12 julho 2009

Lisboa de Sophia

 



 


Fim da tarde, início da luz brilhante de verão sobre Lisboa. Por vezes cumprem esse ritual de trocarem palavras e silêncios, partilharem interrogações e espantos, olharem essa cidade de colinas e sentirem que o vento lhe lava as almas.


 


A Lisboa de Sophia entrega-se, uma Lisboa mestiça, com aguarelas dos novos habitantes, essa amálgama de gentes e culturas.


 


A Lisboa dos cheiros sedu-las e guia-lhes os passos até a um canto de sabores picantes.


 


A Lisboa dos amigos espera por mais um ritual, por estreitar ainda mais alguns laços indefiníveis.


 


(foto daqui)

 

11 julho 2009

Sozinho

 



Caetano Veloso


 


Às vezes, no silêncio da noite

Eu fico imaginando nós dois

Eu fico ali sonhando acordado, juntando

O antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?

Por que você não cola em mim?

Tô me sentindo muito sozinho!


 


Não sou nem quero ser o seu dono

É que um carinho às vezes cai bem

Eu tenho meus segredos e planos secretos

Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?

E se eu me interessar por alguém?

E se ela, de repente, me ganha?


 


Quando a gente gosta

É claro que a gente cuida

Fala que me ama

Só que é da boca pra fora

Ou você me engana

Ou não está madura

Onde está você agora?


 


Quando a gente gosta

É claro que a gente cuida

Fala que me ama

Só que é da boca pra fora

Ou você me engana

Ou não está madura

Onde está você agora?

 

Escuto

 



poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


pintura de Teresa Dias Coelho


 


Escuto mas não sei


Se o que oiço é silêncio


Ou deus


 


Escuto sem saber se estou ouvindo


O ressoar das planícies do vazio


Ou a consciência atenta


Que nos confins do universo


Me decifra e fita


 


Apenas sei que caminho como quem


É olhado amado e conhecido


E por isso em cada gesto ponho


Solenidade e risco


 

Assumir responsabilidades

 


Vítor Constâncio aprofundou a fragilidade com que se mantém no cargo de Governador do Banco de Portugal. A conferência de imprensa em que questiona a oportunidade da comissão parlamentar sobre a nacionalização do BPN, acusando-a mesmo de ter prejudicado investigações entretanto iniciadas, demonstrou que Vítor Constâncio não soube assumir a sua responsabilidade política pelos casos do BCP, BPP e BPN.


 


É penoso ver Vítor Constâncio colocar-se nesta situação. Devia ter-se demitido logo que começaram a surgir suspeitas de falaha de supervisão.


 

Acordar

 


Manuel Villaverde Cabral, que se considera um homem de esquerda, justifica a ingovernabilidade do país pela saída do PREC. Nas suas palavras, não há solução governativa à esquerda porque os partidos à esquerda do PS foram mantidos à margem do sistema e deveriam ser chamados ao sistema.


 


Manuel Alegre, fundador do PS, considera que tem de haver uma solução governativa que englobe os partidos à esquerda do PS, que se deve governar à esquerda, nomeadamente com os sindicatos.


 


O que Manuel Villaverde Cabral não comenta é a retórica ancestral, conservadora e antidemocrática dos partidos à esquerda do PS que, ao contrário dos seus congéneres europeus, não se remodelaram nem se refrescaram após os idos da queda do muro de Berlim.


 


O que Manuel Alegre não comenta é a instrumentalização partidária das duas centrais sindicais, em que a CGTP, braço sindical do PCP, tenta conseguir na rua aquilo que os votos nunca lhe deram, e em que a UGT funciona como um yes man dos governos em termos de política laboral. Também não especifica o que seriam as políticas de esquerda com uma coligação PS, PCP e BE.


 


Manuel Villaverde Cabral pensa que o governo precisa de um governo inspirado pelo Presidente. Gostaria de saber como se responsabilizaria esse governo. Fazia-se um referendo à actuação presidencial?


 


Adenda: Tal como Carlos Santos, não me fica nenhuma dúvida da escolha de Manuel Alegre nas eleições legislativas. Manuel Alegre é socialista e escolheu ficar no PS.

