17 janeiro 2009

Unguentos

Mal, ou - ao menos - mais ou menos, este lugar continua-se


 


Ela caiu há dez dias, em casa, escorregou-se nela e bateu com a cabeça no chão e desmaiou, susto grande. Acordou no hospital e, da queda propriamente dita, nada resultou de nefasto: cabeça limpa.


Tinha era o que tinha, conhecia-a há vinte meses e, já por esse tempo, tinha o que tinha, chegou-me à minha vida numa rampa inclinada da vida dela, ladeira descida com travões a fundo mas sem ABS.


Equiparam-na de pijama bonito, na enfermaria. Ela mais amarela e mais inchada, por dentro dela e do pijama, do que há quinze dias.


"Vais-te...".


Foi-se.


Hoje morreu. Ia dizer "morreu-me", mas já não. Aprendo tarde, mas ainda aprendo.


Ela morreu, sim.


E morreu-lhes a eles, ao homem e aos três filhos, que lhe abraçaram o corpo e lhe beijaram a face como se as lágrimas do fim fossem loção que oleasse despedidas.


A mim, não. A mim não me morreu.


Limita-te, besugo, para já, a acompanhar as rampas inclinadas dos outros. Aprende: tu só acompanhas.


Até sentires que começas a descer a tua - olha, pode ser de repente, besugo, pode ser como foi com o Rui, o teu colega que foi hoje a enterrar, podes até nem dar muita fé da rampa, da ladeira, besugo lorpa.


E, quando isso te chegar a ti, que tenhas alguém que te chore em cima uma loção qualquer de adeus.


Um unguento quase líquido que comova, ao menos, quem estiver ali de bata branca - fardamento nobre da pobreza -, se calhar ser o caso, a acompanhar, calado, quem estiver, se vieres a ter essa sorte por destino, a ungir-te.


(besugo)


 

O caso BPN

Ontem ouvi um pouco do Expresso da Meia-Noite a propósito da comissão parlamentar de inquérito ao BPN.


 


Parece-me muito óbvio ter havido falha de supervisão do Banco de Portugal, como aliás o caso do BCP já evidenciava, falha que deveria ter sido assumida por Vítor Constâncio.


 


Mas depois de ouvir Miguel Cadilhe e alguns deputados, até parece que foi essa a razão do estado em que se encontra o BPN, foi essa a razão dos ilícitos que lá foram feitos, que é o Governador do Banco de Portugal o culpado de tudo.


 


Convém não esquecer que alguém (uma ou mais pessoas) geriu mal o BPN, levando-o à situação desesperada que determinou a decisão de nacionalizar. Os criminosos não são Vítor Constâncio nem Teixeira dos Santos, como a propaganda ligada ao PSD e a tentativa de branqueamento de figuras como Dias Loureiro (associadas ao período do Cavaquismo) querem fazer crer.


 

Revisão orçamental

É claro que o orçamento teria que ser revisto, rectificado, complementado, o que se lhe quiser chamar. Não consigo compreender a falha política da equipa governativa ao permitir que isto acontecesse. Era mais que evidente que o orçamento era irrealista, como é mais que evidente que estas previsões se poderão modificar, como muito bem assumiu, por fim, Teixeira dos Santos.


 


O que não é aceitável, da parte do PSD e de Manuela Ferreira Leite é reduzir os anos de governação socialista a esta crise. Se há coisa de que se não pode acusar este governo é de não ter tentado mudar as coisas, em vários sectores de urgência. Muitas vezes mal, mas outras tantas bem, pelo menos fez.


 


Na verdade, todo o mundo entrou em crise e Sócrates só esteve à frente do governo de Portugal. E pelo que tenho lido, as medidas que o governo anunciou e anuncia (não faz mesmo outra coisa, é uma tal hemorragia de medidas que até assusta) são idênticas às que os outros governos por essa Europa fora anunciam.


 


Quanto ao TGV, apesar de achar que de 2003 a 2009 passaram muitos anos e as premissas se modificaram, não consigo perceber porque é que a Europa, com a crise, continua a apostar nele. Aliás, o principal problema do país é que anda a falar de coisas durante décadas mas depois não as concretiza, gasta rios de dinheiro em estudos que dizem uma coisa e o seu contrário e não decide. Quando decide muda o governo e o que era bom passa a ser mau, congelando aquilo que era essencial e nacional no dia anterior. Manuela Ferreira Leite foi protagonista da decisão. Este tipo de investimentos não são pensados apenas para 6 anos. A sua prestação é lamentável.


