06 setembro 2008

Abandono


(desenho de Walter Logeman)


 


Por muito que te diga

quanto te amo

antes que possa dizer-te

quanto te amarei

antes que possa saber

quanto ainda falta amar-te


 


desligas-te do mundo

deixas-me com palavras

estranho perfume de abandono

antes que possa dizer-te

que nunca te amarei bastante

deixas-me perdida

na tua eternidade.

A sentença favorável a Paulo Pedroso

O caso Casa Pia, como o Apito Dourado e outros, é daqueles que nos faz temer  qualquer  um de nós, que algum dia tenha alguma coisa a ver com a justiça portuguesa e os seus agentes.


 


Paulo Pedroso foi detido preventivamente no decurso das averiguações sobre os abusos sexuais, continuados e repetidos, contra as crianças da Casa Pia.


 


Depois de muitas denúncias, de muitas teorias da conspiração e de muitos anos, é certo que houve abusos, portanto abusadores, é certo que houve vítimas, é certo que houve declarações bombásticas de antigos e recentes responsáveis governamentais e não só que tutelavam a Casa Pia e, numa indiscutível e muito suspeita coincidência, houve grande falatório sobre dirigentes políticos da área do PS.


 


Não consigo aperceber-me do que será na vida de qualquer pessoa a acusação de pedofilia.


 


Estive a ler a sentença sobre a condenação do Estado Português a pagar uma indemnização a Paulo Pedroso pela prisão preventiva a que esteve sujeito e fiquei a perceber que



  • (…) todos os indícios recolhidos eram claramente insuficientes para imputar ao arguido a prática de qualquer crime concreto e que não ocorriam os perigos de perturbação do inquérito e da ordem e tranquilidade públicas, não podemos extrair outra conclusão que não seja a de que nesse mesmo Acórdão (08/10/2003) se formulou o juízo de que a decisão determinativa da prisão preventiva imposta ao arguido, ora A., foi motivada por acto temerário enquadrável na figura do erro grosseiro. (…).*

  • (…) Significa isto que o Acórdão (08/10/2003) em causa não se bastou em proceder ao exame dos elementos em que o despacho de 15/07/2003 se estribou para decidir pelo reforço dos indícios da prática pelo arguido dos crimes que lhe eram imputados, como também analisou – como em nosso entender não poderia deixar de ser – todos os elementos disponíveis anteriores à primitiva decisão de decretamento da prisão preventiva, para da sua análise global concluir não haver indícios suficientes para imputar ao arguido a prática de qualquer crime concreto.(…).*


 


Ou seja, não só a prisão preventiva foi um erro grosseiro como não havia indícios para imputar qualquer tipo de crime concreto. Ainda bem que assim se decidiu, ainda bem para Paulo Pedroso.


 


Mas não deixa de me arrepiar a sensação de que, em Portugal, é preciso ser-se poderoso e influente para que o Estado resolva devolver um pouco da dignidade que resolveu retirar, sem que para isso tenha tido razão. Quantas e quantas pessoas não passaram e não passarão pelo mesmo calvário?


 


Por outro lado, como é possível que continue a haver a certeza de crimes sem culpados?


 


A névoa que envolve este caso continua, sem verdadeiros culpados condenados e sem verdadeira ilibação dos falsamente acusados. A suspeita e o simulacro de justiça num Estado que se diz de direito.


 


* bolds e sublinhados meus

02 setembro 2008

Sujidade política

É absolutamente inacreditável o que se tem lido sobre a candidata a Vice-Presidente Sarah Palin escolhida por John McCain. Pode concordar-se ou não com a sua ideologia conservadora, nomeadamente a sua posição contra o aborto e a sua posição em relação à venda de armas nos EUA, mas o facto de ter estado em concursos de beleza, ser bonita e ter muitos filhos não lhe retira matéria cinzenta nem a transforma numa indigente mental.


 


E se a filha dela é adolescente e está grávida o problema é da filha e não dela. O que deveria ter feito a mãe? Expulsá-la de casa, pagar-lhe um aborto, escondê-la num país obscuro ou ter-lhe proporcionado um cinto de castidade?


 


A liberdade é precisamente cada um pode escolher a vida que quer, defender o que acha justo e ser responsabilizado pelas suas acções, não pelos problemas dos familiares.


 


Faz muito bem Barack Obama desmarcar-se deste tipo de sujidade.

31 agosto 2008

Um Caso de Espíritos

Um excelente policial, bem ao jeito brasileiro, com uma escrita escorreita e descomprometida, mas elegante, com mortos, sessões de espiritismo, patroas gostosas, garotas de programa, máfias chinesa e das outras, alguns murros, cigarros, whisky e blues, muitos e bons, para todas as horas e ocasiões, paixões, Donas e sexo.


 


Bellini é o detective melancólico e amante de blues, Dora a sua patroa, que se vêem envolvidos num misterioso caso de morte de um espírita saudável, que corre a maratona e só bebe água.


 


Tony Bellotto já tem outra fã. Que venham mais livros para esta prometedora colecção – Ganga Impura (dirigida por Francisco José Viegas).


 


Oposição ausente

É extraordinário como se podem escrever artigos sobre artigos falando da manipulação da informação pelo governo, nomeadamente no que diz respeito à onda de criminalidade que toda a comunicação social glosou, durante dias seguidos, com as primeiras páginas dos jornais e as aberturas de todos os telejornais a empolarem e a zurzirem na crescente insegurança do país, quando a própria pessoa que se indigna faz parte da oposição que se tem demitido de fazer o seu papel, não de uma forma demagógica e populista, com pedidos de demissão do MAI, mas pela mais completa e inusitada falta de comparência.


 


Há governo a mais pela exasperante e inacreditável ausência de oposição.

Agosto


(Shannon Wing: August)


 


Finalmente

finalmente acaba o mês

que trucida os tempos

que queremos livres

acaba o mês da modorra

da aflição de ser feliz.

Mente sagaz e perturbada

Sonhei vagamente com uma extraordinária história policial que se iniciava num difícil e raríssimo diagnóstico, com o conhecimento faseado do doente e a descoberta de casos obscuros e mistérios de alma, sempre acompanhados e precedidos de fragmentos de tecidos com lesões desafiadoras de uma mente sagaz e perturbada.


 


Acordei sem resolver o caso criminal, mas o diagnóstico surgiu claro e límpido como a madrugada que se escapava por entre a persiana. Pena é que não existisse.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...