19 janeiro 2008

Defender o SNS

Continua a campanha para derrubar o ministro da saúde. Desde as notícias recorrentes de mortes à porta das urgências, tentando explicita e implicitamente culpar a reforma dos serviços de urgência e os encerramentos dos SAP por esses infelizes acontecimentos, mesmo que os próprios implicados o neguem, até à entrevista do recém-eleito Bastonário da Ordem dos Médicos, que ao longo do último ano foi mudando subtilmente de opinião sobre a mesma reforma, e às graves afirmações de Manuel Alegre, acusando de estapafúrdia a política de saúde deste ministro e clamando contra o fecho dos serviços de saúde.

Espero que estes mesmos intervenientes, que se auto-intitulam defensores do SNS, assumam as suas responsabilidades se esta reforma não for avante. Pois a inevitabilidade da reforma de um sistema que não está adaptado às evoluções tecnológicas, demográficas e culturais, às naturais e legítimas exigências dos cidadãos que querem todos ser cidadãos de primeira, é inquestionável. Aceitar que não há nada a fazer é a melhor forma de o destruir e abrir alas aos tão propalados seguros de saúde, aos tão glosados cheques de saúde, convenções e promiscuidade cada vez mais acentuada entre público e privado, à tão (pseudo)odiada privatização dos cuidados de saúde, demitindo-se o estado de servir as populações e os cidadãos, em vez de servir grupos dos mais variados interesses, que usam como escudo uma necessidade essencial para o bem estar individual e público, como a saúde.

A independência da Ordem dos Médicos em relação ao poder político é um excelente e necessário objectivo que tem sido desmentido diariamente pela actuação do Bastonário recém-eleito. Esta entrevista não parece ir em sentido contrário.

Tal como em épocas anteriores, em que a OM também era independente do poder político, reduziram-se as vagas para entrada nas Faculdades de Medicina, com o argumento apoiado pelos responsáveis da Ordem, de que havia médicos a mais. Está à vista o resultado.

Por outro lado, são peritos dos Colégios de Especialidade da Ordem que alertam para a necessidade de concentração de meios e do número de actos médicos realizados que garantam experiência, competência e qualidade na prestação dos cuidados médicos. Em que ficamos, é ou não necessária, mesmo indispensável a concentração de meios humanos e técnicos, investir em transportes especializados, rápidos e com acompanhamento de peritos para que haja cuidados médicos de qualidade para todos?

Em Portugal nada é levado até ao fim, porque há sempre os resistentes que afirmam a pés juntos que tem que se mudar, mas nunca da forma como se está a fazer, sempre de outra maneira melhor, mais certa, aquela sim, é que é. E tudo nunca muda. E a quem interessa que não mude?

17 janeiro 2008

Mansidão

Não te peço nada
nem espero que te ofereças.

Apenas ocupo o espaço
entre os dedos que me afagam
apenas te sirvo palavras
plenas de mansidão.


(pintura de Gavan Mccullough: water paintings)

14 janeiro 2008

Mapa


1.
Branca pedra
verde rumo
sulco vivo
onda leve.

2.
Abre sumo
peito nu
colhe mapa
bebe luz.

3.
Abre boca
lambe sal
cruza dedo
soma pele.


(pintura de Serena Bocchino: when the water rises)

13 janeiro 2008

Petições - referendar o Tratado de Lisboa

Só mais uma coisa: se o Bloco de Esquerda vai apresentar uma moção de censura ao governo pelo facto de Sócrates não promover um referendo para a ratificação do Tratado de Lisboa, que tal promoverem uma petição com recolha de assinaturas para apresentar à Assembleia da República, a favor da realização do referendo? Eu assino.

Petições - a defesa do SNS

Através do MIC tomei conhecimento de uma petição que recolhe assinaturas, em defesa do SNS. Essa petição já terá recolhido as assinaturas de António Arnault, que classifica a política de Correia de Campos de ultraliberal, de Pedro Nunes, o auto suspenso Bastonário da Ordem dos Médicos, e de Manuel Alegre, que já apelidou de grave erro político a reforma das urgências.

Embora tenha pesquisado na Internet, não tive ainda acesso ao documento, o que muito estranho, pelos vistos uma iniciativa do Bloco de Esquerda. Não percebo porque é que primeiro se avança com nomes emblemáticos e depois com o conteúdo do texto. Ou seja, até percebo, mas não gosto.

Lamento que António Arnault e Manuel Alegre dêem suporte político a esta campanha de desinformação que, isso sim, está a delapidar a confiança que os cidadãos têm no SNS.

Quais as medidas ultraliberais a que se referem?
  • À reorganização dos SU que pretende reduzir a procura desnecessária a um serviço qualificado e que pretende possibilitar o acesso a esse serviço qualificado a quem só tem acesso a serviços desadequados a situações de urgência?
  • À reorganização dos cuidados primários de saúde, de modo a assegurar que todos os cidadãos possam ser observados e consultados em tempo útil em consulta externa, preferencialmente com o seu médico de família, em vez de engrossarem as urgências hospitalares?
  • A uma reorganização dos blocos de parto que garanta a todas as mulheres e nascituros serem atendidas em espaços condignos e por profissionais com competência e experiência que lhes garantam qualidade no parto?
  • À tentativa de controlo de assiduidade e de pontualidade dos profissionais que trabalham no SNS?
  • À tentativa de reduzir os conflitos de interesse entre quem trabalha no sector público e privado?
  • Ao aumento das vagas nos cursos de Medicina?
  • Ao aumento das vagas na especialidade de Medicina Familiar?
  • À tentativa de contenção de gastos em medicamentos?
  • Ao incentivo da prescrição de genéricos?

Estou com muita curiosidade em conhecer o texto da petição. Mas as frases que vão caindo só servem para aumentar a minha reserva.

GPS

Sou uma nova mulher, aventureira e destemida. Tenho um TomTom, pequeno, fiel, discreto, o meu anjo da guarda nas estradas, que me indica o caminho e me corrige mesmo quando lhe obedeço.

Há uma nova vida que me espera, novos e arrebatados mistérios na condução.

A tentação de Santo Antão

Por mais que tente escapar-me
com meneios de felino,
de nada vale esse charme:
não tarda e quino.

A pouco e pouco conheço
o tilintar do meu sino
e o pus do abcesso:
não tarda e quino.

Abro os olhos devagar
e a mim mesmo previno
preparado para os fechar:
não tarda e quino.

Estas visões que abomino,
tudo o que acordo e alucino
dos sonos maus de menino,
tudo o que mal descortino
se torna luz e ensino
num destino contínuo:
não tarda e quino.

(poema de Pedro Tamen; pintura de Hieronymus Bosch: as tentações de Santo Antão)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...