06 maio 2009

A esquerda democrática

 


As próximas eleições legislativas são de extrema importância devido às condições de grave crise global em que vivemos. Assim a estabilidade política é essencial para as previsíveis e difíceis negociações, revoltas e terramotos sociais, com as consequentes tentativas de instrumentalização, radicalização política e perigo de derivas totalitárias.


 


A maioria absoluta de um partido, nomeadamente do PS, não me parece possível nesta altura. Por isso se fala cada vez mais em alianças, coligações e blocos centrais. Já discorri sobre a minha discordância de um possível bloco central, pois considero que as soluções governativas devem ser avaliadas por si e os eleitores devem julgar os seus responsáveis, sem que a paternidade da governação se dilua.


 


Analisando as alianças à esquerda, e no plano dos princípios de valores e das ideologias democráticas, de respeito pela liberdade de expressão e pelo multipartidarismo, não é possível ao PS fazer alianças com os partidos à sua esquerda.


 


Os partidos que se agrupam no BE e o PCP defendem regimes totalitários, estando arredados de tudo o que fundamentou e fundou o 25 de Abril, pois ainda hoje não esclareceram a sua discordância da deriva ditatorial de 1975. Na verdade nunca ouvi dizer a qualquer membro do PCP, passados 35 anos da revolução 20 anos da queda do muro de Berlim, que o projecto comunista era um projecto de poder absoluto e ditatorial, onde existia polícia política, censura e partido único, tal como no regime de Salazar e Caetano. Nunca ouvi qualquer defensor das amplas liberdades democráticas conquistadas no 25 de Abril fazerem mea culpa pela tentativa de tomada do poder por um partido minoritário por métodos pouco transparentes, com o objectivo de implementar a ditadura do proletariado.


 


A existência de inúmeros combatentes do antigo regime pertencentes ao PCP, que sofreram tortura e perseguição política, não nos deve enevoar os olhos e fazer-nos esquecer que o que defendiam não era exactamente um regime democrático mas um regime simétrico ao que existia.


 


Tal como o Partido Nazi venceu as eleições democráticas na Alemanha em 1932, tendo Hitler aproveitado para instaurar o regime nazi, também o Partido Comunista da (antiga) Checoslováquia ganhou eleições democráticas em 1946, tendo-se perpetuado numa ditadura aproveitando o acesso ao poder.


 


Já passou muito tempo desde esses acontecimentos. Por isso seria de esperar que os partidos que se reclamam descendentes dessa ideologia se demarcassem das ideologias totalitárias. Mas a verdade é que o não fizeram.


 


Ou seja, tal como Mário Soares sempre assumiu, o único partido da esquerda democrática existente em Portugal é o PS. Para nos lembrar disso basta ver a forma como indivíduos afectos ao PCP reagem a críticas e opiniões diversas das suas. O que se passou com a batalha entre a FENPROF e o Ministério da Educação, com a intimidação de quem ousasse concordar com a política educativa, ao contrário das intimidações que os próprios propagandeavam, numa estratégia de inundação mediática, tal como a tentativa de lavagem cerebral e de apagamento da história, ao compararem Sócrates a Salazar e ao dizerem que a democracia está em perigo, demonstra que os métodos e as ideologias antidemocráticas do PCP e do BE são semelhantes e não se modificaram.


 


Na base dos princípios ideológicos só resta ao PS concorrer sozinho às eleições. Quem se revê na democracia e na liberdade, quem acredita nos valores de esquerda numa sociedade aberta e democrática, não tem outra alternativa senão votar PS. Tal como Alexandre O’Neill dizia Ele não merece, mas vota no PS


 


Nota: este texto foi publicado no blogue OLHAR DIREITO, acorrespondendo ao amável convite de Francisco Castelo Branco, que agradeço.




 

04 maio 2009

Canção de embalar

 



(Zeca Afonso)


 


 


Dorme meu menino a estrela d’alva

Já a procurei e não a vi

Se ela não vier de madrugada

Outra que eu souber será p’ra ti


 


ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)


 


Outra que eu souber na noite escura

Sobre o teu sorriso de encantar

Ouvirás cantando nas alturas

Trovas e cantigas de embalar


 


ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)


 


Trovas e cantigas muito belas

Afina a garganta meu cantor

Quando a luz se apaga nas janelas

Perde a estrela d’alva o seu fulgor


 


ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)


 


Perde a estrela d’alva pequenina

Se outra não vier para a render

Dorme qu’inda à noite é uma menina

Deixa-a vir também adormecer




ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)

 

A sal

 


 



(poema de Luis Maffei: Telefunken)


 


É qualquer coisa como um gosto


a sal e água sem chuva, um


lugar preciso em que se move


dentro


o papel de vida que se joga quando


as coisas teimam em fazer


algum sentido.


É qualquer coisa como o embaraço de


solstícios, inverno avesso a muitas cores e


próprio a ares que gostam de dizer


alguma coisa muito


muda


muito


ao contrário de dizer sem


dizer nada.


É qualquer coisa assim como algum


branco, como um gesto que se vai da


boca à escrita sem que nada seja


necessariamente


dito, nada necessariamente em pauta. É como


qualquer coisa de difícil faina, como se eu


pudesse


aqui


neste lugar sem chuva ou sal ou invernos,


neste lugar de fora e alguns muitos


sítios, arrancar da folha já sem fonte e sem origem


uma alfazema um relicário


ou


qualquer coisa como um gosto a ti.


 

Sondagens

 


Para quem tem sido zurzido a sério nos últimos tempos, estas sondagens mostram uma surpreendente força do PS. Será que é só pela falta de credibilidade da oposição?


 

Afinal também havia outros

 


Parece que, afinal, também militantes do BE estiveram envolvidos na democrática e saudável convivência dos trabalhadores da CGTP e do PCP na manifestação do primeiro de Maio.


 


Infelizmente não me surpreende. Mas o facto de ter havido mais pessoas a serem antidemocráticas não muda em nada a intolerância dos manifestantes da CGTP e do PCP.


 

03 maio 2009

Oração da Mãe Menininha

 



 


Ai! Minha mãe

Minha mãe Menininha

Ai! Minha mãe

Menininha do Gantois


A estrela mais linda, hein

Tá no gantois

E o sol mais brilhante, hein

Tá no gantois

A beleza do mundo, hein

Tá no gantois

E a mão da doçura, hein

Tá no gantois

O consolo da gente, ai

Tá no gantois

E a Oxum mais bonita hein

Tá no gantois


Olorum quem mandou essa filha de Oxum

Tomar conta da gente e de tudo cuidar

Olorum quem mandou eô ora iê iê ô


 


(Dorival Caymmi, Gal Costa e Dori Caymmi)


 

Até amanhã

 



(pintura de Alpha Shanahan: An Afternoon with Mom)


 


Como todos os domingos

o dia começou contigo, mãe.

Partilhando o café e o jornal

à medida que passamos as folhas


preparamos a semana

e comparamos a vida.

Apoio as mãos nos teus ombros


e assim te apoias


no compasso de espera


com que te aguardo.


Até amanhã.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...