 


Esta é que é a verdadeira crise. Assim como a crise de gente que rodeia quem está no poder e que faz com que este tipo de coisas aconteça. Não consigo deixar de falar mais uma vez no cantar das Janeiras ao Primeiro-Ministro. Vergonhoso.


 

Caixa de Pandora

Acho muitíssimo possível e ainda mais provável que a Cristina tenha razão. Que o resultado desta batalha jurídica e destas decisões, nem sempre compreensíveis possa revelar-se devastador para a criança em causa.


 


Mas, tal como já referi neste post, e lendo o que foi saindo na imprensa, nomeadamente através do Correio da Manhã, a decisão de entrega do poder paternal ao pai biológico tem já vários anos e apenas não foi cumprida porque o casal a quem a criança foi entregue não acatou a decisão judicial, tendo-se recusado sempre a cumpri-la.


 


Podemos todos discutir a pertinência, a moral ou a falta dela do pai biológico, a moral ou a falta dela da mãe biológica, a moral ou a falta dela dos pais candidatos à adopção, discussão essa que está bastante inquinada pela avalanche de notícias enviesadas e pela conquista da opinião pública tentada pelos dois lados.


 


Mas se o facto de alguém ficar com uma criança apenas porque vive com ela há vários anos , com o natural apartecimento de laços afectivos com esse alguém, que deverão ser respeitados e observados com enorme cuidado, podemos estar a legitimar que a senhora que roubou um bebé da maternidade, criando-a com todo o amor e carinho, inclusivamente com melhor poder económico que os pais, seja autorizada legalmente a viver com a criança, para que não haja quebra de laços afectivos e para que se mantenha a sua estabilidade psicológica.


 


Será que isto não abre uma caixa de Pandora?


 

14 janeiro 2009

Muros

 



(pintura de Molly Slattery: coat of arms)


 


A corda de braços enrola o medo

reduz o espaço que resta.


 


Sempre vejo uma corda de braços

riscando o resto do medo

ocupa o espaço reduzido

dentro do muro.


 


Sempre sinto o muro.


 


 

11 janeiro 2009

I've Got My Love To Keep Me Warm

 


 



 


The snow is snowing, the wind is blowing

But I can weather the storm!

What do I care how much it may storm?

I've got my love to keep me warm.

I can't remember a worse December

Just watch those icicles form!

What do I care if icicles form?

I've got my love to keep me warm.


Off with my overcoat, off with my glove

I need no overcoat, I'm burning with love!

My heart's on fire, the flame grows higher

So I will weather the storm!

What do I care how much it may storm?

I've got my love to keep me warm.


 


(Instrumental)


 


Off with my overcoat, off with my glove

I need no overcoat, I'm burning with love!

My heart's on fire, the flame grows higher

I will weather the storm!

What do I care how much it may storm?

I've got my love, I've got my love,

I've got my love to keep me warm.


 


(compositor Irving Berlin; canta Mildred Bailey)


 

Reinos disfarçados e liberdades censuradas

 



 


Há outra coisa que já há muito tempo queria dizer: não percebo porque é que no site da Presidência da República há um separador com o nome de Maria Cavaco Silva.


 


A que propósito? Qual o papel ou a relevância de se saber das actividades de Maria Cavaco Silva na Página Oficial da Presidência da República?


 


Que eu saiba a Presidência da República é um cargo unipessoal. Elegemos uma pessoa, não um casal ou uma família. É absolutamente deplorável esta importação bacoca, deslumbrada e descabida de hábitos americanos que se estão, insidiosamente, a alastrar à Europa.


 


Outro caso disparatado, na ditadura daquilo a que se convencionou chamar  politicamente correcto, é a reprovação social e os protestos das feministas (?) pelo facto da Ministra da Justiça francesa Rachida Dati ter regressado ao trabalho poucos dias após o nascimento da filha. As mulheres e os homens têm direito a gozar as licenças de maternidade e paternidade, não são obrigados a fazê-lo.


 


Mas que liberdade, hein?


 



 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...