09 julho 2013

Um dia como os outros (129)

 



Sou dos raros jornalistas que não disseram na semana passada: "Uma coisa é certa, Portas não pode voltar atrás." Aqui entre nós, a palavra "irrevogável" também me fez supor que ele não voltaria atrás. Mas como estive de férias, safei-me do embaraço público e geral dos meus colegas. Forte desse meu involuntário sucesso, permito-me dar uma lição: na política portuguesa, nunca se diga "não pode". Pode, tudo pode. Em Portugal, Cavaco pode ser Presidente, Passos pode ser primeiro-ministro e Seguro pode ser chefe da oposição. Se isso pode, como não aceitar as mais loucas bizarrias? Até digo mais, essa tempestade perfeita - Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição - não só permite como torna desejável que os políticos portugueses se contradigam e façam o irrevogável vogar para o ponto de partida. Há nisso esbracejar, grito sôfrego, vontade de fugir do marasmo. Tudo melhor do que a angústia de termos Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição. À falta de soluções sólidas, venham, ao menos, essas pequenas provas de vida. Olhem como a simples contradição de Paulo Portas nos levou a um governo um poucochinho melhor do que o anterior... "Levou a..."?! Então já é definitivo, Cavaco aceitou essa solução? Claro que já. Era justamente isso que eu vos estava a dizer. Ele é nada, um dos três nadas deste país. As hesitações que finge são só para o autorretrato com que se ilude.


 


Ferreira Fernandes


 

Da humilhação

 


Na Europa poderia haver algum pudor, com abstenção de comentários, felicitações e considerações sobre o governo de um país soberano. Toda esta falta de respeito de quem se assume como dono e senhor dará mau resultado, mais tarde ou mais cedo. É degradante a desfaçatez com que se humilham os povos, com que se desdenha da democracia, com que se descarta a mais elementar centelha de bom senso.


 

08 julho 2013

All of me

 



Seymour Simons & Gerald Marks


canta Billie Holliday


 


You took my kisses and all my love


You taught me how to care


Am I to be just remnant of a one side love affair


 


All you took


I gladly gave


There is nothing left for me to save


 


All of me


Why not take all of me


Can't you see


I'm no good without you


Take my lips


I want to loose them


Take my arms


I'll never use them


Your goodbye left me with eyes that cry


How can I go on dear without you


You took the part that once was my heart


So why not take all of me


 

Sing, sing, sing

 



Benny Goodman

 

Férias

 



 


Trouxe duas, para ela e para a mãe. Já estava no aeroporto e quando viu as pequenas chávenas de metal, engalanadas pela bandeira americana, achou que nela poderia tomar o seu café diário.


 


Desde esse dia que, aos fins-de-semana, não há nada que melhor lhe saiba que fazer o seu tabuleiro com o pote de café e a parca porção de pão com manteiga ou queijo, para os saborear vagarosamente sentada na cama, a televisão baixinho, gozando o facto de não ter que se levantar para o trabalho.


 


Tal como agora, as férias acabam por ser estes pequenos gozos matinais, tardes de preguiça, livros que abre quando lhe apetece.


 

07 julho 2013

Das dúvidas perenes

 


Vamos a eleições? Pois bem, talvez seja altura de haver resposta a algumas perguntas:




    1. Alguém já percebeu o que António José Seguro fará, como Primeiro-ministro, em relação aos subsídios que foram retirados? Aos anunciados cortes da função pública? Ao confisco dos rendimentos dos pensionistas, ao alargamento dos horários de trabalho pelo mesmo salário? Aos enormes e colossais impostos, do IRS ao IVA, passando pelo IRC? Qual será a sua política de alianças, quais os termos e as bases mínimas necessárias para as fazer? O que pensa da política educativa? Vai alterá-la e como? O que vai fazer na saúde? Reabre a MAC, altera a política do medicamento, reduz as taxas moderadoras, abre concursos, repõe as carreiras?



    2. E quanto às portagens, e quanto às PPP, e quanto às privatizações - qual a sua estratégia? E quanto à política energética, ao meio ambiente?



    3. E em relação à Europa e às eleições europeias, o que pensa, o que propõe? E quanto à troika, como vão ser as negociações, quais as metas, como vamos lá chegar?



    4. E o Presidente da República, quem será o candidato do PS? Não pensa ser esse um assunto primordial, agora que é preciso revitalizar e devolver à função presidencial o prestígio perdido?



    5. Quem são os ministeriáveis, dentro do PS e dos partidos com quem, supostamente, fará coligações ou acordos parlamentares?



 Não será ocasião de sermos esclarecidos?


 

Da impossível aliança à esquerda

 



 


Se houver eleições antecipadas, do que duvido imenso, pelo menos para já, os eleitores vão ver-se numa situação aflitiva para decidir em que partido votar. É isso o que demonstram as sondagens que têm sido feitas, dando conta da enorme percentagem de indecisos e de abstenções.


 


A tão almejada maioria de esquerda, que aritmeticamente é possível, será sempre impossível politicamente, enquanto forem estes os protagonistas das lideranças. Tal como ouvimos ontem na manifestação que pedia a demissão do governo, o BE e o PCP estão disponíveis para alianças se e só se for para romper com o memorando da Troika.


 


O PS negociou o memorando de entendimento, mesmo que tenha sido um memorando diferente do que foi posto em prática. O PS tem que honrar os compromissos do país, mesmo que renegociando o memorando, os juros, as metas e/ou o tempo para as alcançar. Portanto, onde está a possibilidade de alianças de esquerda para formação de governo?


 


Como sempre e para seu (nosso) infortúnio, o PS está condenado a estar sozinho. E com António José Seguro é impensável uma maioria absoluta. Este é outro dos bloqueios políticos no nosso país.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...