04 outubro 2012

Sem salvação

 



 


Este povo não está preparado para estes governantes. Esfalfam-se, esforçam-se, mostram-nos o caminho da salvação


Este povo adora os bezerros de ouro, não obedece às tábuas da lei, nem a qualquer lei deste deus menor e castigador. 


Este povo não merece os líderes que tem, na sua todo-poderosa clemência austera, autoridade ascética, sacrificial e purificadora. 


Este é um povo de gente que venera o pecado, que gasta, usa, esbanja, lambuza-se nos prazeres primitivos, tão longe das elites que nos tentam inspirar. 


Esse é um povo que não tem remédio, e tal como Sodoma deve ser arrasado. 


Assim será.


 

23 setembro 2012

Governo fantasma

 



 


Desde o fim do Conselho de Estado que Portugal tem um governo fantasma. O Primeiro-ministro está refém do Presidente, do CDS e das manifestações. Foi desautorizado por todos e arrastar-se-á até à próxima manifestação, crise da coligação ou vontade de Cavaco Silva.


 


A porta para a ingovernabilidade está definitivamente escancarada. E a substituição de alguns ministros não resolverá nada. Como diz Pedro Marques Lopes, quem deveria ser remodelado era Passos Coelho.


 


Continuamos sem saber muito bem o que significa o recuo da TSU. Na sua famosa comunicação ao país, Passos Coelho anunciou que seria devolvido apenas um subsídio aos funcionários públicos, que o outro seria distribuído pelos restantes doze meses, e que o aumento da contribuição para a segurança social, por parte dos trabalhadores, seria de 7%, equivalente a um ordenado. Ou seja, os funcionários públicos perderiam mais do que dois ordenados num ano e os trabalhadores do sector privado mais de um. Isto para além das alterações dos escalões do IRS e de outras medidas.


 


Em que ficamos agora? São devolvidos os dois subsídios retirados à função pública? Como vão ficar os escalões do IRS? Haverá redução de subsídios igualmente para ambos os sectores? Impostos adicionais?


 


Depois de uma intensa barragem de propaganda, para nos fazer crer que o dinheiro só seria disponibilizado pela troika se fossem cumpridas as alterações na TSU, tudo se volta ao contrário, mas sem se perceber onde irá terminar.


 


A remodelação é urgente, mas não do governo. Os partidos se esquerda devem tirar as suas ilações de toda esta trapalhada. Há que mudar e encontrar líderes e soluções à altura das circunstâncias. As eleições antecipadas estão no horizonte próximo. Quem assegurará o governo, se o PS não consegue capitalizar o descontentamento do povo, para além da avassaladora descrença na democracia?

21 setembro 2012

O cerco

 



 


Não posso aceitar que se cerquem os Conselheiros de Estado, o Presidente da República, os governantes. Espero que políticos responsáveis, líderes políticos de partidos democráticos se demarquem dos gritos de gatunos e da intimidação que está em curso, por muito pouco popular que sejam essas tomadas de posição.


 


As razões de descontentamento e de desespero são imensas, mas isto não se admite em regimes democráticos. Espero ainda que a polícia se continue a comportar como uma verdadeira polícia de segurança, dos cidadãos todos, manifestantes e governantes.

Acordemos

 


A manifestação de 15 de Setembro ensinou-me muitas coisas que, ou nunca tinha percebido, ou já tinha esquecido.


 


Ensinou-me que as pessoas são menos manipuláveis do que eu sempre penso. Independentemente das motivações políticas que estavam nos bastidores da convocação da manifestação, bem expressos no slogan Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!, a amálgama de gente que foi para a rua, também com uma enorme mistura de razões, fê-lo sem se deixar conduzir para a violência ou para o pseudo terrorismo urbano, com um civismo que não é novo, mas sempre espantoso e comovente.


 


Confirmou-me que o espaço para o nosso regime partidário é cada vez mais estreito, pois os líderes dos partidos políticos estão, se calhar tal como eu, ultrapassados e sem saberem como conduzir todo este manancial de indignação, frustração, raiva e desesperança, não se mostrando capazes de responderem com a vitalidade que é necessária à crise, que não é só de agora, da própria democracia.


 


Ensinou-me que, apesar da minha descrença, as manifestações de massas ainda podem mudar o curso dos acontecimentos. Na verdade estou mesmo convencida de que, tanto o esticar da corda do CDS como a convocatória do Conselho de Estado pelo actual Presidente, só aconteceram por causa do clamor e da enorme demonstração de repúdio aos últimos anúncios de austeridade. Até internacionalmente isso parece ter sido compreendido e os sinais de alerta multiplicam-se.


 


A suposta vigília em frente ao Palácio de Belém, de imediato marcada para hoje, não é mais do que a continuação das convocatórias que pretendem manobrar e intimidar as instituições. No entanto, ao ouvir esta manhã, na TSF, que uma cantora lírica irá entoar, em conjunto com centenas de pessoas, a canção heróica Acordai! de Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira, enchi-me de orgulho.


