18 abril 2009

Discurso presidencial

 


O discurso de Cavaco Silva é, de facto, um libelo ao capitalismo, à desresponsabilização das empresas, a este e aos outros governos, incluindo os seus, ao arrivismo, demagogia e oportunismos de todas as épocas, nomeadamente daqueles que querem regressar ao intervencionismo estatal sem regras, como o BE, é um bom discurso em que todos nos devemos olhar ao espelho, incluindo o Presidente da República. 


 


(…) na génese da crise financeira e económica que o mundo enfrenta, muito pesaram a violação de normas éticas e a adopção de comportamentos de risco cujo impacto sobre o sistema financeiro e o bem-estar das populações não foi devidamente ponderado. Para além da imprudência e, mesmo, da incompetência reveladas na avaliação e tomada de riscos, muitos foram os gestores financeiros que, simplesmente, perderam o sentido da decência (…) A assunção de riscos desproporcionados e a falta de transparência do sistema financeiro acabaram por ser estimuladas por uma regulação insuficiente, por uma supervisão deficiente e por uma visão imediatista do sucesso económico e empresarial e do desempenho individual. (…)


 


(…) Creio que faltou vontade política e económica para questionar o caminho que estava a ser seguido e que há muito suscitava reservas. É legítimo, por isso, dizer que a ausência de valores nos mercados, na política e nas instituições financeiras terá sido uma das razões de fundo explicativas desta crise. (…)


 


(…) Muitos dos agentes que beneficiaram do status quo – e que tiveram um papel activo nesta crise financeira – continuam a ser capazes de condicionar as políticas públicas, quer pela sua dimensão económica quer pela sua proximidade ao poder político. Acresce que, num cenário de dificuldades, e sob a pressão da necessidade urgente de agir, as decisões nem sempre são ponderadas devidamente, acabando por abrir espaço para o desperdício de recursos públicos ou para a concentração desses recursos nas mãos de uns poucos, precisamente aqueles que detêm já maior influência junto dos decisores. (…)


 


(…) Seria um erro, no entanto, pensar que a obrigação de acautelar os princípios de justiça, de equidade e de coesão recai apenas sobre os decisores políticos. É nas empresas e no diálogo entre elas e dentro delas que começa esta responsabilidade. Nos últimos anos, assistiu-se, em muitos países desenvolvidos, a uma crescente fragilização do tecido social, resultado de uma enorme complacência face às desigualdades de rendimentos e de direitos e aos ganhos desproporcionados auferidos por altos dirigentes de empresas. (…) Seria política e socialmente perigoso e eticamente condenável que a crise fosse aproveitada para acentuar esta fragilidade, repercutindo os custos da actual situação económica sobre os mais desprotegidos. (…)




(…) É urgente que os decisores reajustem as prioridades e corrijam as injustiças e os erros que a crise desmascarou. Devem fazê-lo com sentido de humildade. É urgente colocar no topo da agenda, ao lado da liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e a coesão sociais, e compreender a importância que a verdade, a transparência e os princípios éticos têm no bom funcionamento de uma economia e no desenvolvimento de uma sociedade. (…)


 


(…) Este é um período em que se pede ao Estado um maior activismo. No entanto, esta não é altura para intervencionismos populistas ou voluntarismos sem sentido. Os recursos do País são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É preciso garantir o máximo de transparência na utilização dos dinheiros públicos. Desde logo, por uma questão de respeito para com os contribuintes. (…)




(…) Este é também um tempo em que às empresas portuguesas se exige rigor económico, visão estratégica e, igualmente, clarividência social. É importante que a responsabilidade das empresas não se esgote na sua área específica de negócio e inclua a promoção da justiça, da equidade e da valorização humana. (…)

Shame on us all

Ia escrever um post sobre o preconceito e a emoção. Mas a Cristina já o escreveu. Faço minhas as suas palavras.


 


E, já agora, assistam.


 



 

17 abril 2009

Xutos e pontapés

 


O total disparate que se tem feito à volta de uma canção dos Xutos e Pontapés, pelo facto de ser uma crítica ao Primeiro-ministro, é completamente ridícula.


 


E qual é o problema? Porquê tamanha publicidade que deu para notícia de telejornal? Os Xutos e Pontapés não podem criticar Sócrates? Isso não é normal em democracia? Porque é que os media tratam este assunto como anormal? É porque o querem transformar num facto político? Até foram entrevistar deputados pedindo-lhes uma interpretação (difícil!) para a letra da canção. E lá estavam todos, inclusivamente Manuel Alegre.


 


Mas não há mais nada para noticiar?


