27 dezembro 2010

Das (des)Ordens profissionais

 



 


Tal como Ana Matos Pires diz, penso que é altura de discutir a existência, nos termos actuais, das ordens profissionais, a sua orgânica, competências e funções.


 


No caso da Ordem dos Médicos não entendo a necessidade de existir uma única Ordem como Associação de Médicos. Penso que se deveria abrir a possibilidade de criar Associações de Médicos cuja adesão fosse voluntária. Essas associações zelariam pela qualidade e pela certificação e requalificação médicas, de acordo com os requisitos internacionais tal como são definidos pelo estado da arte. O reconhecimento das competências básicas para o exercício da profissão deveria ser dado pela homologação das respectivas licenciaturas e especialidades, de acordo com os curricula definidos e exigidos pelo estado, após audição de associações médicas e das sociedades científicas.


 


A verdade é que a Ordem dos Médicos se tem comportado mais com um sindicato, com os problemas do movimento sindical português nos dias de hoje, do que uma associação que zele pela deontologia, pela ética e pela credibilidade da profissão médica. Como estrutura pesada que é, não tem capacidade de resposta, por exemplo, para as queixas dos doentes em relação aos médicos, cuja prioridade me parece absoluta, na defesa da prática de uma medicina de qualidade, deixando pairar a suspeição de um corporativismo que defende tanto quem merece como quem não merece ser defendido.


 


Os próprios médicos não se sentem motivados a participar numa Ordem em que não se reconhecem. As críticas do Bastonário ao Ministro Mariano Gago são exageradas e não fundamentadas. Apenas se percebe, mais uma vez, a resistência à abertura de novos cursos de Medicina, levantando suspeitas de má preparação, não se sabendo quais as bases para o fazer. Esquece-se a Ordem dos Médicos da sua responsabilidade no que diz respeito ao fecho de vagas para Medicina ao longo dos anos, defendendo a manutenção da redução de vagas com o argumento do desemprego médico e da sua má distribuição territorial. O elevado número de Médicos estrangeiros a trabalhar em Portugal demonstra a falácia desses argumentos.


 


Seria muito importante que os representantes que forem proximamente eleitos tivessem a coragem de abrir este debate. Seria um estímulo a todos os médicos para se olharem criticamente, questionando o seu papel como grupo profissional, as suas prioridades, as suas carreiras, o Serviço Nacional de Saúde, as formações pré e pós graduada e o seu estatuto laboral, sem preconceitos.


 

25 dezembro 2010

Blogues do ano




 


Nesta altura do ano, que é tão boa como qualquer outra mas na verdade o fim e o início dão sempre jeito para balanços, multiplicam-se as listas de livros, filmes, músicas, cantores, figuras e blogues do ano. Todas estas listas dependem do gosto e dos interesses de quem as faz, como é lógico.


 


O problema é sempre de amostragem. Parece-me até soberba escolher os blogues do ano num universo tão infinito como os universos o são, por definição, quando eu apenas visito uma ínfima parte desse mundo. Mas mesmo assim, de todos aqueles que leio, uns com gosto, outros com raiva, uns com curiosidade, outros com indiferença, há alguns a que eu dou particular destaque.



  • ana de amsterdam - depurado, esquálido, com textos de uma sensibilidade, rigidez, realismo e fantasia estranhos e envolventes, música que foge ao habitual, irregular, como o ritmo da vida;

  • Aspirina B - actualidade, espírito crítico contundente, muitíssimo bem escrito, sagaz e divertido;

  • É tudo gente morta - sofisticado, requintado, de uma estética formal e de conteúdo excepcional, em que os temas abordados rompem a rotina do dia-a-dia;

  • Garfadas on line - erudição à volta das cozinhas, dos alimentos, dos restaurantes, da arquitectura, da publicidade, das embalagens, dos rótulos, das ementas, das fábricas, extraordinário;

  • gravidade intermédia - amargura, ternura, sofrimento, generosidade, de uma gravidade que nos toca e nos marca;

  • Herdeiro de Aécio* - brilhante, variado, divertido, irritante, um manancial de pequenas histórias que fazem parte da História, imperdível e inclassificável.

