O caso Casa Pia, como o Apito Dourado e outros, é daqueles que nos faz temer qualquer um de nós, que algum dia tenha alguma coisa a ver com a justiça portuguesa e os seus agentes.
Paulo Pedroso foi detido preventivamente no decurso das averiguações sobre os abusos sexuais, continuados e repetidos, contra as crianças da Casa Pia.
Depois de muitas denúncias, de muitas teorias da conspiração e de muitos anos, é certo que houve abusos, portanto abusadores, é certo que houve vítimas, é certo que houve declarações bombásticas de antigos e recentes responsáveis governamentais e não só que tutelavam a Casa Pia e, numa indiscutível e muito suspeita coincidência, houve grande falatório sobre dirigentes políticos da área do PS.
Não consigo aperceber-me do que será na vida de qualquer pessoa a acusação de pedofilia.
Estive a ler a sentença sobre a condenação do Estado Português a pagar uma indemnização a Paulo Pedroso pela prisão preventiva a que esteve sujeito e fiquei a perceber que
- (…) todos os indícios recolhidos eram claramente insuficientes para imputar ao arguido a prática de qualquer crime concreto e que não ocorriam os perigos de perturbação do inquérito e da ordem e tranquilidade públicas, não podemos extrair outra conclusão que não seja a de que nesse mesmo Acórdão (08/10/2003) se formulou o juízo de que a decisão determinativa da prisão preventiva imposta ao arguido, ora A., foi motivada por acto temerário enquadrável na figura do erro grosseiro. (…).*
- (…) Significa isto que o Acórdão (08/10/2003) em causa não se bastou em proceder ao exame dos elementos em que o despacho de 15/07/2003 se estribou para decidir pelo reforço dos indícios da prática pelo arguido dos crimes que lhe eram imputados, como também analisou – como em nosso entender não poderia deixar de ser – todos os elementos disponíveis anteriores à primitiva decisão de decretamento da prisão preventiva, para da sua análise global concluir não haver indícios suficientes para imputar ao arguido a prática de qualquer crime concreto.(…).*
Ou seja, não só a prisão preventiva foi um erro grosseiro como não havia indícios para imputar qualquer tipo de crime concreto. Ainda bem que assim se decidiu, ainda bem para Paulo Pedroso.
Mas não deixa de me arrepiar a sensação de que, em Portugal, é preciso ser-se poderoso e influente para que o Estado resolva devolver um pouco da dignidade que resolveu retirar, sem que para isso tenha tido razão. Quantas e quantas pessoas não passaram e não passarão pelo mesmo calvário?
Por outro lado, como é possível que continue a haver a certeza de crimes sem culpados?
A névoa que envolve este caso continua, sem verdadeiros culpados condenados e sem verdadeira ilibação dos falsamente acusados. A suspeita e o simulacro de justiça num Estado que se diz de direito.
* bolds e sublinhados meus
teste
ResponderEliminarJá aqui tentei colocar o meu comentário mas a net não ajudou. As minhas desculpas se acabarem por surgir os dois textos ou se o conteúdo dos dois não for exactamente o mesmo.
ResponderEliminarCom toda a mediatização do processo em causa, dos seus recúos e avanços, dos seus erros e das suas virtudes já ninguém sabe muito bem em que pensar.
Será que todos os acusados o estão a ser com base em indícios suficientemente fortes que se aguentem em tribunal?
Será que aos acusados com base apenas em indícios testemunhais foi salvaguardada a credibilidade e veracidade desses testemunhos?
Será que todos os que deviam ter sido acusados o foram? E os que foram... deveriam ter sido?
Reparem que estou a falar em suposições. Agradecia muito que ninguém me pusesse um processo em troca da minha opinião, mas se no fim do processo houver mais inocentes haverá lugar a mais indemnizações... A que custo? Com que moral se destrói a honra de alguém, se mata a vida de um ser com base em provas que afinal podem não passar de erros grosseiros?
Como se compensa alguém disso??
Até se me arrepiam os ossos em pensar que esta parte má que parece existir no sistema judicial pode um dia cair em cima de mim...
Hoje em dia é sem dúvida cada vez mais difícil ter confiança nas instituições do nosso país..
Cumprimentos, Sofia.
Concordo consigo, André. Tudo isto é arrepiante e o descrédito é cada vez maior.
EliminarObrigada pelos seus comentários.
Escrevi no CR um post onde partilho as mesmas dúvidas e receios. Estar diante de um juiz, em Portugal, é um jogo de lotaria.
ResponderEliminarO Estado pode ressarcir Paulo Pedroso monetariament, mas nin´guém lhe vai poder devolver o tempo que passou na prisão
Indo pela via mais simples : concordo com André Couto.
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