30 dezembro 2012

Certo

 


 


David Freedman


 


Vou secando as flores


drenando a água em que mergulho


a felicidade momentânea.


Gasto a alma absorvo dilúvios


e reduzo a pó a grandeza que antecipo.


A solidão ecoa e infiltra todos


os poros da vida arestas que magoam.


Só o inatingível me parece certo


na prisão do encantamento.


 


Por pudor ou medo não quero


precisar tanto de amor.


 

Balancetes

 


Tenho pensado no balanço que posso fazer deste ano que está quase a acabar. O grande feito foi sobreviver com a cabeça minimamente sã (embora à minha volta não me considerem lá muito normal), neste país de doidos perigosos.


 


As coisas que já ninguém aguenta começam no governo, passam pelo Presidente e acabam na oposição. É tudo tão mau e deprimente que mergulhamos nas nossas vidas, estejam elas ocupadas pelo trabalho ou pelo desespero do desemprego, sempre preenchidas pelas contas dos tostões que não se deveriam gastar. Não se percebe muito bem como sair deste marasmo, embora saibamos que alguma coisa irá acontecer. Vou-me preparando para piores e mais confusos dias, enquanto não consigo acender a esperança.


 


Algumas coisas boas me aconteceram, no entanto. Consegui manter o peso alcançado em 2011, numa dieta férrea (com alguns precedentes), em que minguei bastante, felizmente. Freud explicaria, com toda a certeza, o fascínio galopante pela culinária e pelo fazer de iguarias que não posso comer, apenas provar muito ao de leve. Mas tenho-me divertido imenso a fazer tartes e folhados, a aproveitar sobras e a experimentar bolos, pudins e até biscoitos.


 



 


Foi uma grande vitória sobre o peso e tem sido uma grande vitória sobre a gula, que espreita a todo o tempo e nunca se dá por vencida. Nunca fiz propaganda do método porque acho que os métodos são todos bons desde que funcionem e não matem da cura. Cada um de nós é que tem que se agarrar a um qualquer plano de emagrecimento, que passa sempre pela redução da ingestão calórica e pelo aumento do gasto, em proporções várias. Fraccionar as refeições e beber umas litradas de água por dia são outros truques para enganar o estômago. O telemóvel funciona bem para nos lembrar de comer, no máximo de 3 em 3 horas.


 


Enfim, depois de ter arranjado uma modista que ajeitasse a roupa ao meu corpo, de camisolas a casacos, de calças a saias, sinto-me uma sílfide capaz de me mexer muito melhor, sem me cansar. Mesmo conseguindo, sem esforço, subir aos bancos para chegar aos armários da cozinha que, inexplicavelmente, estão sempre a uma altura de gigantes, ofereci-me a mim própria um banquinho que comprei no IKEA, onde me empoleiro e me sinto esticada e poderosa.


 



 


Portanto fiquei mais concentrada – nas fúrias, nas resoluções, na determinação, a mesma quantidade de emoções em menor superfície corporal. O que me leva ao objectivo primordial para 2013: sobreviver a mais um ano deprimente e arrepiante que, tudo indica, será pior que este. Não tenho grandes ilusões em relação à capacidade de Cavaco Silva fazer seja o que for para limpar um pouco o ambiente. Esperemos que Paulo Portas dissolva a coligação. No entretanto faço votos para que haja uma imensa luta interna no PS de modo a que se vislumbre uma nova liderança que possa corporizar uma alternativa à esquerda. Mas temo que nos espere mais do mesmo em tudo.


 


Resta-me desejar que passe depressa, o ano de 2013. E que possa defender muito a sustentabilidade do SNS não o utilizando, estendendo essa defesa a toda a população. E que haja algo, mesmo que venha do infinito e mais além, que possa inocular um pouco de decência aos nossos governantes, que dela estão bem afastados.


 

29 dezembro 2012

Prevenções

 


Aguardo o dia em que cada bolo que se ingerir tenha um imposto adicionado, ou a inscrição num qualquer cadastro sanitário, para retirar possibilidades de atendimento ou tratamento no serviço de saúde, cada vez menos nacional. Este tipo de moralismo, assacando a culpa das doenças aos cidadãos, criminalizando costumes e hábitos é assustador e autoritário.


 


Quanto à prevenção, que tal o Ministério da Saúde apostar a sério nos rastreios contra o cancro do colo do útero, só para dar um exemplo? Essa estratégia de prevenção da mortalidade e morbilidade por cancro tem provas mais do que dadas em vários países europeus e, para além da melhoria da qualidade de vida das mulheres, é muitíssimo poupadora de recursos financeiros. Dito de outra forma, talvez fosse mais importante investir em educação populacional, com informação abundante e actualizada, em rastreios de base populacional, em infra-estruturas e curricula que incentivem à prática de desporto e a escolhas de vida mais saudáveis, em vez de ameaças veladas e decretos de autoridade e eficácia bastante duvidosas, para garantir a sustentabilidade do SNS.


 

Duodécimos

 


Não tenho nada contra a distribuição dos subsídios de férias e de Natal por todos os meses do ano. Na realidade esse dinheiro deve ser encarado como parte da remuneração mensal e não como um prémio a dar aos trabalhadores, de 6 em 6 meses. O que acontece é que a entidade empregadora se substitui aos trabalhadores, obrigando-os a uma poupança forçada e disponibilizando-lhes essa poupança 2 vezes por ano. Ou seja, a entidade empregadora fica com o correspondente a 2 meses de ordenado (cerca de 14% da remuneração anual) nos seus cofres, em vez de ficarem nos cofres dos trabalhadores.


 


Por isso não consigo perceber a rejeição, por parte dos trabalhadores e da oposição, da distribuição dos subsídios em duodécimos. O que é essencial é que esse dinheiro seja distribuído e não suprimido, tal como o governo decretou, primeiro para os funcionários públicos, depois para os do sector privado. Contra isso sim, deveremos lutar incessantemente. Agora acho muito bem que o distribuam todos os meses. A minha poupança deve ser por mim decidida, não pela minha entidade patronal.


26 dezembro 2012

Natal

 


Recebi um email que me encheu de alegria. Aos Corações na rua, a minha grande admiração pela iniciativa. Sinto-me agradecida e orgulhosa por ter participado, ainda que indirectamente, dessa jornada.


 



 

24 dezembro 2012

Anjos esquecidos

 



 


Às vezes parece que estes dias formam uma espécie de mundo à parte, uma ponte sobre a vida em que apenas as coisas doces e confortáveis existem. Gostamos de nos sentir assim, sem que a terra seca, as cidades poluídas, a miséria, o crime e a solidão nos assombrem.


 


Natal não é esse estado de levitação. Natal é haver grupos de pessoas que estão junto da noite e da tristeza, varrendo as cinzas e soprando a pouca poeira de luz, iluminando alguns cantos abandonados.


 


E nós, dentro dos nossos quentes agasalhos de afectos, nem sempre nos lembramos desses esquecidos anjos cansados e terrenos, com olheiras, mãos e palavras que curam.


 

Have Yourself A Merry Little Christmas


Ella Fitzgerald

 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...