20 dezembro 2007

Bastidores

Esta época de filas intermináveis de trânsito, de acotovelamentos sucessivos e desagradáveis, de toneladas de papel de embrulho a restolhar, de melopeias inaguentáveis, luzinhas a tremeluzir, musgo de plástico e Pais Natal pendurados nas janelas, oblitera totalmente qualquer resquício de boa vontade, tolerância e sentimentos de abnegação.

E no entanto, o esforço de tanta gente que trabalha o dobro ou o triplo que nos restantes dias do ano, que nos atura o enfado e as queixas, que se levanta de noite para bater massas e fritar filhós, para demolhar o pão e misturar leite e farinha, para matar leitões e perus, para nos transportar em segurança e nos proporcionar um Natal tradicional, sufocante, verde, vermelho e indispensável, que nos trata as indisposições, é esquecido e passa nos bastidores das prendas, pelas traseiras das nossas vidas.

(In)Competência?

O Tribunal Constitucional chumbou algumas normas da proposta de lei sobre o regime de vínculos, carreiras e remunerações na Função Pública, dando razão às dúvidas do Presidente da República, partidos da oposição, Juízes, etc.

Tudo normal em democracia, só demonstrando que os mecanismos de vigilância e compensação funcionam.

Mas não poderiam (o PS e o governo) ter sido evitadas estas inconstitucionalidades? O partido do governo e o próprio governo não têm juristas? Estão todos distraídos?

17 dezembro 2007

Sementes

Encosto o corpo à terra
sinto o pulsar do mundo
estou cega surda muda
na pele a vida enrugada.

Pelas veias corre o tempo
crescem árvores e dedos
sou ninho pássaro vento
noutras asas semeada.

(pintura de Christopher Reilly: Untitled Seed Branch)

16 dezembro 2007

Ave Maria

Ave Maria, gratia plena,
Dominus, tecum,
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Sancta Maria, sancta Maria,
Maria, ora pro nobis nobis peccatoribus,
nunc et in hora, in hora mortis nostrae.
Amen! Amen!

(Charles Gounod/J. S. Bach: Ave Maria; canta: José Carreras)

Ave Maria

Ave Maria
Gratia plena
Maria, gratia plena
Maria, gratia plena
Ave, ave dominus
Dominus tecum
Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus
Et benedictus fructus ventris
Ventris tuae, Jesus.
Ave Maria

Ave Maria
Mater Dei
Ora pro nobis peccatoribus
Ora pro nobis
Ora, ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis
Et in hora mortis nostrae
Et in hora mortis nostrae
Et in hora mortis nostrae
Ave Maria

(Franz Schubert: Ave Maria; canta Kiri Te Kanawa)

Cabo Verde – Contos em Viagem

A viagem dos caminhos, a viagem das letras, das palavras, dos gestos, das histórias, do espaço, do mar, a viagem da vida que esperamos e da vida que temos e da vida que sonhamos, a viagem da luz, do som, dos objectos que nos compõem.

A viagem feita de fragmentos de contos, de fragmentos de poemas, de fragmentos de barcos, dos cais das partidas e das esperas, dos cais das vidas que começam e que acabam, das pessoas, das famílias, das raças, dos corpos.

A viagem dos actores e dos espectadores, a viagem de quem concebe e de quem interpreta, a viagem em comunhão, num palco quase oratório em que os fiéis participam na celebração.

O cenário despojado, minimalista, de fragmentos de madeira, de sobreposições de parca matéria; a actriz despojada e descalça, em que o vestuário é um adereço e em que o corpo se transfigura e se transforma em fragmentos das múltiplas personagens que encarna, vibrante, cheia, dengosa, choramingas, dura, crispada, esperançosa, ingénua, criança e velha, da idade dos sonhos que perseguimos; o músico despojado e descalço, que usa os materiais mais simples para acompanhar e chamar os sons, as melodias, os ritmos, as ondas do mar, as gotas da chuva, que embalam o ritmo e a cascata das palavras; a luz discreta, velada, imprescindível.

No Teatro Meridional, neste espaço em que respiramos os valores que escondemos envergonhadamente na nossa imagem de profissionais responsáveis, de adultos cínicos e velhos, aquecido por uma espécie de salamandra gigante central, com uma luz coada e reconfortante, com uma exposição de fotografia de Patrícia Poção, Alma di Terra, com chá e café para aquecer, algumas mesas para conversar, neste espaço lúdico, simples e quase solene que nos aninha e onde regressamos ao melhor que somos.
  • Textos: António Aurélio Gonçalves, António Nunes, Baltasar Lopes da Silva/Oswaldo Alcântara, Fátima Bettencourt, Germano de Almeida, João Vário, José Lopes, Manuel Ferreira, Manuel Lopes, Orlando Pereira Ramos Rodrigues, Ovídio Martins
  • Selecção de textos, dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza
  • Direcção cénica e desenho de luz: Miguel Seabra
  • Interpretação: Carla Galvão (texto); Fernando Mota (música)
  • Música original e espaço sonoro: Fernando Mota
  • Espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras
  • Assistência de cenografia: Marco Fonseca
  • Fotografia de cena e Registo Vídeo: Patrícia Poção
  • Montagem: Rui Alves e Marco Fonseca
  • Operação técnica: Rui Alves
  • Assessoria de gestão: Mónica Almeida
  • Direcção de produção: Narcisa Costa

13 dezembro 2007

Medidas

Contabilizamos as horas o dinheiro as coisas
com que medimos a ideia de felicidade.

Mas desmedida é esta vontade de te amar
definitiva e absolutamente
como o querer dos sentidos
finitos

prementes.

Absurdamente presentes.


(pintura de Carol Little: wind in the maples)

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...