01 novembro 2009

A questão das demissões

 


A investigação de casos de corrupção que envolvem directamente agentes do estado, como é o caso Face Oculta, é mais um aviso da necessidade de uma justiça mais célere e mais transparente para restaurar a confiança dos cidadãos na administração pública, central e local.


 


É preocupante o avolumar de casos a investigar e a não conclusão definitiva de nenhuma destas operações necessariamente mediáticas, como os casos Freeport, Portucale, Apito Dourado, Operação Furacão, etc. A promiscuidade entre política, empresas que dependem do estado ou privadas, futebol, o tráfico de influências, os favorecimentos ilícitos e, sobretudo, o sentimento de impunidade que alastra a toda a sociedade são extremamente perniciosos para o próprio regime democrático.


 


No caso mais recente, Armando Vara foi constituído arguido. Independentemente do facto de qualquer pessoa ser considerada inocente até que se prove o contrário, como é possível que não apresente a demissão da Vice-Presidência do BCP? A sua manutenção no cargo vai tornar-se rapidamente num embaraço para o BCP assim como para o governo, para além de ser também uma questão de dignidade pessoal. Vítor Constâncio (personagem que perdeu credibilidade ao longo destes últimos 4 anos, nomeadamente com os casos BCP e BPN e BPP) já fez saber que “(…) Enquanto regulador, (…) questiona a idoneidade do vice-presidente do BCP (…)”.


 


O que se passou com o arrastar e atrasar do pedido de demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado deveria transformar-se num exemplo a não seguir.


 


(Também aqui)

 

31 outubro 2009

Um dia como os outros (1)

 


Depois de Obama ter anunciado o fim da proibição de entrada nos EU aos portadores de HIV, Fidel Castro acusa Obama de ter introduzido a gripe A em Cuba.


(Também aqui)


 


Adenda: afinal parece que Fidel Castro não disse bem isso. Nada de novo, eu é que me esqueço com frequência: não se pode acreditar no que se lê nos jornais, nem no que se ouve na rádio).


 

29 outubro 2009

Singularidades

 



 


Há algumas coisas que me fascinam. A forma como se baptizam as operações e os casos que estão sob investigação é fantástica: o caso mediático mais recente é o Face Oculta. Não é maravilhoso? Claro que todos já se declararam obviamente inocentes e de consciência tranquila. E claro que agora vamos todos tecer considerações e enveredar pelo jornalismo e comentarismo de investigação para decidirmos na praça pública o que aconteceu. Nem sei para que precisamos de advogados, juízes e tribunais.


 


Outra coisa fascinante é o sentido de organização, de simetria, direi mesmo de estética de quem, na sombra, arruma todas as armas, munições, dinheiro, cordas, algemas, facas, enfim, tudo o que se encontra nas casas, nos barcos, nos armazéns em que os meliantes são descobertos com armas ilegais, droga ou outras mercadorias. Outro dia foi na casa de um padre. E lá nos deparámos com uma mesa primorosamente arranjada com todas aquelas espingardas e balas, umas para cima outras para baixo, arrumadas por dimensões, em sentido crescente ou decrescente. É fantástico.


 



 

No hay problema

 



Pink Martini


 

Pecularidades da política nacional

 



 


Esta legislatura anuncia-se peculiar. Há como que um entendimento oficioso e informal de que é a oposição que deve governar.


 


Na área da Educação os partidos da oposição multiplicam-se em contactos e iniciativas, ouvem e negoceiam com sindicatos que, por sua vez, já tornaram públicas as suas opiniões e exigências em relação à suspensão da avaliação dos professores e do estatuto da carreira docente.


 


Aguarda-se que o governo e a ministra se pronunciem em relação à opinião da maioria negativa.


 


Na área da Saúde dá a sensação que todo o ministério se fundiu no Hospital Central de Portugal em que a Presidência do Conselho de Administração, a Direcção Clínica e o Gabinete de Imprensa são assegurados pela Dra. Ana Jorge. Esse Hospital Central de Portugal é o centro de referência da pandemia de gripe A. São produzidos boletins clínicos com periodicidade quase diária.


 


A política de saúde auto suspendeu-se por prazo incerto, mas teme-se que esteja de baixa prolongada.