 


Entretanto o Sol faz-nos o obséquio de interpretar as palavras de Cavaco Silva que, obviamente, são uma duríssima crítica ao governo.


 


Haja paciência.


 

Papéis trocados

 


Um referendo à classe médica no caso do Governo aceitar a ideia do doutor João Cordeiro de comprar, através de um concurso público, para determinadas moléculas um medicamento genérico de qualidade, se concordam em disponibilizá-lo directamente e se aceitam que nos centros de saúde e hospitais sejam entregues directamente aos doentes, de maneira que possam ficar gratuitos para todos os pensionistas???


 


Mas a que propósito é que os médicos vão dispensar medicamentos, genéricos ou outros, directamente aos doentes? Então os médicos não aceitam, e muito bem, que lhes troquem o receituário sem a sua autorização explícita e vão passar a entregar medicamentos aos doentes?


 


Os médicos devem prescrever por DCI, independentemente das marcas de medicamentos, genéricos ou outros, sempre que possam confiar na garantia de qualidade dos mesmos. Isso é que é importante. Se há um Instituto Público que garante essa qualidade, não me parece que haja razões para duvidar dele.


 


Se há médicos que utilizem a indústria farmacêutica para seu próprio proveito, que sejam investigados e, se for caso disso, que se proceda disciplinarmente contra eles.


 


Mas misturarem-se concursos de medicamentos genéricos, atribuições de médicos e de farmacêuticos dá a sensação de que o que se discute não é a saúde dos doentes nem o seu direito a serem bem tratados pelo mais baixo preço possível, mas as agendas e os negócios de várias entidades e instituições.


 

14 abril 2009

Fora de prazo

 



 


A nomeação de Paulo Rangel está ligeiramente fora de prazo. Dei conta de que o cabeça de lista do PSD para as eleições europeias tem uma voz e uma dicção muito parecidas com a voz e com a dicção de Natália Correia (atentem bem na mordaça).


 


O estilo está um pouco datado e a Natália Correia era bastante mais dramática.


 

Faz-me um post! Fazes? Eu também te faço um...


(pintura de Chidi Okoye: blue dance)


 


Tinha planeado escrever um post sobre os candidatos a múltiplos lugares eleitorais, como Ana Gomes e Elisa Ferreira, que já são perdedoras pelo simples facto de apostarem em duas eleições, desvalorizando obviamente as autárquicas.


 


Pensei que ainda não me tinha publicamente incomodado com o apoio de Sócrates à recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia, lugar que não prestigiou, que não tornou importante, que não autonomizou, num mundo que mudou radicalmente nos últimos tempos, que tem como líder de um império que era do mal um homem que está a tentar provar que vem por bem, ainda não tinha mostrado a minha desilusão pela tal Europa velha e mumificada, que aprova tratados de Lisboa às escondidas dos cidadãos para fingir que olha em frente.


 


Mas antes de preparar os dedos para escrever, dei uma voltinha pelos blogues que estão do meu lado esquerdo, uma a um como sempre e corei. Primeiro de incredulidade, depois de atrapalhação.


 


Sempre defendi a teoria de que uma das formas de envelhecer era perder a capacidade de conhecer pessoas, de fazer amigos. Continuo a defendê-la. Hoje em dia tornamo-nos quase íntimos de nomes reais ou inventados, a quem vestimos, emprestamos uma imagem construída a partir das palavras, das músicas, da comoção e do humor de quem lemos.


 


Muitas vezes por acaso, nem sabemos bem explicar o porquê de voltarmos a procurar um pequeno texto, uma imagem, um poema. Neste caso foram poemas. E uma forma circular e discreta de realçar assuntos e pensamentos.


 


Mas sim, a desordem é um alfabeto, um alinhamento de respiração e dever, um hábito de construção e de dor. E a verdade é aquilo que vemos nos outros, no espelho que são da nossa alma.


 


Corei pois, levemente envaidecida e tocada por alguém que decifra e ordena esse alfabeto.

 

11 abril 2009

Arejamentos

 


Já há algum tempo que tenho um blogue, e ainda há mais tempo que leio blogues.


 


São uma fonte inesgotável de informação, divertimento e irritação. Há blogues para todos os gostos, temáticos, políticos, artísticos, poéticos, fotográficos, colectivos e solitários.


 


Os blogues têm as qualidades e os defeitos de quem os escreve. Há alguns que a única coisa que fazem é expor a maledicência, o azedume, a petulância e a arrogância de quem se pensa maior que o mundo e deve ser muito infeliz.


 


Por isso fiz uma limpezazita à minha lista de links. Precisava urgentemente de arejamento.

 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...