23 março 2010

Ser poeta / Perdidamente

 


 










 


 


Poema de Florbela Espanca


Trovante


 


 


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior


Do que os homens! Morder como quem beija!


É ser mendigo e dar como quem seja


Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


 


É ter de mil desejos o esplendor


E não saber sequer que se deseja!


É ter cá dentro um astro que flameja,


É ter garras e asas de condor!


 


É ter fome, é ter sede de Infinito!


Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...


É condensar o mundo num só grito!


 


E é amar-te, assim, perdidamente...


É seres alma, e sangue, e vida em mim


E dizê-lo cantando a toda a gente!

21 março 2010

Que o amor não me engana

 



Zeca Afonso


 


 


Que amor não me engana

Com a sua brandura

Se da antiga chama

Mal vive a amargura


 


Duma mancha negra

Duma pedra fria

Que amor não se entrega

Na noite vazia?


 


E as vozes embarcam

Num silêncio aflito

Quanto mais se apartam

Mais se ouve o seu grito

 


Muito à flor das àguas

Noite marinheira

Vem devagarinho

Para a minha beira


 


Em novas coutadas

Junta de uma hera

Nascem flores vermelhas

Pela Primavera


 


Assim tu souberas

Irmã cotovia

Dizer-me se esperas

Pelo nascer do dia

 

Devassa e populismo

 


Jaime Gama fez bem ao lembrar os deputados que os computadores, os assentos, o espaço, os lugares, a responsabilidade, a representação são publicas, de todos nós.


 


Mas não há nada que justifique a invasão da privacidade seja de quem for. Portanto José Lello tem toda a razão e Jaime Gama apenas aumentou a confusão entre informação e coscuvilhice.


 

Viver de lado

 



Berkeley: tea and poetry


 


 


Falo-te dos poetas que o são em segredo

dentro da incandescência dos sentidos

que partilham um ser humano desprevenido.

Falo-te dos poetas que em silêncio saboreiam palavras

para que as ouçam no eco nos pensamentos de outros

nos gestos de quem se dá. Falo-te dos poetas dos tempos de luto

ou de sol manso que entre as cortinas do fumo da vida

entreabrem pequenos desenhos de futuro.

Falo-te dos poetas que não abrem a voz

não olham aos céus nem imaginam hipérboles brancas

sem luzes nem mãos esvoaçantes. Falo-te dos poetas que moram ao lado

que vivem de lado e adormecem a personagem que os acolhe

transformando a noite em poemas de olhos abertos.


 

A sagração da Primavera

 



Pina Bausch

Igor Stravinsky


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...