estágios curriculares - são períodos de semanas a alguns meses, integrados nos curriculos dos vários cursos/ licenciaturas, que as várias instituições de ensino contratualizam com empresas, para as vertentes práticas das várias formações. Estes estágios obedecem a um determinado programa, têm responsáveis ou tutores que, pelo menos no nosso caso, não auferem qualquer remuneração, que devem delinear o dito programa, supervisioná-lo e avaliá-lo, com provas práticas, relatórios, etc. Estes estágios são parte integrante dos cursos/ licenciaturas, que não podem ser concluídos sem eles. Os estagiários não são, como me parece absolutamente lógico, remunerados.


 


Estágios profissionais - períodos mais ou menos longos em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos ficam em empresas, iniciado-se na actividade profissional, habitualmente ainda sem autonomia total, que funciona como integração, sujeitos a uma avaliação do desempenho pelo empregador. Estamos a falar de um contrato, mesmo que em períodos experimental e que deveria ser obrigatoriamente remunerado - coisa que não o é, na maior parte dos casos.


 


Estágios voluntários - períodos com duração máxima de 3 meses, segundo creio, em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos pedem para se integrarem numa empresa que tenha possibilidade de os acolher, para enriquecimento curricular e aquisição de experiência. Estes estágios multiplicam-se por vários períodos dada a ausência de oferta de empregos. Estes estágios não são remunerados e, obviamente, deveriam sê-lo. Estes casos só existem porque o desemprego é galopante e são uma forma de mantenção do contacto com o mundo profissional. Esta é, de facto, uma exploração indevida de mão-de-obra a custo zero.


 


Os estagiários que tanto se indignaram com a Danone pertencem ao 1º grupo, pelo que não entendo a indignação deles, não percebo a razão da indignação incendiária do facebook e percebo, além de concordar, com a visão de Isabel Stilwell e de Eduardo Sá.


 


Estou portanto caduca e rendida aos mais férreos valores conservadores e opressivos do neoliberalismo, uma velha caquética que se esforça por colaborar na formação prática dos jovens.


 

20 março 2014

Europa

 



 


 


Eu até concordo que se fale da Europa, durante a campanha para as próximas eleições. O problema é que o que há a dizer é nada. Não conheço nenhuma ideia original que os partidos tenham a apresentar e discutir sobre a Europa política, económica e social.


 


Na verdade o país depende exactamente do que todos pensarmos sobre a forma como o espaço europeu funciona, ou melhor, não funciona. Mas será que há algum dos nossos candidatos a deputados que tenha alguma sugestão a fazer? E o Presidente? O que pensa do nosso passado recente, do presente e do futuro da União Europeia? Será que pensa?


 

18 março 2014

Seia Jazz&Blues

 



 


(...) O último dia, sábado, será preenchido com a atuação, a partir das 22:00, dos grupos Manu Jazz (Oliveira do Hospital) e SoWhat?, com Nana Sousa Dias. (...)


 


RTP notícias


 


 

17 março 2014

Los Hermanos

 






(daqui)




Yo tengo tantos hermanos 
que no los puedo contar. 
En el valle, la montaña, 
en la pampa y en el mar. 

Cada cual con sus trabajos, 
con sus sueños, cada cual. 
Con la esperanza adelante, 
con los recuerdos detrás. 

Yo tengo tantos hermanos 
que no los puedo contar. 

Gente de mano caliente 
por eso de la amistad, 
Con uno lloro, pa llorarlo, 
con un rezo pa rezar. 


Con un horizonte abierto 
que siempre está más allá. 
Y esa fuerza pa buscarlo 
con tesón y voluntad. 

Cuando parece más cerca 
es cuando se aleja más. 
Yo tengo tantos hermanos 
que no los puedo contar. 

Y así seguimos andando 
curtidos de soledad. 
Nos perdemos por el mundo, 
nos volvemos a encontrar. 

Y así nos reconocemos 
por el lejano mirar, 
por la copla que mordemos, 
semilla de inmensidad. 

Y así, seguimos andando 
curtidos de soledad. 
Y en nosotros nuestros muertos 
pa que nadie quede atrás. 

Yo tengo tantos hermanos 
que no los puedo contar, 
y una novia muy hermosa 
que se llama ¡Libertad!

 

Das saudades

 



 


 


 16 de Março/2014

16 março 2014

Embustes

 


Passos volta a convidar Seguro para encontro


Passos recebe Seguro em São Bento


 


Isto é tudo tão ridículo e tão cansativo. Será que pensam que alguém ainda acredita neste embuste? Depois de tudo o que se passou à volta do Manifesto dos 70?


 

Da resistência

 



 


Confesso que nunca tinha lido a Ode Marítima na sua totalidade. Conhecia vários fragmentos, alguns que me diziam mais que outros. Antes de ir ao Teatro São Luiz copiei a Ode Marítima (site Casa Fernando Pessoa) para um ficheiro de word e li-a quase toda.


 


São indescritíveis as emoções que nos assaltam ao longo do espectáculo. Com um texto como este, a verdadeira estrela do único acto, somos levados na enxurrada de palavras que Diogo Infante debita, durante mais de 1 hora, sem que nos desprendamos de cena um único segundo.


 


Está lá tudo. Álvaro de Campos (Diogo Infante) diz-nos de uma forma inexcedível a dor e o lamento de quem se exorta a partir, anseia pelo longe e pelos diversos cais de embarque, navios que se perdem pelos sentidos e que se encontram pela ambição da descoberta, da aventura, do perigo, da experimentação de tudo, mas que não é capaz de sair da sua vida moderna, mediana e certinha, traçada diariamente com uma realidade plana, tumultuosa e avassaladora com a imaginação.


 


Não me lembro de melhor metáfora para o nosso momento colectivo. Esta ânsia que atravessa a nossa História, esta investida no que está além, para além, esta contradição entre o querer ir e a saudade do ficar, delicadamente acompanhada pelos pequenos e oportunos solos de guitarra, mais uma metáfora portuguesa, é uma das melhores formas de resistir a toda esta lama informe que nos tolhe a vida, principalmente a nossa atitude perante a adversidade.


 


É essa atitude que hoje nos falta, é esta ambição que está minguada e que se espelha na canção de Pedro Abrunhosa “Para os braços da Minha Mãe”. Gosto de Pedro Abrunhosa como compositor, não como cantor. E apesar da melodia ser bonita, apesar da voz de Camané ser excelente, a letra da canção é a tradução de uma atitude desistente e conservadora, em que à necessidade de partir não se alia qualquer cunho de curiosidade e liberdade para aprender outras realidades, outras culturas, outras oportunidades.


 


A emigração é um flagelo por quanto resulta de uma total incapacidade política, do País e da Europa, de proporcionar às populações vidas dignas e cheias, de um desperdício do esforço, empenhamento e imaginação de quem tem que procurar a felicidade noutros países. Mas esta é uma geração de emigrantes qualificados, que poderão aproveitar de uma forma mais construtiva a inevitabilidade do desembarque em tantos cais e tantos longes quanto os que a imaginação de Álvaro de Campos tanto queria sentir.


 


A resistência faz-se reagindo, com o combate da poesia, da pintura, do teatro, da música, de todas as artes que nos empurram para diante, que nos mostram mais do que aquilo que temos à nossa frente, do que nos atrofia e nos entristece. As saudades farão os navios regressarem, nunca os devem impedir de partir.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...