 

10 julho 2009

Opções políticas

 


Manuela Ferreira Leite rasga e não rasga políticas, rasga e não rasga as várias promessas de um programa de governo que há-de vir. Por um lado defende uma política de verdade, por outro essa política vai-se revelando, de uma forma por vezes tonta, oca, outras de uma forma mais ou menos camuflada. Mas ela existe. A pouco e pouco e nas entrelinhas, lá vai aparecendo o que divide políticas de direita e de esquerda.


 


O documento produzido pelo IFSC, disponível no site, discorre sobre as várias dificuldades e insuficiências do SNS, justificando-as pela culpa deste governo, faz um diagnóstico das dificuldades que enfrentaremos com o envelhecimento populacional e a redução de natalidade, já feito e refeito por todos os que se debruçam sobre este assunto, e as proposta, no fundo, resumem-se a:




(…) Mas, ainda assim, o tema do co-pagamento dos cuidados de saúde continua a ser tabu e a ser tratado com enorme preconceito, como é evidente pela recente introdução de “taxas moderadoras” para cirurgia e internamento como se fosse necessário dissuadir alguém a não abusar do recurso a esses actos médicos. Trata-se, objectivamente, da introdução de um sistema de co-pagamento, variável, em função dos rendimentos. (…)


(…) Na prática o que está em causa quando se fala em modelo de financiamento da saúde não é a introdução de fontes de receita verdadeiramente alternativas mas sim definir: o grau de cobertura que se pretende ver garantido; a existência ou não de seguro voluntário complementar; um verdadeiro seguro social obrigatório ou a recolha através de impostos de doença; a existência ou não de taxas moderadoras e a sua diferenciação em função do rendimento; a promoção ou abolição de benefícios fiscais, etc. (…)


(…) O Estado deve estabelecer um modelo de financiamento:


- Transparente, que permita aos contribuintes avaliar a gestão política dos activos públicos;


- Proporcional e flexível de modo a nunca comprometer ou pôr em risco o acesso dos mais carenciados aos necessários cuidados de saúde;

- Equitativo nas oportunidades ajustando, se necessário, as co-comparticipações dos utentes em função do seu rendimento. Deve proceder-se a um reordenamento de prioridades na área da saúde hierarquizando os cuidados cobertos pela política de redistribuição, definido taxas de cobertura e eventual graduação de co-comparticipações em função do rendimento;

- O financiamento orientado para resultados e em linha com a capacidade dos prestadores para gerir custos e promover qualidade e ganhos de saúde.


 


Defende-se, mais uma vez, o Estado mínimo e regulador, falando-se da complementaridade dos vários sectores, e em rentabilização do sector público, reduzindo os desperdícios, mas nunca como.


 


Esta é uma cisão entre duas visões do problema. A redução dos desperdícios deve iniciar-se pela reorganização e reestruturação dos cuidados de saúde primários e de urgências, que se iniciou com o Ministro Correia de Campos e que o PSD, oportunística e demagogicamente atacou, com uma verdadeira rede de referenciação hospitalar, para concentrar o que deve ser concentrado e descentralizar o que pode ser descentralizado, tal como se tentou fazer com a reorganização dos cuidados de saúde materna e que o PSD, demagócica e oportunisticamente atacou, com a rentabilização dos serviços hospitalares e de centros de saúde, aumentando as consultas e as cirurgias, regulando o cumprimento dos horários de trabalho, separando o privado do público, como tentou fazer Correia de Campos ao proibir a acumulação de funções de direcção de serviços públicos e privados, que o PSD oportunística e demagogicamente atacou, insistindo na valorização e implementação dos genéricos, etc.


 


Estes devem ser os temas de discussão na campanha eleitoral, para que todos saibamos exactamente quais as alternativas ao governo do PS.

 

09 julho 2009

Mar de Agosto

 



(pintura de Gerhard Richter: silsersee) 


 


Às vezes penso no mar de Agosto

manto imenso de azul profundo

no peso e embalo do marulhar

do intenso e inaugural início

de um tempo suspenso.


 


Às vezes sinto o mar de Agosto

no lento sussurro dos teus olhos.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...