Fred Astaire & Ginger Rogers
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
14 novembro 2010
Da salvação nacional
Os repetidos pedidos para a formação de um governo de salvação nacional é a uma forma encapotada de fazer um golpe palaciano, revertendo e desvirtuando o resultado de eleições democráticas.
O PS, com José Sócrates eleito como secretário-geral do partido, ganhou as eleições legislativas e, portanto, o direito constitucional de formar governo. A formação de um governo minoritário foi uma escolha dele e do PS. Só se compreende a possibilidade de um novo governo, dentro deste quadro parlamentar, se este for demitido através de uma moção de censura parlamentar ou se pedir a demissão.
Caso essa hipótese se verificar, o Presidente chamará o líder do PS para formar novo governo, no caso José Sócrates. Ou então o Presidente dissolverá a Assembleia e marcará eleições antecipadas. Se o PS entretanto mudar de secretário-geral, será então o novo secretário-geral a concorrer às eleições.
Portanto a formação de um novo governo está prevista nas normas constitucionais, pelo que o pedido para um governo de coligação, com o CDS ou com qualquer outro partido, é um exercício de jogo político para agitar a opinião pública. A chamada à unanimidade de ideias, posições e políticas, a “salvação nacional”, é uma manifestação bolorenta e antidemocrática.
Portugal precisa de ideias, diferentes e fortes, de pessoas que tenham a coragem das convicções, não de generalidades de comentaristas, analistas, economistas e outros istas, que não fazem qualquer ideia, nem me parecem interessados na salvação seja do que for.
13 novembro 2010
Outra explicação da Pedra
E ao terceiro livro fez-se "pedra". O ciclo de pedra não é o da oculta filosofia: Água, Terra, Fogo e Ar. Nem tão pouco dos humores da medicina aiurvédica: vento, fogo e terra.
Da luz e da sombra, para utilizar expressões dos dois primeiros livros de poesia de Maria Sofia Magalhães somos transportados para a "pedra".
E permitam-me uma interpretação: a pedra é o suporte onde as nossas vidas deixam um sulco gravado. Voluntário umas vezes, involuntário outras. Tal como a natureza ao longo de milhões de anos, pela água, pelo ferro, pelo magnésio, deixa registados nas pedras, riscos, cores e formas - as "scenic stones" - também a vida deixa registos, sulcos, cores e formas. O "ciclo da pedra" é o mapa sem destino que o escritor diariamente percorre (Mapa).
Ao terceiro livro a pedra é um Mapa. Um mapa em permanente elaboração. Mas ao terceiro livro estão lá dentro os dois anteriores. Essa luz que está dentro de nós e se esconde na procura (É quase noite) e causa a sombra que passa (Da sombra que passa) é, no fundo, a mesma que nos faz renascer todos os dias (Entardecer).
Porque se dia a dia nascemos, dia a dia esmorecemos, sem perceber que o último acto para morrer é viver. E quem desenha o mapa da nossa vida? O curso do acaso (Desluzido). A estrada que não acaba (Só agora). As tardes de chumbo e as noites entretidas de nada (Inevitável). As auroras de espuma que nos guiam para além dos deuses (Ondas). O voo rasante do pardal que sacode o medo (Sigo). O inevitável amanhã (Insónia). A asa do pássaro que inicia a viagem (Abstracção).
Ao terceiro livro a pedra é a História. Porque não há História Universal. Há apenas a História que as correntes individuais somam e reproduzem (Ciclos Perpétuos).
Ao terceiro livro a pedra é o Silêncio. Quando as palavras faltam fica o impalpável silêncio (Impalpável). O silêncio que se respira, imenso, sem fim (Silêncio). O silêncio que pesa pela ausência (Solidão). O silêncio que arranha (Vozes). O silêncio que está nas palavras mais saborosas (Dizemos).
Ao terceiro livro a pedra é o Amor. O amor que nos redime. Pelo infinito abraço (Dúvida). O que sabe atar as mãos e mantê-las apertadas (Enquanto). O que se descobre entre longos abraços de saudade (Na casa crua). O que ajuda a descobrir o muito que nos falta procurar (Juntos). O que se traduz em palavras plenas de mansidão (Mansidão). O que sobraria do espaço onde poisasse o resto da alma que resistisse (Nunca me faltaria). Pelo amor renascemos (Entardecer). Porque deveríamos olhar mais para a lua que o chão (Olhar).
E ao terceiro livro a pedra é a Liberdade. A liberdade que ordena mais que o calendário (Começo pelo trabalho). A liberdade que arrasta a poeira que todos os dias tolda, que sacode os ombros que todos os dias pesam, que respira o ar que todos os dias falta. A liberdade, enfim, que marca encontro para o próximo dia (Poeira).
Explicação da Pedra
Esticamos os ramos
abraçamos os dias
esquecemo-nos que o tempo não existe
apenas o ar a terra o fogo a água
apenas a metamorfose da terra
dos rios da luz dos pássaros
apenas a transformação da dor num tecido firme
branco imóvel
na pedra.
Rompemos as redes as linhas
traçamos limites arestas esquinas
arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos
na confusão dos sentidos hiper-estimulados.
Abrimos os poros
somamos enzimas
degradamos a vida
depuramos a morte.
Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos
erguem-se as fontes da rigidez suprema
o vazio
o abandono.
Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.
Quem são?
Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados
dos cristais de pureza guardados lá dentro.
Nem sempre descobrimos
a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.
Nem sempre queremos a ferida o sangue
estilete que aguarda a pele desnuda.
No fim
se ele existe
segue a erosão permanente
nas costas nas mãos nas dobras da vida
na concha na pérola.
Areias mais grossas areias finíssimas
povoam as praias povoam os ventos.
Somos nós que descremos na posse na carne
sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos
que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.
10 novembro 2010
Ciclo da Pedra
com apresentação de Ricardo Leite Pinto;
colaboração de Manuel d'Oliveira (guitarra) e de Maria Celeste Pereira (leitura de poemas).
A mudez perante o indizível
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