05 novembro 2013

Fico

 



 


Há oito anos era-me impossível imaginar que me sentisse tão pouco integrada na sociedade que, entretanto, se construiu. Um tempo de entusiasmo e luta transformou-se num marasmo desesperado e taciturno. Não há já trovas mas muitos ventos que passam.


 


Tal como o país sinto-me sem rumo nem vontade. Faço dos dias um exercício de esforço, sentimento de perda permanente e susto. Desamparo perante tanto cinzentismo e tanto futuro adiado.


 


E no entanto, persisto. Mais que não seja porque assim consigo viver. De tristeza ou raiva, com alguns laivos de esperança, sempre que percebo que há alguns que de alguma maneira não desistem. E não me deixam desistir.


 


Fico.


 

03 novembro 2013

Fiéis defuntos

 



 


Todos os anos a feira de 1 de Novembro iniciava o Inverno. No dia anterior metia-se no carro rumo à casa antiga. A feira estendia-se pela rua, em frente à porta maçãs e castanhas, todos os anos uma fartura quente e um copinho de jeropiga na barraca de esquina. Muita gente, chuva e cheiro a castanhas assadas, a tasca com sandes de queijo mestiço e, no dia seguinte, carregava o carro enquanto decorria a missa dos fiéis defuntos, defuntos sim, fiéis desconfiava que poucos.


 


Mas já não há feriado. Este ano a feira mudou de dia como mudou a porta de madeira verde com ferro embutido. Sem farturas nem chuva, sem pregões nem barulho de vozes misturadas desde a s 6h da manhã, até as castanhas assadas perderam o sabor. Visitou o cemitério, que parece ter encolhido, com os jazigos e as lápides de dimensões e imponência duplicando a hierarquia social, pintalgados por fotografias tipo passe, a preto e branco, descoradas, de homens e mulheres, uma irmandade de expressões, penteados e fatos desabitados e com séculos de existência.


 


Nem lhe apetece arrumar o azeite, partir as abóboras, iniciar os gestos da estação. Aguardam espalhados pelo chão da cozinha, como se esperassem o baptismo negado.


 

02 novembro 2013

Deforma

 



Bruno Catalano 


 


Se branco se negro tudo deforma sem cor


nem sustento afaga-me amor que afogo neste turvo desespero.


Se tenho se dou não sei de nada nem do novo


segredo de morrer sem que a vida nos sustenha


a garra e o nervo de mexer sempre


sem olhar para trás.


Se sou se não fui neste manto de dúvidas


persistentes e movediças congelo a parte de fora


em pranto seguro o medo e não sei mais onde esconder


o que na verdade me dói a falta


de tudo o que deveria ser.


 

27 outubro 2013

Dos inauditos perigos da Constituição

 


Temos assistido a uma autêntica inundação informativa sobre o perigo da pronúncia pela inconstitucionalidade de medidas do OE 2014 por parte do Tribunal Constitucional (TC). Não há dia em que não se leia ou ouça doutas personalidades, nacionais e internacionais, avisarem o TC do perigo de resgates, bancas rotas e sacrifícios inomináveis, arrastados pela descrença dos mercados e daquelas instâncias voláteis que governam o mundo neste pobre povo português.


 


Estamos outra vez perante o esforço de manipulação da direita retrógrada que quer impor a sua agenda ideológica fazendo crer que o não cumprimento do desmantelamento do estado social trará a catástrofe e o dilúvio, tal como aconteceu na altura do chumbo do PEV IV. Todos já percebemos o que significam estas inevitabilidades.


 

26 outubro 2013

A derrota da crise (16)

 


Poemas sobre a língua portuguesa


 



 


Natália Luiza


(selecção de Inês Pedrosa)  


Língua – Caetano Veloso


Língua Portuguesa – Olavo Bilac


Língua mater dolorosa – Natália Correia


Lamento para a língua portuguesa – Vasco Graça Moura


Pátria – Rui Knopfli


Língua – Gilberto Mendonça Teles


Novas ruminações – Gíria de Cacimbo


As linguagens – Mutimati Barnabé João


  


1 de Novembro, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa


 

20 outubro 2013

Morte em Pemberly

 



 


Morte em Pemberly é um livro de P. D. James, uma autora consagrada de livros policiais e grande admiradora de Jane Austen. Neste livro P. D. James desenvolve a história tendo como personagens Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, o casal de Pride and Prejudice, 6 anos após o casamento, em Pemberly, no Derbyshire. Com eles reencontramos Jane e Charles Bingley, Georgiana, Lydia e Whickham, entre outros, que ajudam a compor e a recriar o ambiente típico dos romances de Jane Austen.


 


Ao contrário das críticas que já li, gostei bastante do livro, que se centra na vida interior dos personagens, dando-nos conta dos pensamentos e dos sentimentos de Dracy e Lizzie quando um amigo de Whickham é morto a caminho de Pemberly, num noite tempestuosa, em circunstâncias que apontam para a culpabilidade de Whickham, obrigando Darcy a acolhê-lo e a olhar para a forma como a sua vida tinha sido e continuava a ser condicionada por ele. A trama policial arrasta-se pelo tribunal, deixando os leitores vogar pela organização estratificada e hierarquizada da sociedade inglesa, com os seus ricos proprietários rurais e as suas obrigações enquanto tal. P. D. James imaginou uma história condizente com o ritmo e a narrativa de Jane Austen, preocupando-se em tornar o livro credível como continuação da história anterior.


 


Nunca tinha lido nada de P. D. James, mas tenho bastante curiosidade em conhecer os seus detectives.


 

As Centenárias

 



 


Até 10 Novembro


Quarta a Sábado às 21:30h


Domingo às 16:00h


 


Carpideiras de vocação, duas antigas amigas aliviam as dores das famílias dos defuntos e alegram os falecidos, ritualizando as passagens para o outro lado, para cima ou para baixo, abrindo as portas do paraíso ou do inferno, desfilam pela vida entre mortos e rezas, cantos, choros  e ladainhas, em fuga constante da própria morte.


 


O sotaque do nordeste brasileiro apimenta e dá uma cor diferente às palavras. Um espectáculo imperdível, delicado e gentil, mordaz e divertido, a morte promove encontros e desencontros, explicando a vida que dói e se desenrola num tempo pendular, de memórias que se baralham e se ajudam.


 


Mais uma vez o Teatro Meridional deslumbra. O texto é soberbo, a adaptação (peça de Newton Moreno), a cenografia, a iluminação, o som e as actrizes fantásticas, em duas horas de várias histórias brilhantemente contadas.


 


Espalhem a notícia, divulguem e não percam. Além disso têm um espaço de aconchego enquanto esperam, café, chá e bolo, fotos que relatam o percurso desta companhia, verdadeiramente excelente e inovadora.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...