03 novembro 2013

Fiéis defuntos

 



 


Todos os anos a feira de 1 de Novembro iniciava o Inverno. No dia anterior metia-se no carro rumo à casa antiga. A feira estendia-se pela rua, em frente à porta maçãs e castanhas, todos os anos uma fartura quente e um copinho de jeropiga na barraca de esquina. Muita gente, chuva e cheiro a castanhas assadas, a tasca com sandes de queijo mestiço e, no dia seguinte, carregava o carro enquanto decorria a missa dos fiéis defuntos, defuntos sim, fiéis desconfiava que poucos.


 


Mas já não há feriado. Este ano a feira mudou de dia como mudou a porta de madeira verde com ferro embutido. Sem farturas nem chuva, sem pregões nem barulho de vozes misturadas desde a s 6h da manhã, até as castanhas assadas perderam o sabor. Visitou o cemitério, que parece ter encolhido, com os jazigos e as lápides de dimensões e imponência duplicando a hierarquia social, pintalgados por fotografias tipo passe, a preto e branco, descoradas, de homens e mulheres, uma irmandade de expressões, penteados e fatos desabitados e com séculos de existência.


 


Nem lhe apetece arrumar o azeite, partir as abóboras, iniciar os gestos da estação. Aguardam espalhados pelo chão da cozinha, como se esperassem o baptismo negado.


 

02 novembro 2013

Deforma

 



Bruno Catalano 


 


Se branco se negro tudo deforma sem cor


nem sustento afaga-me amor que afogo neste turvo desespero.


Se tenho se dou não sei de nada nem do novo


segredo de morrer sem que a vida nos sustenha


a garra e o nervo de mexer sempre


sem olhar para trás.


Se sou se não fui neste manto de dúvidas


persistentes e movediças congelo a parte de fora


em pranto seguro o medo e não sei mais onde esconder


o que na verdade me dói a falta


de tudo o que deveria ser.


 

27 outubro 2013

Dos inauditos perigos da Constituição

 


Temos assistido a uma autêntica inundação informativa sobre o perigo da pronúncia pela inconstitucionalidade de medidas do OE 2014 por parte do Tribunal Constitucional (TC). Não há dia em que não se leia ou ouça doutas personalidades, nacionais e internacionais, avisarem o TC do perigo de resgates, bancas rotas e sacrifícios inomináveis, arrastados pela descrença dos mercados e daquelas instâncias voláteis que governam o mundo neste pobre povo português.


 


Estamos outra vez perante o esforço de manipulação da direita retrógrada que quer impor a sua agenda ideológica fazendo crer que o não cumprimento do desmantelamento do estado social trará a catástrofe e o dilúvio, tal como aconteceu na altura do chumbo do PEV IV. Todos já percebemos o que significam estas inevitabilidades.


 

26 outubro 2013

A derrota da crise (16)

 


Poemas sobre a língua portuguesa


 



 


Natália Luiza


(selecção de Inês Pedrosa)  


Língua – Caetano Veloso


Língua Portuguesa – Olavo Bilac


Língua mater dolorosa – Natália Correia


Lamento para a língua portuguesa – Vasco Graça Moura


Pátria – Rui Knopfli


Língua – Gilberto Mendonça Teles


Novas ruminações – Gíria de Cacimbo


As linguagens – Mutimati Barnabé João


  


1 de Novembro, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa


 

20 outubro 2013

Morte em Pemberly

 



 


Morte em Pemberly é um livro de P. D. James, uma autora consagrada de livros policiais e grande admiradora de Jane Austen. Neste livro P. D. James desenvolve a história tendo como personagens Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, o casal de Pride and Prejudice, 6 anos após o casamento, em Pemberly, no Derbyshire. Com eles reencontramos Jane e Charles Bingley, Georgiana, Lydia e Whickham, entre outros, que ajudam a compor e a recriar o ambiente típico dos romances de Jane Austen.


 


Ao contrário das críticas que já li, gostei bastante do livro, que se centra na vida interior dos personagens, dando-nos conta dos pensamentos e dos sentimentos de Dracy e Lizzie quando um amigo de Whickham é morto a caminho de Pemberly, num noite tempestuosa, em circunstâncias que apontam para a culpabilidade de Whickham, obrigando Darcy a acolhê-lo e a olhar para a forma como a sua vida tinha sido e continuava a ser condicionada por ele. A trama policial arrasta-se pelo tribunal, deixando os leitores vogar pela organização estratificada e hierarquizada da sociedade inglesa, com os seus ricos proprietários rurais e as suas obrigações enquanto tal. P. D. James imaginou uma história condizente com o ritmo e a narrativa de Jane Austen, preocupando-se em tornar o livro credível como continuação da história anterior.


 


Nunca tinha lido nada de P. D. James, mas tenho bastante curiosidade em conhecer os seus detectives.


 

As Centenárias

 



 


Até 10 Novembro


Quarta a Sábado às 21:30h


Domingo às 16:00h


 


Carpideiras de vocação, duas antigas amigas aliviam as dores das famílias dos defuntos e alegram os falecidos, ritualizando as passagens para o outro lado, para cima ou para baixo, abrindo as portas do paraíso ou do inferno, desfilam pela vida entre mortos e rezas, cantos, choros  e ladainhas, em fuga constante da própria morte.


 


O sotaque do nordeste brasileiro apimenta e dá uma cor diferente às palavras. Um espectáculo imperdível, delicado e gentil, mordaz e divertido, a morte promove encontros e desencontros, explicando a vida que dói e se desenrola num tempo pendular, de memórias que se baralham e se ajudam.


 


Mais uma vez o Teatro Meridional deslumbra. O texto é soberbo, a adaptação (peça de Newton Moreno), a cenografia, a iluminação, o som e as actrizes fantásticas, em duas horas de várias histórias brilhantemente contadas.


 


Espalhem a notícia, divulguem e não percam. Além disso têm um espaço de aconchego enquanto esperam, café, chá e bolo, fotos que relatam o percurso desta companhia, verdadeiramente excelente e inovadora.


 

19 outubro 2013

Dia da Criação

 



Vinicius de Moraes

 

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

 

Obrigada, Zélia.

 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...