01 janeiro 2008

Tempo

1.
Guardei o badalo.
Não interessam os sons dos segundos que passam
mas as linhas de força que se desenham
entre segundos e tempos de espera
em socalcos de vento sementes e pedras.

2.
Guardo o teu nome e gravo a boca
nas mãos que me adoçam o corpo.
Entre as vidas que escrevemos
somamos luzes sem fim
o que podemos reter
na intemporal capacidade
de amar.


(pintura de Joseph Donaldson, Jr.: always will lovers meet)

Demagogia e populismo na informação

O editorial do Público de ontem, assinado por Manuel Carvalho (não acessível online), é um dos textos mais demagógicos e populistas que tenho lido ultimamente.

Todos os protestos das populações fazem sentido, por isso é que é tão importante capitalizar esses protestos, encaminhar e dar visibilidade quando interessa, neste caso, aos opositores desta política de saúde, que transbordam em muito a lógica partidária.

A reorganização dos serviços de urgência, assim como das maternidades e blocos de parto é absolutamente indispensável, como aliás vêm dizendo, desde há anos, todos os intervenientes no sector, partidos políticos, Presidentes da República, Bastonários da Ordem dos Médicos, etc. Manuel Carvalho acha que por muita objectividade que tenham os números da comissão que estudou o quadro dos encerramentos de serviços, por muita racionalidade que haja nas suas conclusões, a proposta que sai das suas conclusões é típica de burocratas sem ligação à terra, e já tinha afirmado, no mesmo texto que De pouco vale (…) denunciar a evidência dos blocos de partos sem condições e de urgências sem utentes suficientes para garantir a qualidade dos serviços. São pormenores.

Pois esses são os pormenores que contam para quem necessita de cuidados urgentes de saúde ou de atendimento na hora de parir: ter a garantia de que o faz com pessoal qualificado, em boas condições e de segurança. A decisão de quais os serviços a encerrar e quais os serviços a transformar é obviamente política. E se há coisa que tem corrido mal é a gestão política destes assuntos, com grande responsabilidade do Ministro da Saúde.

Mas não se podem defender estudos técnicos para avalizar decisões políticas e chamar burocratas aos que o fazem, quando as suas conclusões não são de molde a servir outro tipo de interesses. Tal como já aconteceu com a co-incineração, tal como está a acontecer com a localização do novo aeroporto.

É indispensável a avaliação destas medidas e da acessibilidade dos doentes aos serviços de referência, a existência, qualidade e prontidão dos serviços de transporte, assegurados pelo INEM ou pelos Bombeiros Voluntários, a existência ou não de pessoal qualificado e em número suficiente. Se calhar, tal como no caso dos fechos das escolas que tanto brado deu há cerca de 1 ano, os autarcas deveriam ter esse cuidado e essa preocupação, em vez de assumir a desprotecção das populações pelo engano de um atendimento que não tem condições para tratar qualquer situação verdadeiramente urgente, e que terá que enviar o doente, com atraso, para o serviço de urgência mais próximo.

As situações que não são urgentes devem ser tratadas em consultas, que devem estar acessíveis nos centros de saúde, ou nas unidades de saúde familiares, em horários que sirvam as populações.

Respondendo ao comentário de JRD num outro post, aos serviços públicos cabe assegurar a existência de saúde para todos, em igualdade de circunstâncias, com a qualidade a que todos têm direito, segundo o estado da arte nas diferentes áreas do conhecimento médico. Para isso se reformam serviços que estão desadaptados e desadequados às alterações das populações em termos de demografia.

A desertificação do interior só será travada se houver políticas de desenvolvimento regional, que crie empregos, trabalho, que prenda as pessoas a um determinado sítio pela possibilidade de aí subsistir. Não é a manutenção de uma escola quase sem alunos, ou de um posto de saúde sem médicos, sem enfermeiros, sem técnicas complementares de diagnóstico e sem doentes que reduz a desertificação. Por isso defendo a regionalização.

O combate político passou dos partidos para os jornais. Não tenho nada contra mas era mais honesto que os jornais assumissem claramente qual a sua orientação política. E, já agora, estudassem os assuntos e fizessem política de verdade.

31 dezembro 2007

Travessia

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver

(Milton Nascimento & Fernando Brant; canta Milton Nascimento)

Canción de las simples cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,

lo mismo que un árbol en tiempos de otoño muere por sus hojas.

Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,

esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.



Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,

y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.



Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,

donde encontrarás con el pan al sol la mesa servida.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.




(Armando Tejada Gómez
& César Isella; canta Mercedes Sosa)

Libertango



Astor Piazzola - Libertango

Mau negócio

Gostaria de ter visto, ou ouvido, ou lido, alguns dos que apressadamente concluíram a existência de obscuros e lucrativos negócios entre o governo e as entidades privadas de saúde, na altura em que se noticiou a reorganização das urgências hospitalares, comentarem esta notícia do DN.

Afinal o negócio não é assim tão bom para os privados. Pelos vistos eles não tencionam investir nessas zonas. Até as Misericórdias vão ponderar.

Se a reorganização do serviço público está a ser ou não bem feita, é discutível. Agora os seus objectivos não me parecem assim tão tenebrosos e tão favoráveis aos interesses privados, como alguns anunciavam.

Rituais

No cuidado com que escolheu a garrafa de champanhe, a carne tenra para cortar em cubos e misturar nos molhos mais variados, os vários tipos de alface, a ideia para a sobremesa, apercebeu-se de que os rituais, por muito que não lhes ligasse importância, reclamavam a sua hora.

De um segundo para o outro iria saltar um ano. Até conseguiu antecipar um frémito de emoção quando, no primeiro dia do próximo ano, se instalasse confortavelmente no sofá para assistir a outro ritual: o concerto de ano novo.

Desejou intimamente que o ano a iniciar brilhe e que traga um novo fôlego para o dia a dia.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...