12 fevereiro 2012

Trezentos mil

 



 


Os manifestantes contam-se às centenas de milhar, cem mil, duzentos mil, trezentos mil, começaram contra Mário Soares, Salgado Zenha, Cavaco Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Sócrates, continuam agora contra a Troika, Passos Coelho e Cavaco Silva. Jerónimo de Sousa rejubila com tantos milhares precisando até de recuar 32 anos, para abarcar a enchente.


 


Infelizmente é isso mesmo, estamos a recuar muitas décadas. Mas não só nos direitos adquiridos. Também no conveniente apagamento do que é uma democracia representativa, resultados eleitorais, no competente exaltar das forças trabalhadoras e da rua, a rua que o PCP, a CGTP e o BE tanto gostam de invocar para fazer cair governos democraticamente eleitos. Exactamente os mesmos partidos que em sede parlamentar tudo fizeram para derrotar o governo anterior, o tal mais à direita de sempre, como todos os governos de Portugal desde 25 de Novembro de 1975.


 


O sindicalismo velho e derrotado pelas circunstâncias, pela História e pel’Os Mercados continua, cego e surdo às avalanches da sociedade. Os trabalhadores já não usam calças com peitilho mas os sindicatos continuam a usar o mesmo espartilho. A consagração de Arménio Carlos foi apoteótica. E os próximos capítulos serão iguais aos que já passaram.


 


Nota: Vale a pena ler o Valupi.


 

10 fevereiro 2012

O sentido do fim / The sense of an ending

 



 


O fim não tem que ter um sentido. Mas pode haver sentido para um fim.


 


Em busca do que falta nas nossas vidas ou do que não sabemos. Ou do que sabemos ou do que nos lembramos. A memória é apenas uma ajuda para o esquecimento activo. O que somos ou o que vamos sendo, sem honra nem glória. Aquilo que depuramos dentro do que nos foi tocando aceitando as derrotas manipulando as nossas próprias emoções. Tudo fazemos para sobreviver ao nosso próprio tédio.


 


Ao chegar perto do fim tentamos encontrar um fim para cada um. Para todas as roturas que encontrámos ou provocámos. Para todos os amores que sofremos realizados ou não. Para todas as derrotas as vergonhas escondidas as pequenas maldades os pequenos orgulhos as pequenas ambições as pequenas invejas as pequenas lealdades as pequenas razões de tudo.


 


Mas será preciso primeiro fazer essa viagem. Ir desenrolando o que aplicadamente fomos colocando em gavetas labirínticas talvez à espera de não ser preciso escancarar as janelas. Ou nem sequer ter consciência da sua existência.


 



 

Attaboy

 



The Goat Rodeo Sessions


 

Crespologia

 


Não se pode acusar quem relata conversas privadas em restaurantes e cafés, sejam sobre política, astros ou futebol, para depois vir pedir justificações a Vítor Gaspar. Os jornalistas sabem as regras que estão afixadas. Não vale a pena invocar o interesse público. Essa conversa dá sempre para o lado que se quer. É uma conversa de moucos. São mais uns limites que se ultrapassam. Limites que foram impostos por estruturas onde as regras são às claras. Mais tarde serão limites impostos por ditaduras.


 


Nada disto tem a ver com combate e afirmação de repúdio à política europeia, defesa da soberania ou recusa de protectorados alemães.


 

Veremos

 


Vemos na Grécia, Portugal. Porque será que achamos que somos diferentes dos gregos? Mas que Europa é esta em que Merkel se julga dona da União Europeia, do dinheiro da União Europeia, das políticas da União Europeia?


 


Vemos na Grécia, Portugal. E veremos outros países. Como eles começam a ver em Merkel outro Hitler. Como outros hão de ver.


 

Encontro incidental

 



Monet


 


Entrou no quarto com cara amarrada, levemente indisposta pela companhia. A miúda passou o tempo como ela imaginava que passaria, ao telemóvel. Telefonou a várias pessoas, entre familiares e amigos, a contar da sua entrada inusitada nas urgências, das dores e da operação, da cicatriz e dos repuxões, da má qualidade da comida e da simpatia da médica.


 


Entre as vítimas contava-se o namorado, um desgraçado escurinho e magrinho, com a indumentária de gueto exibida numa demonstração de arrogância de tribo, com um ar de preguiça e tédio que se impunha, avesso às várias tentativas de vitimização da companheira. Como as mulheres são manipuladoras, atrevidamente dramáticas, descrevendo e mostrando interiores doridos, ao que eles apenas são capazes de regurgitar que nooojjjooo. Mas o mais extraordinário foi o facto de, mal o rapaz ter desaparecido de vista, ter voltado aos telefonemas intempestivos, de longos minutos, a perguntar como estava a ocupar todos os segundos da vida dele. Isto até ao exacto momento anterior ao adormecimento.


 


Apesar de tudo, a carranca foi-se-lhe suavizando. Era uma miúda terna e divertida, com uma noção perfeita de que não deveria provocar a velha (com certeza que, para ela, era uma velha com cara de pesadelo). Não fez perguntas, não fez comentários, não fez nada que lhe acirrasse o desagrado. Dormia com o silêncio das almas jovens sem torturas, bem diferente do seu ressonar bastante audível, aquisição que muitos anos e muitos quilos lhe tinham somado, das suas insónias bravias e dos seus calores nocturnos, transpirados de desalento e de inúmeras ideias, que se esvaíam mal raiava o dia.


 


Foi quase como uma noitada antes de um qualquer evento científico, companheiras de uma noite, distâncias bem guardadas mas com o seu quê de cumplicidade, mesmo sem que a idade, o estilo e as ideias fossem diametralmente opostas. E seríam?


 

World Press Photo 2011

 



 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...