  • Horas Extraordinárias - os livros oferecidos e comentados com uma simplicidade surpreendente, informativo e viciante;


Quase sempre prefiro blogues individuais, talvez porque têm uma linha mais coerente, uma personalidade mais marcada. No entanto há, nesta lista, dois blogues colectivos que conseguem essa coerência com múltiplos colaboradores. Obrigada a todos pelas horas de entretenimento, informação e questionamento que me proporcionaram.


 


*Há que dizer que a imparcialidade em relação a este blogue é sempre tentada mas, se calhar, não conseguida. A. Teixeira é alguém que me é muito chegado...


 

Manhã de Natal


 


Está bom no aconchego de ti. Enrolamos os braços e as pernas no doce morno dos cobertores. Manhã de Natal, o rádio vai despejando mortos e feridos, aviões parados e passageiros desesperados, músicas mais ou menos açucaradas, enquanto o sono vai desaparecendo mansamente.


 


A paz mede-se pela ternura da partilha do toque, pelo café com filhós na cama, começando o dia devagar.


 

24 dezembro 2010

Christmas Lights









Coldplay


 

 

Christmas night, another fight
Tears we cried a flood
Got all kinds of poison in
Poison in my blood

I took my feet
To Oxford Street
Trying to right a wrong
Just walk away
Those windows say
But I can't believe she's gone
 
When you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all

Up above candles on air flicker
Oh they flicker and they float
But I'm up here holding on
To all those chandeliers of hope

Like some drunken Elvis singing
I go singing out of tune
Saying how I always loved you darling
And I always will

Oh when you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all

Still waiting for the snow to fall
It doesn't really feel like Christmas at all

Those Christmas lights
Light up the street
Down where the sea and city meet
May all your troubles soon be gone
Oh Christmas lights keep shining on

Those Christmas lights
Light up the street
Maybe they'll bring her back to me
Then all my troubles will be gone
Oh Christmas lights keep shining on

Oh Christmas lights
Light up the street
Light up the fireworks in me
May all your troubles soon be gone
Those Christmas lights keep shining on


 

 

Do Natal

 


 


Do Natal do frio da neve


das boas novas


tenho apenas lugar entre as mãos


que se tocam.


 


Do Natal dos justos dos puros


dos sem pão


tenho apenas a fome


dos que se amam.


 


Do Natal que nos ensinam


resta apenas a vida dos que sentem.

23 dezembro 2010

O Tannenbaum









Vince Guaraldi Trio

Uma história de Natal

 



Victoria Ward 


 


 


Estava demasiado frio, até para Natal. A consoada tinha-se passado como de costume, o dia cheio de cozinha, açúcar e mal contido tédio, a noite de murmúrios e silêncios desconfortáveis, histórias repassadas e revisitadas, rasgar papéis, embrulhar sorrisos, tudo o que de bom e de mesquinho veste as festas familiares.


 


A tarde já parecia noite, o céu escurecido ameaçava chuva, o vento desabotoava o casaco. Entrou na enfermaria quase deserta, com o característico levitar da doença e da desesperança. No quarto apenas uma cadeira preenchida, com um corpo magro, branco e leve. Subiu-lhe o soluço mas guardou-o, em respeito por quem sofria. A razão da sua culpa, da sua infinita insónia. Não haveria mais perdão para o erro, para o descuido, para a distracção.


 


Os olhos abriram-se e reconheceram-na. Sorriu. Abraçou-a. Desde aquele momento todos os dias seriam riscados do calendário, contados como se fossem preces, passados em permanente sobressalto. Talvez dali a uns anos se permitisse sentir-se livre. Talvez dali a uns anos voltasse a ser Natal.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...