15 dezembro 2011

Pequenos

 



Petronella van den Berg: Friends


 


 


De pequenos confortos inaparentes e solitários


criamos espaços diários


sem dias feriados afetados.


 


De pequenos gestos irreverentes e solidários


criamos espaços familiares


contratos sem termo renovados.


 

13 dezembro 2011

Uma história de Natal

 



 


Conhece-os pelos nomes, pelos pais e pelas mães, os ausentes e os presentes, os desempregos e as necessidades especiais. Conhece-os pelas letras, pelas linhas, pelos risos. Sabe-lhes das tristezas, dos defeitos, dos almoços, das violências, das doçuras.


 


Tão séria e tão risonha, tão sarcástica e ternurenta, percorre  mundo a direito, percorre a vida que curva, percorre a cinza que incendeia. De memórias se fazem livros, de vontades se fazem dias, de simplicidade se fazem aqueles que dão o tempo, os dedos, as fantasias. Livros e desenhos, ecritores e pintores, a cada um uma palavra, para cada nome o elefante, ou o sol, ou a menina. Das memórias se podem dar pequenas grandes felicidades.


 


Feliz será este Natal, pelas mãos da Professora, de uns quantos fortuitos mecenas, de Alice Vieira, Afonso Cruz, Rita Taborda Duarte e Luís Henriques.


 


Assim será.


 



 

12 dezembro 2011

Direito à saúde

 


Tenho estado espectante sobre a política de saúde deste governo. Considero indispensável, agora como antes, a necessidade de tomar medidas para sustentar financeiramente o SNS. A crise do País e da Europa agravam a situação. Mas precisamente por isso é tão importante a gestão dos serviços que o Estado deve manter e reforçar em épocas de austeridade e de grande redução de rendimentos disponíveis.


 


O aumento das taxas moderadoras eram esperadas, ou até exigidas pela troika. Mas a magnitude do aumento e a indiscriminação aparente do que aumenta faz perigar o acesso aos serviços de saúde a quem tem mais dificuldades económicas.


 


As taxas moderadoras para as urgências devem servir para incentivar os cidadãos a recorrer aos Centros de Saúde e aos médicos de família. Mas não é honesto e é perigoso aumentar para o dobro as primeiras (o custo das urgências pode ir até 50 euros por episódio) e para o triplo as segundas, pois não há médicos de família suficientes e os Centros de Saúde não têm capacidade para atender os doentes em tempo útil.


 


Estrangula-se de um lado e estrangula-se do outro. Ou seja, pela primeira vez desde a instituição do SNS os cidadãos portugueses deixarão de ir ao médico porque não têm dinheiro.


 


Se há ou não margem para o crescimento das taxas moderadoras é um debate fútil. O SNS, tal como a Escola Pública e a Segurança Social são as bases da sociedade que construimos desde o 25 de Abril. Ao contrário do que as manipulações política e jornalística tentam divulgar, são instrumentos que garantem a igualdade de oportunidades e a igualdade de direitos a todos.


 


O SNS tem por obrigação cortar os desperdícios, reorganizar-se e tornar-se mais eficiente. Os profissionais são quem mais pode contribuir para isso, pois a redundância de prescrições de meios complementares de diagnóstico e a hipermedicação são dois enormes sorvedouros de dinheiros públicos e exemplos de má prática. Mas o direito à saúde, inscrito na Constituição e no código genético da nossa democracia, está a ser posto em causa com este tipo de medidas.


 

10 dezembro 2011

Os novos apóstolos

 



Chua Mia Tee


 


Ainda não passou um ano desde as últimas eleições. E nos entanto parece que vivemos noutro país, noutro mundo. A abruta e tenaz contração económica, a depressão, o cinzentismo nacional, a subserviência, o oportunismo, o falso moralismo, o conservantismo, a destruição do laicismo, do conceito de estado social, do direito ao trabalho, da remuneração condigna, alteraram profundamente a sociedade. As lojas esvaziam, a recessão aumenta, contam-se cêntimos e, pior do que tudo isso, ninguém tem esperança no futuro e as certezas são apenas para o aumento inevitável da austeridade.


 


Retrocedemos mais de 30 anos, para a ideologia do inho. Regressámos ao destino de quem defende ser formiga para sempre, de quem inveja a cigarra e, com os olhos gulosos no pecado, grita bem alto a sua virtude vaidosa e hipócrita. A honradez não precisa de batina e a criatividade não é desperdício. Mas os novos apóstolos económicos riscaram a busca da felicidade dos seus cadernos de contabilistas. Se é que alguma vez souberam ler.


 

Esta Europa não é para nós

 



 


A Europa fez o que o eixo franco-alemão tanto desejava – as decisões europeias não são democráticas e a democracia passou a ser uma palavra sem significado nos países europeus.


 


O novo acordo, que não é tratado para que não seja necessária a ratificação parlamentar e/ou referendo, impõe que os orçamentos de cada estado soberano sejam revistos pela Alemanha, que as constituições de cada estado soberano sejam modificadas. Ou seja, que os estados deixem de ser soberanos e passem a ser uma parte da Alemanha.


 


Para que iremos nós, cidadãos portugueses, eleger parlamentos se os instrumentos da governação vão passar a ser decididos e Berlim?


 


O governo português, liderado por Passos Coelho, não podia ser mais subserviente nem acomodatício. Tal como o líder do seu parceiro de coligação. Honra seja feita a António José Seguro que, desta vez, não se mostra disponível a abster-se na questão constitucional.


 


Esta Europa não é para nós. Convinha que nos preparássemos para sair pelo nosso próprio pé deste pseudofederalismo.


 

08 dezembro 2011

Sem dívidas

 


Há ainda um enorme grupo de pessoas que, talvez receosas de que a manipulação da informação que protagonizaram e a desinformação centradas no ódio a José Sócrates, eleito como o maior idiota, incompetente, mal intencionado e parolo do mundo, aquele que deu origem à crise em Portugal e, pelos vistos, em toda a Europa, responsável pelas cheias, pela seca e pela rapina d’Os Mercados, comecem a ser esquecidos perante a imposição da realidade. Por isso continuam a publicar artigos e opiniões sobre o ex Primeiro-ministro, citando em tom jocoso frases retiradas de uma conferência, episódios em reuniões de pais e pagamentos de jantares faustosos.


 


Esses opinadores estão saudosos de um tempo, de um país e de uma sociedade que já não existem, em que a honra se media pela humildade, pobreza, falta de ambição e a cristã resignação perante a incapacidade de se ter um lugar ao sol, neste mundo.


 


Só para esses opinadores é que os países não têm dívidas, só para esses opinadores um país se basta a si próprio esquecendo as inter-relações entre as sociedades, as economias, as culturas. Só para esses opinadores é mais importante não ter dívida pública que investir em conhecimento, ciência, escolas, hospitais, estradas, aeroportos, barragens, parques eólicos, reformas, subsídios de desemprego. Só para esses opinadores o estado deve ser destruído.


 


De facto há um conjunto de ideólogos que não se reviram no estado social que nos orientou durante a última metade do século XX. Esta é a hora deles.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...