 



 


Nota: também aqui.


 

25 outubro 2009

Referendo

 


Não percebo porque é que um grupo de socialistas católicos pretende um referendo sobre o casamento entre homossexuais.


 


Caso este seja legalizado, será o casamento civil. O casamento religioso será sempre conforme os preceitos da religião, neste caso os da Igreja Católica. Ou será que querem referendar a hipótese de haver casamento religioso para homossexuais? Pois, mas para isso não serve um referendo.


 


Os católicos ofendem-se com frequência e tendem a pretender que todos sigam as suas ideias, os seus valores, as suas escolhas.


 


O programa do governo era explícito nessa matéria e essa já foi sufragada. Caso seja legalizado o casamento entre homossexuais, ninguém será obrigado a ser homossexual, ninguém será obrigado a casar. Apenas se abrirá a possibilidade de dois cidadãos do mesmo sexo celebrarem um casamento civil.


 


Um referendo pedido por um grupo de católicos? Não percebo.


 


Nota: também aqui.


 

Caim

 



pintura de Gustave Doré


A morte de Abel


 


Génesis

Capítulo IV



  1. E conheceu Adão a Eva, sua mulher; e ela concebeu e pariu a Caim, e disse: Alcancei um Varão do Senhor.

  2. E pariu também a seu irmão Abel: e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.

  3. E aconteceu a cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra [uma] oferta ao Senhor.

  4. E Abel também trouxe dos primogénitos de suas ovelhas, e de sua gordura: e atentou o Senhor para Abel e para sua oferta.

  5. Mas para Caim e para sua oferta não atentou. E assanhou-se Caim em grande maneira, a ponto de lhe caírem suas faces.

  6. E o Senhor disse a Caim: Porque te assanhaste? E porque te caíram tuas faces?

  7. Não haverá exaltação se fizeres o bem? E se não fizeres o bem, o pecado está deitando à porta, com desejo de ti, e ele se assenhorará.

  8. E falou Caim com seu irmão Abel: e aconteceu, que estando eles no campo, se levantou Caim contra seu irmão Abel, e matou-o.

  9. E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel teu irmão? E ele disse: Não sei. Sou eu guardador de meu irmão?

  10. E disse [Deus]: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama a mim da terra.

  11. E agora maldito sejas tu na terra, que abriu sua boca para receber o sangue de teu irmão de tua mão.

  12. Quando lavrares a terra, não te dará mais sua força: vagabundo e forasteiro serás na terra.

  13. Então disse Caim ao Senhor: Maior é minha maldade, que se perdoe.

  14. Eis que hoje me lanças da face da terra, e de tua face me esconderei; e serei vagabundo e forasteiro na terra; e acontecerá que todo aquele que me achar me matará.

  15. Porém o Senhor lhe disse: Qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o senhor um sinal a Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.

  16. E saiu Caim diante da face do Senhor: e habitou na terra de Nod, na banda do oriente do Éden. (…)


Bíblia Ilustrada, tradução de João Ferreira Annes de Almeida; apresentação e fixação do texto: José Tolentino Mendonça; ilustrações: Ilda David; Assírio & Alvim


 


Caim (lança) o primogénito, talvez o preferido de Eva, Caim o lavrador, aquele que faria o bem para que fosse recompensado, aquele que ferveria de ciúmes perante Abel (nada), que era crente e solícito, que era bom.


 


Caim, aquele que escolheu o mal, aquele que pecou, aquele que foi condenado a prisão perpétua e não à morte, o que fugia de Deus e da voz do sangue do seu irmão, aquele que viveu a leste do Paraíso.


 


Caim, o escolhido por Deus como exemplo, o escolhido de Deus como sinal do lado negro do homem, o escolhido por Deus como prova. Caim, o sacrificado por Deus.


 


Esta história é uma história de humanidade e desumanidade, de amor, paixão, ciúme e morte, de condenação sem perdão. É uma história de sempre. Crentes, ateus ou agnósticos, há nestes livros uma profunda reflexão sobre nós, como nos vemos, como nos relacionamos, como nos amamos. Podemos sempre interpretá-los de forma literal, mas perderemos um manancial de informação sobre a nossa própria memória ancestral, os nossos medos e os nossos mitos.

 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...