Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Há hoje uma tristeza alicerçada na incerteza, na revolta pelo que não se conseguiu com a revolução de 25 de Abril de 1974.
Mas hoje podemos revoltar-nos ou sermos felizes, falarmos ou permanecer em silêncio, cantar, gritar, escrever, perguntar, podemos resistir, podemos até tentar ser felizes, sem que ninguém nos cale, sem que ninguém sequer se lembre de nos calar.
Somos poucos ou muitos, satisfeitos ou azedos, temos o direito de o ser.
A liberdade está no ar que respiramos. Não existia para os nossos pais. Esquecer que a música, os olhares, até as palavras de amor eram vigiadas, é um passo para o apagamento da memória do que é uma ditadura.
Vivemos em democracia e liberdade. Vale a pena lembrar que houve um punhado de militares a quem devemos a comemoração do dia de hoje. Independentemente das razões posteriores de desagrado, essa é uma dívida que não se apaga.
Este é um desafio diferente.
Que aconteceu nas nossas vidas a 24 de Abril de 1974? Quem se apercebeu da revolução? Quem foi comprar cigarros e viu soldados? Que precisava de companhia e ouviu a "Grândola, vila morena"? Quem ouviu zunzuns do que se ia passar? Quem dormiu o sono dos justos e acordou sem qualquer suspeita? Quem quis ir toma café e deu com ele fechado?
A minha noite foi tranquila e inocente, como todas as outras noites anteriores. Apenas o dia seguinte me despertou para algo de diferente e muito bom.
Mas, parafraseando Baptista Bastos: onde estavas no 24 de Abril?
Lanço o desafio a quem quiser, obviamente, indigitando desde já:
Nota: Esta noite a Liberdade é o título de um livro de Dominique Lapierre e Larry Collins
Hoje temos o Portugal de Rodrigo Leão, melancólico e romântico, em tons esbatidos, aqui e ali com ruídos e gargalhadas, cruzando estradas, em áreas de lentas e mortíferas pás eólicas.
Há 35 anos éramos o Portugal de Carlos Paredes e das suas baladas a preto e branco, caras fechadas e malas às costas, espingardas em mãos rudes por essas terras longínquas de um império a desfazer-se.
Como passámos essa noite, essa longa noite de analfabetismo de joelhos e mãos postas? Como acordámos para a luz, o ruído e a festa? Como transformámos as casas, as vidas, os campos? Como marchámos em direcção aos novos descobrimentos europeus? Como mantivemos a melancolia?
Amanhã já passaram 35 anos, mas continua um frémito de emoção quando se ouve Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. Ultrapassamos os verdes anos para o novo retrato musical. Mas ainda a esbater o som e as cores, continuamos de ombros curvados.
Mas caminhamos.
José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes vão processar José Sócrates. Não entendo o alarido. É um direito que lhes assiste, tal como ao Primeiro-ministro.
A entrevista de ontem foi mais uma prova da fraca capacidade jornalística na entrevista política e da vocação de rolo compressor de Sócrates.
Judite de Sousa não conseguiu disfarçar o azedume contra Sócrates assim como Sócrates tratou Judite de Sousa com um desprezo absoluto. Falou-se da cooperação institucional entre o Presidente da República e o governo durante metade do tempo, em que os entrevistadores, principalmente Judite de Sousa, tentaram demonstrar a Sócrates que os discursos do Presidente visavam as opções governativas. Sócrates aproveitou para enviar um recado ao Presidente e à oposição quando disse que não acreditava que o Presidente se deixava instrumentalizar pela oposição.
A outra metade foi passada a falar do Freeport, tendo mais uma vez Judite de Sousa instado José Sócrates a defender-se da acusação de corrupção, quando Sócrates não é acusado de nada.
José Alberto Carvalho esteve muito apagado. Suspeito que detesta este tipo de entrevistas.
José Sócrates abalroou os jornalistas e só disse o que lhe apeteceu. Ao seu estilo esteve bem, embora a escassa fase em que se falou da crise e em que procurou passar a imagem de que quando reduziu o IVA já a estava a antecipar, tenha estado a reescrever a história, como disse Nicolau Santos.
De Vital Moreira e do debate europeu é que se tem ouvido um silêncio ensurdecedor. Tal como defendi neste post, e após a primeira prestação televisiva do cabeça e lista do PS para as eleições europeias, o PS tem uma séria hipótese de se dar mal com esta escolha. Não só Vital Moreira está a ser empurrado para uma discussão de política interna e não de política europeia, mérito da estratégia do PSD, como está a criar anticorpos e antipatias.
Se as eleições europeias se transformarem nas primárias das legislativas, o PS pode estar em muito maus lençóis.
(pintura de Yves Klein: Untitled Fire Painting)
Retiro camadas às letras que escrevo.
Descarnadas línguas de fogo e neve
desaparecem marcadas
como as memórias que queremos apagar.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...