 


Não há melhor vigília que este alerta aos homens que dormem, em Portugal e na Europa. Enquanto é tempo, cantemos mesmo em uníssono – Acordai! Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Vítor Gaspar. Acordai! António José Seguro, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa. Acordai! Economistas e comentadores, que o tempo é já. É agora.


 


Nota: Continuo a pensar que os governos não se demitem na rua mas com os votos em eleições livres. Continuo a pensar que o radicalismo dos partidos (que se dizem) de esquerda, como o BE e o PCP, tem raíz antidemocrática. Continuo a não querer pactuar com frentismos ideológicos e antitroikistas, numa unanimidade que desafia o próprio conceito da possibilidade de alternativas. 


 



 Fernando Lopes Graça & José Gomes Ferreira


 


Acordai


acordai


homens que dormis


a embalar a dor


dos silêncios vis


vinde no clamor


das almas viris


arrancar a flor


que dorme na raíz


 


Acordai


acordai


raios e tufões


que dormis no ar


e nas multidões


vinde incendiar


de astros e canções


as pedras do mar


o mundo e os corações


 


Acordai


acendei


de almas e de sóis


este mar sem cais


nem luz de faróis


e acordai depois


das lutas finais


os nossos heróis


que dormem nos covais


Acordai!


 

17 setembro 2012

Escalada

 


O PCP e o BE começam a escalada. A Grécia está aqui mesmo à mão. Já se combinam vigílias em frente à Presidência da República. Este conceito de democracia vigiada e comités do povo, que vigiam e guiam as decisões, não é o meu.


 


Por outro lado, começam a circular notícias de que haverá empresários que devolverão o dinheiro da TSU aos seus trabalhadores, o que acho óptimo. O que demonstra, mais uma vez, que esta medida promove a desigualdade, pois o sector estatal não devolverá absolutamente nada. Ou seja, serão os funcionários públicos, se alguém ainda tinha dúvidas disso, a arcar com a amior fatia do corte salarial.


 


O país aguarda o Conselho de Estado e a declaração do Presidente. Esperemos que ele faça uso da sua tão propagandeada experiência de economista e, mais importante, que use o poder que tem de ter sido eleito para o colocar ao serviço de quem o elegeu.


 

16 setembro 2012

Verano Porteño


Astor Piazzolla & Quinteto Tango Nuevo

Vivemos em democracia

 


Não estava em Portugal a 1 de Maio de 1974, portanto não posso fazer comparações entre o número de manifestantes dessa época e o de ontem. Nem percebo muito bem a comparação. Porque mesmo que tenha sido menor, a quantidade de pessoas nas de ontem foi gigantesca. Considero, no entanto, que as semelhanças acabam mesmo aí.


 


As manifestações do 1º de Maio de 1974 aconteceram após quatro décadas de um regime ditatorial, num Portugal liberto que reencontrava a capacidade de se expressar sem medo. As manifestações de 15 de Setembro de 2012 foram um grito de revolta e uma demonstração do desespero de um país que se vê no meio de uma crise que não acaba, governado por uma coligação que não o mobiliza, que não lhe dá esperança, que reaviva o que há de mais conservador na ideia do estado, que substitui, como dizia Maria de Belém, o primado do direito e do contrato social pelo primado da economia.


 


Mas Portugal vive em liberdade e é uma democracia pluralista. Há uma Constituição e um Tribunal Constitucional, há uma Assembleia da República para a qual o povo elegeu representantes, há um governo legítimo e um Presidente da República. Até agora, as Instituições democráticas têm funcionado. Mesmo que não concorde com o governo, mesmo que não tenha votado neste Presidente, nada no meu país pode ser comparável com o que existia antes do 25 de Abril, portanto nada pode ser comparável ao que representou, para os que então se manifestaram, a possibilidade de o fazerem.


 


Não sei se o dia de ontem foi histórico. Parece-me muito cedo para se saber o que fica ou não na História. Também as manifestações dos professores, na altura de Maria de Lurdes Rodrigues eram históricas, tal como a da geração à rasca. Foi seguramente um dia em que milhares de pessoas saíram à rua para gritarem contra a troika, o governo, a austeridade. Não devemos, no entanto, confundir o direito de manifestação e o desejo de mudança com o desencadear da queda de um qualquer governo.


 


A comunicação de Paulo Portas, a entrevista de António José Seguro e a declaração de Jorge Moreira da Silva demonstram que ainda não é desta que o governo cai. E não cairá tão cedo porque não há oposição. Não devemos confundir as manifestações, por grandes que sejam, com a vontade expressa do povo. É através de eleições que se renovam os governos. E para isso são necessárias alternativas. A este, infelizmente, ainda não há.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...