23 junho 2011

Próxima legislatura

 



 


O aparente apaziguamento da sociedade e a boa vontade perante o novo governo revela o enorme alívio perante o resultado das últimas eleições. Alívio que é partilhado pela esquerda, pois penso que todos esperavam um enquadramento parlamentar diferente, sem maiorias, em que a formação de um governo fosse difícil pela incapacidade de se formarem alianças. Penso que o melhor que se esperava era uma reedição do bloco central. Assim, a escolha clara por uma maioria de direita dá estabilidade ao país. Além disso, a coligação soube negociar em tempo recorde, apresentar uma solução governativa inovadora e resolver o imbróglio Fernando Nobre de uma maneira brilhante.


 


O suspiro de alívio é geral e profundo. Mas as opções políticas são claras e o que nos espera serão medidas de redução do Estado Social, de caritatização da sociedade, da transformação daquilo que consideramos direitos como favores do Estado. A solidariedade entre os cidadãos e a sua contribuição para o bem geral, que era mais ou menos assumido que se traduzia no contributo fiscal, em que os que mais ganham mais pagam, para que os serviços prestados fossem universais, parece ter os dias contados. A ideia de que a Educação Pública é um dos agentes mais importantes na democratização da sociedade, em que o investimento na escola tem o retorno garantido na redução das diferenças entre diversas classes económicas e múltiplas culturas, será ultrapassada.


 


A implosão do BE e a renovação ideológica e de praxis no PS são indispensáveis no reposicionamento dos partidos de esquerda para o debate que importa realizar, tendo em conta a globalização, o falhanço das lideranças europeias e a derrocada do projecto europeu. Os valores mantém-se, mas as medidas para que as sociedades se revejam neles, a forma de os abordar e, sobretudo, de os honrar, terá que ser diferente. Francisco Assis abriu o caminho com a hipótese da participação da sociedade na eleição do líder do PS.


 


A próxima legislatura, esperemos, terá a duração de quatro anos. É tempo de renovar e assumir roturas com o passado. A esquerda precisa de romper com a cultura sindical instalada, que é arcaica e anacrónica, precisa de rever os modelos da legislação laboral, das áreas de desenvolvimento económico e de inovação, precisa de manter algumas bandeiras, como as energias renováveis e o investimento na ciência, de propor reformas políticas e administrativas que respeitem a democracia. Acima de tudo, precisa de repor a credibilidade da política e dos políticos, rejeitando sem medo todas as formas de populismo que se mascarem de movimentos apartidários e de cidadãos, que mais não são do que embriões de devaneios totalitários.


 


Não há tempo a perder.


 

22 junho 2011

Urgências, cópias, lamentos e demissões

 


Depois de uma reunião de urgência com a Ministra da Justiça, pedida pela própria Directora do Centro de Estudos Judiciários (CEG), na sequência das notícias sobre o copianço generalizado num exame, que resultou na digna classificação igualitária de 10 valores, Paula Teixeira da Cruz aceitou a demissão de Ana Luísa Geraldes.


 


A opinião do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), pela voz de João Palma, não se fez esperar, lamentando a saída da Presidente do CEJ - não foram mais do que vítimas da política ou da falta de responsabilidade política que tem havido nos últimos anos.


 


É uma conclusão óbvia e imediata, não há qualquer dúvida. A política e a falta de responsabilidade política redundam sempre, impreterivelmente, na capacidade de pessoas adultas se disporem a copiar nos exames.


 


E que tal alguém aceitar a demissão de João Palma? Ou mesmo a extinção do SMMP?


 

Um dia como os outros (90)


(...) Se porventura estiverem médicos envolvidos nós cá estaremos para instituir severas penalizações a esses médicos que de forma tão grosseira estariam a ferir o código de ética e deontológico dos médicos. (...)


 


(...) Em todas as profissões existem pessoas que não respeitam as regras e nós os médicos somos os primeiros interessados em que haja mecanismos que possibilitem a detecção de médicos prevaricadores. (...)


