21 abril 2008

Há um lago na infância


 


Há sempre uma casa antiga na infância


lá para cima


um passo de desarmonia


um vestígio de escadas retiradas


na primeira oportunidade


um lago, há também um lago


na infância sem barco que o possa


atravessar e uma pedreira branca


ambos sem utilidade


e algumas crianças


que pintam a vaga pocilga de pedra


e riem e apanham rãs em vez de fruta


e apanham uvas, também apanham uvas


de outra nacionalidade


e antes de se escrever durante a noite


contra o sono


havia um caminho de terra


incerto apenas nas suas pedras


na útil ambiguidade do solo


 


(poema de Filipa Leal)

de raiz


 


abraçar mesmo o mundo


o mesmo que trepar a um cedro


solto como destino a pulso


à força dos braços por dentro


 


amar a sério o centro o corpo


sério como coração e nervo


se abrirem ao tempo incerto


que passa o tempo entretanto


 


querer viver a vida no entanto


sem vivê-la instante a momento


é declarar morto o que está vivo


 


esperar pela morte como o vento


esperar que tudo passe ao lado


sem vivos nos termos sentido


 


(poema de Joaquim Castro Caldas)

Segue a dinastia

Bem, parece que a fama que vem de longe sempre avança. Acho bem, quantos mais melhor. Mas penso que as grandes esperanças vão ser defraudadas. Nem sequer é justo para a própria Manuela Ferreira Leite. Mas pode ser que se clarifique o partido, ou que se parta em mil pedacinhos até não ficar nenhum.

Manuela Ferreira Leite é histórica, pertence a um Cavaquismo que se reduziu a Barrosismo e encolheu em Mendismo.

Avançará o PSD para o Leitismo?


 


Preocupações (II)

Qual a noção que temos da organização da sociedade como um bem colectivo, que existe para o bem-estar colectivo, para que se possa assegurar a todos uma vivência digna, em segurança, com igualdade de oportunidades e acesso à saúde, à justiça, à educação, a um apoio social para que todos melhorem as suas condições de vida?

E se não apetecer à sociedade civil tratar os doentes que não têm dinheiro, os que estão desempregados, os velhos que não têm família? E se a sociedade civil não estiver para a filantropia?

Que acontece se a sociedade civil só quiser ensinar os filhos dos seus mais dilectos representantes? E se a sociedade civil se estiver nas tintas para os imigrantes?


 


Que acontecerá a uma sociedade civil tão desagregada, compartimentada, espartilhada? Não será a perpetuação das desigualdades sociais, dos desequilíbrios? Não será a negação da próprio Estado? Ou será o Mercado que virá substituir o Estado?

Preocupações (I)

Preocupamo-nos todos os dias com os mercados, o preço do petróleo, o crescimento económico, o aumento das taxas de juro, o endividamento das famílias, a desvalorização do dólar, a insegurança, o desemprego.

Preocupamo-nos todos os dias com a qualidade da democracia. Parte do discurso político, se é que se lhe pode chamar assim, tem a ver com a descredibilização da classe política, com a promiscuidade entre os cargos públicos e privados, numa verve demagógica ela própria geradora de desinteresse e afastamento dos cidadãos da vivência política.


 


A qualidade da democracia está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento económico de um país. Quando a taxa de desemprego é tão alta como agora está, não há verdadeira liberdade de expressão de pensamento, não há verdadeira liberdade de associação sindical, não há verdadeira liberdade de reivindicação de direitos e de salários.


 


A ausência de trabalho e a inflação do trabalho precário reduz a capacidade de intervenção cívica dos cidadãos. Ao ouvir Pedro Passos Coelho dizer que o Estado se deve retirar das empresas e que deveria ser a sociedade civil a substituí-lo pergunto-me o que fazer quando a sociedade civil não quiser resolver os assuntos, porque não lhe interessa, porque não lhe dá lucro, porque não está para aí virada.

20 abril 2008

Corações (coeurs)


 


Neva sempre, nos ombros, nos casacos, nos gorros, nos olhos, nas almas, nos corações cobertos de branco.


 


Alguns cenários com poucos adereços, em tons de cinzento, branco e azul, com excepção do bar, que tem tons vibrantes, feéricos, tão tristes como a imobiliária, a casa de Lionel , e as casas que Dan e Nicole visitam, a pedido dela, para viverem uma vida a dois que sabem que nunca acontecerá.


As vidas de algumas pessoas, solitárias e carentes, de Thierry , esperançosamente espantado com a luxúria da sua colega de trabalho, de Gaëlle , que todas as noites se transforma numa secreta heroína de flor na lapela, ao encontro do amor que tarda, de Charlotte , que se purifica com a Bíblia, todos com alguns apontamentos de loucura mansa, quase burlesca, de desejos reprimidos e penitências repetidas.


 


É um filme docemente triste, com o realismo das relações trocadas, dos desencontros que parecem planeados, do abandono, da solidão. É um filme sobre nós, o mais íntimo e absoluto de nós, o que somos e o que desejaríamos ser.


 


De Alain Resnais , claro, numa adaptação da peça de Alan Ayckbourn : Private Fears in Public Places .

19 abril 2008

Ponto de Mira

Ponto de Mira (Vantage Point) é um filme frustrante, que defrauda as  expectativas de quem se envolve totalmente nos primeiros 2/3 do filme. Magistralmente filmado, mostrando uma cena observada por várias personagens, cada uma juntando um pouco mais de mistério, mas também descobrindo um pouco mais o mistério. Uma ideia brilhante com excelentes actores, uma Plaza Mayor de Salamanca credível, turistas, profissionais de segurança e dos média, terroristas e um Presidente bem americano.


 


Depois estraga-se tudo. Perseguições disparatadíssimas, por estradas tão depressa urbanas, com viadutos e trânsito, como marroquinas, pela confusão, pelos mercados e pelos mercadores. Chega-se ao fim e não se percebe o enredo, não se entende quais as motivações dos terroristas, porque é que há polícias na tramóia, que entretanto são aldrabados, outros que são mortos mas estão por dentro, enfim, acabou aquilo que era uma promessa de uma excelente história, a correr e à pressa. Como disse o meu companheiro de filme, parece ter havido dois argumentistas : o da primeira parte do filme, muito bom; o da segunda parte do filme, muito mau. Mas no guião vem apenas o nome de Barry Levy.


 


Que pena.


 


A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...