Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
10 setembro 2012
Da lateralidade da austeridade
Há outras formas de fazer austeridade, honra seja feita a François Hollande.
(...) O jornal francês “Le Monde” diz que este é um plano “histórico” de “austeridade de esquerda”. Para reduzir a despesa em 10 mil milhões de euros, o presidente francês ordenou o congelamento dos gastos em todas as áreas do Estado, com excepção para a Educação, a Justiça e a Segurança.
O esforço será repartido entre aumento dos impostos sobre os rendimentos mais elevados, congelamento das despesas públicas em todas as áreas excepto na Educação, Justiça e Segurança e agravamento dos impostos sobre os lucros não reinvestidos pelas empresas. (...)
(...) Hollande comprometeu-se a recuperar o crescimento económico em dois anos e pediu aos sindicatos que participem no esforço, permitindo que as negociações cheguem a bom porto. As medidas que estão em discussão com os sindicatos e patrões tem a finalidade de aumentar a flexibilidade das empresas, fomentando a sua competitividade face ao exterior e potenciando o crescimento, com vista a aumentar o emprego. Mas em contrapartida, no acordo, até poderá haver um reforço da segurança contra o despedimento.
“Se este compromisso histórico for alcançado até ao final do ano, esta reforma receberá força de lei”, disse Hollande na entrevista citada pela Bloomberg. “Mas se os parceiros não concordadem, então lamento, mas o Estado vai assumir as suas responsabilidades”, afirmou.
Das remodelações necessárias
O CDS procura uma forma de se desligar da coligação governamental, de forma a aparecer, aos olhos dos cidadãos, como mais um dos enganados pelo PSD. A crise política avizinha-se.
Não basta ao PS mudar de líder. É essencial que o faça, é indispensável que se movimentem as alternativas, que se esqueçam as contabilidades e os calculismos das facções: onde estão Ferro Rodrigues, António Costa, Francisco Assis, só para citar alguns?
Mas é igualmente indispensável que os partidos à esquerda do PS, os partidos não democráticos, se desfaçam e refaçam, se desmontem e remontem, elegendo líderes responsáveis, que abram os olhos para o novo século e deixem de suspirar pela irrealidade de um passado que nunca existiu. É com certeza possível uma plataforma mínima de consenso numa área política em que os valores do respeito pela democracia e pela liberdade de expressão, pela igualdade de oportunidades e pelo papel de um estado social que garanta a todos os seus direitos mais fundamentais, sejam uma realidade.
Vivemos numa democracia e é a democracia que deve funcionar. Não anseio por manifestações de caceteiros, com destruição de lojas e automóveis, recontros mais ou menos selvagens entre manifestantes e polícia. Mas a revolta da população é palpável e se não se vislumbrarem quaisquer alternativas, o mais certo é multiplicarem-se e descontrolando-se os desesperos.
09 setembro 2012
Um dia como os outros (118)
(...) Há um caminho, não pode ser dito em voz alta, mas há um caminho definido: é preciso esmagar os salários, é fundamental empobrecer violentamente, sobre todos, quem trabalha por conta de outrem. O que é preciso é chegar a um limite em que cada um de nós estará disposto a trabalhar dezoito horas por uma côdea. Para que esse homem novo surja é preciso destruir a economia, criar ainda mais desemprego, forçar mais empresas a falir (a taxa de IVA para a restauração está a cumprir na íntegra a sua função, por exemplo) e depois da destruição total da economia, como por milagre, tudo será maravilhoso. (...)
Inação
border dynamics
Alberto Morachis
Guadalupe Serrano
Meço a rotina pelas pedras da calçada
endireito os ombros que se curvam
na directa proporção
da solidão.
Aprendo a angústia pelo caminho que se desfaz
e nas poucas árvores onde descansam sombras.
Não há mais esperas que sustenham
esta imparável queda para a inacção.
Da vacuidade do discurso
Ao fim deste tempo todo, o líder do maior partido da oposição, num discurso com 18 páginas, proferido numa iniciativa partidária, resolveu dignar-se a expor-nos o seu pensamento sobre as medidas anunciadas na 6ª feira pelo Primeiro-ministro. Aconteceu à página 8:
Meus caros camaradas e amigos.
Quero ainda referir-me à comunicação que o PM fez ao país.
Na pág. 14 somos esclarecidos:
Quero afiançar aos portugueses que não somos, nem seremos cúmplices das opções políticas erradas do actual Governo.
Portanto, António José Seguro não achou necessário agendar uma comunicação ao país acerca deste assunto. Envelopou-a numa enorme quantidade de lugares-comuns, num evento em decurso. Assim se percebe a importância que para ele representam estas medidas. Para além disso, ninguém ficou a saber o significado da enigmática expressão não ser cúmplice.
António José Seguro deve, de imediato, ser deposto como líder do PS. Ou o PS será deposto pela população portuguesa.
Nota: Escaparam-me estas diplomacias:
O PS “opõe-se ao conjunto destas medidas e ao que elas significam”. (pág. 13)
(...) É tempo de separar as águas de um modo ainda mais claro. (pág. 14)
(...) Este não é o nosso caminho. O PS não pode pactuar com um caminho que discorda e que tem combatido. Assim não!
O Governo não muda. Esticou a corda e o PS prefere, com toda a clareza e normalidade, um caminho alternativo. (pág. 14)
Horizontes
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