15 fevereiro 2014

Dos inconseguimentos de Seguro

 


Aproximam-se as eleições europeias. Alguém sabe o que defende o PS para a Europa, quais as políticas de combate ao desemprego, de manutenção da sustentabilidade do estado social, de incentivo à economia?


 


Alguém sabe o que pensa o PS sobre o fim da assistência financeira, para além da abstrusa proposta de tribunais especiais para os grandes investidores estrangeiros, para além de reabrir os tribunais que este governo fechou? Alguém sabe quais os protagonistas dos próximos combates eleitorais, quais as prioridades, os objectivos, o rumo para o país? Alguém sabe qual a estratégia para as europeias, para a legislativas, para as presidenciais?


 



 


O PS transformou-se num partido irrelevante. António José Seguro, tão cheio de apoio partidário, não tem ninguém credível para surgir como líder para os vários confrontos eleitorais. É natural, pois não tem pensamento. Vive entre a negação da governação socrática e a preocupação de ser populista. Dentro do PS há muitas vozes críticas, mas nenhuma que arrisque romper o status quo.


 



 


O PSD e o CDS preparam-se para vencer as eleições europeias e as legislativas. Para as primeiras não precisam de ter mais votos, basta-lhes ficar muito perto do resultado do PS para que a derrota do maior partido da oposição seja estrondosa, num país desgastado, deprimido e sem esperança. Para as segundas a campanha está em marcha – tudo melhorou, desde o desemprego à economia, passando pelas reformas do estado, até já se pode falar em moderação de impostos em 2015 - coincidência das coincidências.


 


A anorexia e adinamia à volta das supostas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril mostram bem o valor que esta geração política dá ao momento fundador deste regime. Uma maçada a cumprir e que gasta dinheiro, a juntar aos funcionários públicos, aos devaneios culturais e à socializante mania de ter direito à educação, à saúde, à justiça e à segurança, a uma vida e a uma velhice dignas.


 


E para quando uma tempestade, um terramoto, uma explosão dentro do PS?


 

10 fevereiro 2014

Horizontes sombrios

 


Regressam os sentimentos xenófobos e racistas. Esta Europa, que durante tantos anos permitiu a vivência das fronteiras abertas, da tolerância para os outros, da interligação cultural, retoma temores e ódios de um passado que quereríamos esquecido.


 


Mas o esquecimento é o que permite que estas ondas cíclicas nos afoguem.


 


Esta Europa está a ficar perigosa. As sondagens mostram o afastamento cada vez maior entre os cidadãos e os seus representantes, nacionais e europeus. A política arrasta-se e os líderes parece viverem num planeta diferente do comum dos mortais. A descrença e o abatimento larvares são o pior inimigo da democracia e da liberdade.


 


Os horizontes estão sombrios.


 

Lx type

 


 



 


Brilhante


 


 

Das coisas que aconchegam

 



 casa de Agnes Wahl Nieman, Prospect Street, Milwaukee


recordações de todo o mundo


Este meu corpo que se fixa na imobilidade


este meu espaço que se esvazia e aumenta


estes meus braços que alcançam


as coisas que aconchegam e se animam


flores secas retratos livros candeeiros


estátuas que se formaram em rostos e vozes esfumadas


no tempo que preenche a minha casa.


 

26 janeiro 2014

Das proibições

Tenho estado um pouco afastada dos blogues, do facebook e das notícias em geral, um pouco pelos afazeres, muito por não ter nada de novo para dizer e muito também pelo mergulho nessa lama triste em que me sinto enrolada. Talvez por isso me assustem e me fascinem cada vez mais as ondas de indignação e violência que assolam as redes sociais e os media, a total inconsistência e superficialidade com que se abordam assuntos sérios, dramáticos mesmo, sem qualquer respeito pelos factos e pelas pessoas, utilizando-se em grande escala a boa-fé com que tantos se empolgam e exigem absurdos.


 


Transforma-se em assunto internacional os amores, desamores, infidelidades e arrufos do Presidente da República francês, trazendo para a praça pública as desavenças conjugais, os internamentos e os problemas psiquiátricos de Valérie Trierweiller que, pelo facto de viver com o Presidente francês, passa a não ter direito à reserva de intimidade. Qual é a relevância deste facto para os graves problemas políticos da República francesa e da Europa? Que nos interessa se François Hollande é a reencarnação de Dom Juan? Qual vai ser o limite para a polícia dos costumes nesta Europa tão liberal e democrática?


 


Tudo se comenta e expõe, desde as preferências sexuais aos hábitos tabágicos e alcoólicos, metendo tudo num saco em que a imagem das virtudes públicas  e a obrigação das virtudes privadas se impõe como modelo. A ditadura dos comportamentos, em que a vigilância mediática se empenha, desde a correcção da linguagem até ao esquadrinhamento dos hábitos gastronómicos, especialmente os de ingestão alcoólica, encontrou agora outra causa célebre – a proibição das praxes. A propósito de uma tragédia que ainda ninguém sabe exactamente como aconteceu, pede-se já o fecho da Universidade Lusófona com a punição dos responsáveis.


 


Uma vez mais sou, e sempre fui, contra as praxes. Acho ridículos os trajes académicos, que fingem uma tradição que não têm, acho disparatados os rituais, falta-me a paciência e o entendimento para aquela forma de iniciação de grupo, para aquela capacidade de pertença e de dependência total. Não compreendo estas entregas como não as compreendo nas claques de futebol, nas associações fundamentalistas de defesa dos animais, nos grupos que decidem apenas ingerir coisas cruas, e tantos outros. Mas isso não justifica a proibição da existência desse tipo de grupos, a não ser que pratiquem qualquer tipo de actos criminosos.


 


Que os responsáveis pela prática destes actos criminosos sejam punidos, que os dirigentes das universidades que aceitam que se cometam actos criminosos perpetrados por associações em seu nome, sejam responsabilizadas, é urgente. Mas convém que não caiamos na sanha persecutória e pirómana de queimar na santa inquisição tudo e todos os que defendem e praticam rituais de iniciação, mesmo que, para nós, eles sejam disparatados e ridículos, desde que sejam livremente aceites e não sejam crimes.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...