20 setembro 2008

O Estado como tal

Tal como hoje reconhecemos todos, alguns a contragosto, o fracasso do sistema comunista, deveremos reconhecer com a mesma honestidade o fracasso do capitalismo puro e duro, das leis de mercado sem controlo e da lei do lucro pelo lucro.


 


As sociedades precisam de um cimento para que sobrevivam como sociedades e esse cimento é o contributo que todos se obrigam a dar, num esforço comum para que haja coesão e solidariedade sociais.


 


A falência deste modelo está à vista com as intervenções que a administração americana estão a empreender, salvando da falência seguradoras privadas, cujos lucros fabulosos e distribuição de dividendos pelos profetas do mercado não evitaram o colapso e a ameaça de desemprego para milhões de pessoas.


 


O estado tem o dever de intervir para evitar uma enorme desgraça, assim como tem o direito de intervir para impedir as enormes assimetrias, a especulação e a mitologia do poder do dinheiro pelo dinheiro.

Flores novas

Trarei flores novas por entre os dentes, aos pés dos leitos por onde já passei. Lençóis de dor e fé, de início ou de fim, a mesma carne com ou sem estremecimentos.


 


Tantos olhos que por mim viajam, procurando respostas e esperança. A todos fujo, mesmo sorrindo e apertando mãos, mesmo que gele as certezas, que se me escapem as pedras inevitáveis.


 


Trarei flores tenras por entre os dedos, que enterrarei na terra que me não espera. Assim vou guardando o meu lugar, junto daqueles que já não estão.


 



(pintura de Jana Bouc: cemetery day)

Colheitas


[pintura de Janet Aly: Al Mumit (Bringer of Death)]


 


E nunca mais finda este Verão

de Outonos velhos

de invernosas colheitas de almas.


 


Atrás de mim caminham fantasmas

vão-se cortando as veias

da minha infância.

14 setembro 2008

Fado Português


 


canta: Amália Rodrigues


(música de Alain Oulman; letra de José Régio)


 


O Fado nasceu um dia,

quando o vento mal bulia

e o céu o mar prolongava,

na amurada dum veleiro,

no peito dum marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.


 


Ai, que lindeza tamanha,

meu chão, meu monte, meu vale,

de folhas, flores, frutas de oiro,

vê se vês terras de Espanha,

areias de Portugal,

olhar ceguinho de choro.


 


Na boca dum marinheiro

do frágil barco veleiro,

morrendo a canção magoada,

diz o pungir dos desejos

do lábio a queimar de beijos

que beija o ar, e mais nada,

que beija o ar, e mais nada.


 


Mãe, adeus. Adeus, Maria.

Guarda bem no teu sentido

que aqui te faço uma jura:

que ou te levo à sacristia,

ou foi Deus que foi servido

dar-me no mar sepultura.


 


Ora eis que embora outro dia,

quando o vento nem bulia

e o céu o mar prolongava,

à proa de outro veleiro

velava outro marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.


 


 



canta: Dulce Pontes


(música de Alain Oulman; letra de José Régio)

11 setembro 2008

Presencial ou por correspondência

Manuela Ferreira Leite, depois do seu sepulcral e prolongado silêncio, resolveu opinar a propósito da proposta de alteração da lei eleitoral, segundo a qual os emigrantes deveriam votar presencialmente e não por correspondência, o que eu acho muitíssimo lógico.


 


O único argumento que lhe ouvi justificando a limitação das liberdades e garantias dos emigrantes portugueses, é a redução dos consulados e as grandes distâncias que os eleitores terão que percorrer par exercerem o seu direito.


 


Segundo esta notícia do DN, nas eleições legislativas de 2005 (...) A abstenção nos dois círculos eleitorais da Emigração situou-se nos 76 por cento. Dados do Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE) apontam para uma abstenção na ordem dos 69,5 por cento na Europa e de 81,7 por cento no círculo Fora da Europa.(...)


 


Será que Manuela Ferreira Leite está mesmo a falar a sério?

Desastrado regresso

Paulo Pedroso conseguiu dar vários tiros nos pés e nas mãos com a entrevista que deu.


 


A teoria do bloco central defendida por ele a mais de 1 ano das eleições demonstram bem a confiança que tem na vitória do PS e o que valoriza os projectos políticos, principalmente para quem se reclama da esquerda do PS. A não ser que pense que são muito parecidos, o que não deixa de ser estranho.


 


Não se augura nada de bom.

O mínimo democrático

Sarah Palin defende tudo o que eu acho indefensável, começando na educação sexual (ou ausência dela) e acabando no fanatismo religioso, com a defesa do ensino do criacionismo.


 


Resta perceber se Sarah Palin foi escolhida para candidata a Vice-Presidente por defender estas ideias ou por ser mulher. As sondagens parecem indicar que está a haver uma transferência de votos das mulheres brancas para o candidato republicano, após a escolha desta candidata.


 


O que nos leva à conclusão de que os americanos votam em mulheres brancas, ou homens negros, não votam nos seus projectos ou convicções. Tal como as eleições angolanas são aceitáveis para os observadores europeus e para a CPLP, apesar de todas as falhas e de todos os impedimentos à propaganda eleitoral, a compra de votos, a não credenciação de algumas organizações, apenas porque é em África e não num país europeu, como alertam várias vozes.


 


Que democracia estamos nós dispostos a aceitar?

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...