01 janeiro 2012

o portugal futuro

 



Poema de Ruy Belo 


 


o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


 

Dunas

 



Ivete Sangalo & Rosa Passos 


 


Mês de março em Salvador
O verão está no fim.
Todo o mato está em flor
E eu me sinto num jardim.

Quem sair do Abaeté
Rumo às praias do Flamengo
Não de carro mas a pé,
Pelas dunas, mato a dentro

Há de ver belezas tais
Que mal dá pra descrever:
Tem orquídeas, gravatás,
Água limpa de beber

Cavalinhas e teiús,
Borboletas e besouros,
Tem lagartos verdazuis
E raposas cor de ouro

Sem falar nos passarinhos,
Centopéias e lacraus,
Nas jibóias e nos ninhos
De urubus e bacuraus

Vejo orquídeas cor de rosas
Entre flores amarelas
Dançam cores vão-se as horas
Entre manchas de aquarela

Desce a tarde vem na brisa
Um cheirinho de alecrim
Canta um grilo. Sinto a vida:
Tudo está dentro de mim.

Mês de março em Salvador
O verão está no fim.
Todo o mato está em flor
E eu me sinto num jardim


 

2012

 



 

31 dezembro 2011

Distraidamente

 


(…) passa distraidamente pelos vários canais de televisão à espera que passe o tempo que disparate isto do fim do ano é só um dia exatamente igual aos outros todos que mania esta de separar o tempo como se o tempo tivesse quebras e sinais vermelhos isto só serve mesmo é para comprar agendas diferentes e beber um copo a mais não lhe está a apetecer nada o espírito festivo pôr a mesa lavar a louça estar acordada até à meia-noite só porque é fim de ano tanta coisa que ainda ficou por fazer e o tempo não pára os dias passam à velocidade da luz exponencialmente mais depressa cada ano que envelhece a relativização do tempo que ainda estará para acontecer em relação ao que já passou já não aguenta mais retrospetivas nem as infindáveis listas de melhores qualquer coisa não percebe bem o que tem de comemorar quando o que se adivinha é tão mau suspira e desliga a televisão que são horas de andar com a festa pelo menos está dispensada delas por mais um ano (…)


 

O banho

 



Degas


 


Não se lembra quando nem como começou o ritual. Todos os trinta e uns de Dezembro, pela tardinha, tomava um demorado banho, com tudo aquilo de que nunca se lembrava nos outros dias do ano. Sais, pétalas de rosa, espuma, horas de prazer e antecipação, pele delicadamente macia, fresca, rescendente a hidratantes e desodorizantes. Vagarosamente depilava-se, axilas, púbis, coxas e pernas, lábio superior, um retoque nas sobrancelhas. Quarto aquecido, a roupa de cerimónia a descansar no braço da poltrona, colar e brincos cintilantes em cima da cómoda, escova de crina para os seus cabelos.


 


A cerimónia de preparação demorava horas mas sempre perfeitamente cronometrada. Antes da meia-noite, com a mesa cheia de pequenas iguarias, o copo transbordante de champanhe, recebia o ano novo, como uma amante que se esmera para a consumação do ato. Mas ao contrário dos simples mortais, que de tanto ansiarem a felicidade nunca a encontram, a ela o primeiro de Janeiro nunca a desiludia. Só, entre o ambiente perfumado pela gula e pela luxúria, oferecia-se à celebração do que havia de acontecer.


 

30 dezembro 2011

País

 



Carruço


 


País sem teto nem chão o meu país sem lágrimas


País sem beira nem perdão o meu país em lágrimas


País sem alma nem caixão o meu país sem nada.


 


Velo pelo meu País ardo pelo meu País


País sem ondas para navegar


País sem terra para semear


 


Grito pelo meu País caio pelo meu País


País sem medo para gritar


País sem tempo para esperar.


 

Revista do ano: o que nos deixou presos à Rádio em 2011




 

 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...