 


José Manuel Silva


21 junho 2011

Depois das eleições

 


O BE está a partir-se em bocadinhos, mais do que os bocados que o formaram. Com ele a miragem de uma alternativa ao PS. A esquerda grande de Francisco Louçã não é mais do que a enorme ambição demagógica e populista de um pequeníssimo grupo, que muitos sonharam ser diferente.


 

Parlamento dignificado

 



 


Depois de um inacreditável erro, ao convidar Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República, cargo que resulta de uma eleição; depois de Fernando Nobre não ter percebido que a sua incrível arrogância em manter a imposição do seu nome para a eleição, que se sabia muito periclitante, Passos Coelho saiu-se bem, mesmo muito bem, com a solução encontrada.


 


Assunção Esteves é respeitada por todos, independentemente do partido a que pertence. Fez um discurso que louva a política e os políticos, que dignifica os deputados e o Parlamento, que aplaude a democracia.


 


Parabéns a este Parlamento que assim começa muito bem.


 

19 junho 2011

Dança dos Elfos


DavidPoper: Dança dos Elfos - "Elfentanz"

 violoncelo: Julian Steckel
piano: Reiko Hozu

17 junho 2011

O XIX Governo Constitucional

 



 


A divulgação dos novos ministros deste novo governo foi, pelo menos para mim, uma surpresa. Como foi uma surpresa, agradável, a forma como decorreram as negociações entre Passos Coelho e Paulo Portas, rápida e confidencial.


 


O alívio pelo facto de Fernando Nobre não ser Ministro da Saúde é tão grande que até estou optimista. Outro ponto a favor do governo é o conjunto de gente nova, de que não se falava, que não se posicionava, que não eram a salvação da pátria. Felizmente não estão lá Eduardo Catroga, Bagão Félix, Miguel Frasquilho, Medina Carreira, António Barreto. Os nomes que pululavam pelos media, com excepção de Nuno Crato, ficaram de lado, e temos um governo de gente desconhecida.


 


Não tenho dúvidas nem esperança quanto ao rumo ideológico do governo. O SNS vai deixar de ser universal e tendencialmente gratuito, os cheques-ensino ou semelhantes vão aparecer, as privatizações da CGD, etc. vão acontecer. Mas em relação aos Ministros a minha atitude é de expectativa.


 


Paulo Macedo é uma incógnita na Saúde. Recebeu elogios de vários quadrantes políticos quanto ao seu trabalho como director-geral dos Impostos. De contas em ordem parece saber. Quanto ao resto, para além da Médis, não sei qual o conhecimento que tem sobre os problemas da saúde.


 


Quanto a Nuno Crato, ministro da Educação, Ensino Superior e Ciância, é uma desilusão, pela rigidez e conservadorismo.


 


Os ministros políticos - Miguel Relvas (Assuntos Parlamentares) e Miguel Macedo (Administração Interna) - eram (quase) inevitáveis. Paula Teixeira da Cruz (Justiça), Assunção Cristas (Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território), Aguiar-Branco (Defesa) e Mota Soares (Solidariedade e Segurança Social), são nomes fortes, com peso dentro dos respectivos partidos políticos. Vítor Gaspar, ministro de Estado e das Finanças, e Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia e Emprego, são desconhecidos do grande público e, portanto, nomes refrescantemente novos. Paulo Portas era incontornável - ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.


 


Estou duvidosa quanto à capacidade de Miguel Macedo ser capaz de fazer uma verdadeira e profunda reorganização administrativa. Fernando Nobre, espero, não será eleito como Presidente da Assembleia da República.


 


Enfim, temos pela frente quatro anos de política e de governo de direita. Que seja sério e a sério, que a oposição cumpra o seu papel de fiscalização, que se combata politicamente, que não se desfaça o que de bom se fez. Que tenhamos sorte. E que o PS se renove e construa uma alternativa de esquerda que possa vencer as próximas eleições.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...