18 outubro 2009

Das memórias

 



(Paul Cézanne - a autópsia)


 


Sem tempo para pensar, o sono transforma-se na cadeira do psicólogo, que nunca consultei.


 


O rapaz que morreu com cancro no fígado apareceu-me cinzento e verde, só barriga e esqueleto. É muito doloroso quando se vêem evoluir os corpos da fase saudável para a fase terminal. É assim que se chama: terminal. Não sei se o que ilumina o olhar e que faz com que surjam pessoas dentro de nós, aqueles olhares que nos acusam, não pela doença mas pelo reconhecimento dela, já terminaram ou ainda lá estão.


 


Então o volume do abdómen passou do dele para o meu, de repente era eu que estava esqueleto e barriga, verde, com a certeza de que a morte estava a dar-me a mão. Só que acordei. Acordo sempre em fases definitivas, deixando as decisões inadiáveis para depois.


 


Não sei se os sonhos recarregam baterias ou memórias, ou se as memórias são a energia de que necessitamos para aguentarmos os dias mecanicamente, sem pensar. Quando me apareceu alguém que estava morta, a quem eu perguntei porque tinha encenado a sua morte, a quem eu insultei pela dor, pela solidão, pela inexplicável tecedura de morrer, assim, sem deixar espaço para recorrer, refazer, remodelar, esfumou-se e acordou-me sem respostas.


 


Talvez porque a morte seja uma presença infinita, na mesa estendida, bem identificada, homem, mulher, tantos anos, com idade aparente igual ou superior à real, identificações sem identidades, invólucros de matéria orgânica, aqueles que já adormeceram na finitude das moléculas, que já aceitaram a não existência.


 


É precisamente quando olhamos para as células, para a fotografia que delas fizemos imediatamente após a sua despedida, bem conservadas e pintadas, aqueles pequenos fragmentos de alguém, que obsessivamente tentamos descodificar, é nesse preciso momento que se começa a morrer. Antes disso a morte é silenciosa, esconde-se, é em pequeno número e disfarçada, ceifa um núcleo aqui, um lóbulo acolá, uma pontada, um fraquejo momentâneo, as enzimas aumentadas, um ritmo arrítmico, até esse segundo em que se revela o indesmentível, o relógio que não encrava e que badala incessante e dolentemente.


 


Depois vem o tempo dos outros, dos que choram, dos que explicam, dos que se afastam. Mesmo em vida há o prenuncio do que já não é. E como não temos tempo para pensar, é no sonho que estamos sempre à beira do abismo ou que nos lembramos de como empurrámos alguém, sem nunca conseguirmos agarrá-lo em sonhos, se já não o pudemos amparar em vida.

 

Despojos

 



escultura de Claudia Souto

entranhados


 


Despojados de censura decência vergonha

desarmados do sentimento do outro

desamparados perante as câmaras dos olhos

sem quaisquer gestos encobertos

sem quaisquer sombras de distância

choramos por nós pelas dores do mundo em nós

assumidamente egocêntricos autistas no espanto

descartados da pele de civilização

afundamos na derrota no desespero na desesperança

sem cuidarmos do horror ou da indiferença

reféns da nossa individual ausência.


 


Descarnados descentrados choramos sem véus

pela sóbria necessidade

de sobrevivência.

 

Mundos Diferentes

 


Até 29 de Outubro, na Arte Periférica, Centro Cultural de Belém, uma exposição de Ejti Stih, pintora nascida na Eslovénia, boliviana por casamento, a trabalhar em Santa Cruz de La Sierra.


 


 


 

17 outubro 2009

Da próxima legislatura

 


Esta legislatura será um tempo de grande agitação política transformando-se obrigatoriamente num tempo de debates, de convicções, de discussões.


 


 


Politicamente vamos ter um governo minoritário. Quais serão a hipóteses de Sócrates e os seus ministros poderem continuar e retomar sentidos reformistas sem uma maioria parlamentar?


 


Quais serão as apostas das oposições de esquerda, que começam já a marcar a agenda política, levando a votos as promessas que fizeram em tempos de campanha? Quais serão as escolhas das oposições de direita, que comungaram pragmaticamente com a esquerda no confronto da legislatura anterior?


 


Que ministros serão suficientemente corajosos para avançar com o programa do governo, resistindo às inevitáveis pressões corporativas? Que ministros serão suficientemente hábeis para negociar aquilo que parece inegociável?


 


Será que voltaremos a ter política de saúde para além da gestão da gripe, política de educação, para além da avaliação dos docentes, política de justiça para além do problema da aplicação informática?


 


O governo tem vários trabalhos pela frente, tal como o Parlamento. O Presidente da República, que deveria estar fortalecido e ser um garante da estabilidade política transformou-se num problema para o governo, para a oposição, e para os partidos políticos. Quem serão os próximos candidatos à Presidência?


 


Teremos mesmo muito em que pensar.


 

A regra do jogo

 


 


 


 


 "Ce qui est terrible dans cette terre, c'est que tout le monde à ses raisons".


 

Take the Lead

 



Take the Lead (2006)


 

15 outubro 2009

Da espera

 


Sócrates está pronto a formar governo. Vai começar a dança das fontes e dos nomes ministeriáveis.


 


A esquerda terá que se unir com a direita para derrubar este governo. Espera-se a cobrança das promessas eleitorais aos partidos da oposição.


 


Começaram as presidenciais.


 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...