25 novembro 2007

Novembro, 25, 1975

Há 32 anos não fui ao liceu. Havia qualquer coisa no ar. Lembro-me do clima de suspeição conspirativa que reinava nos supermercados da zona, da agitação constante no liceu, na rua, nas fábricas, no parlamento, ameaças várias de reacção, ameaças contra a reacção, do Pinheiro de Azevedo a puxar os suspensórios, do Vasco Lourenço a suceder a Otelo Saraiva de Carvalho, o amigo da revolução, do Vasco Gonçalves desgrenhado e alucinado, levando a revolução a reboque, das manifestações e contra manifestações, do constante matraquear da muralha d’aço, do meu pai à janela, à espera que aparecêssemos, coisa inédita e nunca vista.


E depois do jantar daquele dia fora do normal, em que a ausência do meu pai já era hábito, a minha vizinha embrulhada em mantas ou xailes, ou qualquer coisa levemente cor-de-rosa e felpuda, aninhar-se no sofá da sala, com aspecto preocupado, pois o seu marido também faltava muito, nos dias que corriam.

Inusitadamente ouvíamos o Capitão Duran Clemente, a explicar qualquer coisa que ninguém entendia, mas todos entendiam que o camuflado na tv não trazia bons augúrios, e inusitadamente começamos a ver um filme cómico com o Danny Kaye, o que nós adorámos até porque a minha mãe, inusitadamente, não nos mandava para a cama, tão enrolada como a vizinha em xailes ou mantas, levemente acastanhadas.

Depois foi Ramalho Eanes, as suas patilhas e os seus óculos escuros, Melo Antunes, a salvar os comunistas da perseguição e do anonimato, Jaime Neves a passear o seu ar ameaçador por todo o lado.

Esse foi o dia em que se refundou o 25 de Abril, em que a utopia de alguns acabou para dar lugar à realidade da democracia pluralista.

Ainda bem que assim foi.

Catedral

Barricada na minha própria catedral
imune aos ruídos do bulício
gozo antecipadamente a antecâmara
da eficiência.

Horas enroscadas de preguiça.

(pintura de Ewa Sadowska: Cathedral-1)

Boas vontades

Candidamente, o ministro Correia de Campos reconheceu as trapalhadas das contas do SNS e, candidamente, prometeu levar em conta as críticas e recomendações do Tribunal de Contas.

Menos candidamente o ministro Teixeira dos Santos não explicou a mudança de estatuto da Estradas de Portugal, nem um período de 75 ou 99 anos de atribuição de uma concessão.

Candidamente, assistimos à substituição da discussão política, pública e parlamentar das opções das atribuições do estado, desde a suposta funcionalização dos magistrados, à descapitalização e inferiorização das forças armadas, ao esvaziamento das funções prestadoras como a educação e a saúde.

Candidamente arrebatamo-nos com as peripécias de histórias que se dizem e se desdizem, que incendeiam os bons sentimentos dos bons cidadãos, desta nossa mole de gente bem intensionada e mansa.

Cobardes ou apenas e só superiormente sábios, perante a imaginação de fazedores de factos e opiniões, de tanta ineficácia governativa, de tanta indigência da oposição.

Mas estamos na época das boas vontades universais, bem cobertas de bolas vermelhas e publicidade enganosa, créditos fantásticos que nos permitem forrar as paredes de plasmas e filmar-nos a comer bolo-rei
.

24 novembro 2007

Fuga


Fecho as portas e a chaminé
para Dezembro não tenho espaço
as paredes cobrem abraços e fé
que eu acordo lá para Março.

Em vão

Em vãos gestos de alegria
suporto a certeza do mundo
numa teia apertada invisível
em lenta
rota
previsível.

(pintura de Christopher Le Brun: the speech of light)

22 novembro 2007

Que contas são essas, Sr. Ministro?

A sustentabilidade financeira do SNS tem sido uma das bandeiras do ministro Correia de Campos para concretizar muitas das políticas de saúde a que temos assistido, nomeadamente a manutenção e alargamento do modelo Hospitais-Empresa.

A notícia veiculada pelos media sobre as questões levantadas pelo Tribunal de Contas, relativamente às contas do SNS de 2005 e 2006 são muitíssimo preocupantes e requerem urgente esclarecimento do ministro.

Se a seriedade das contas, da metodologia e da apresentação dos resultados é posta em causa, ou se demonstra que não há razão para tal ou quem deixa de ser sustentável é esta política de saúde.

Em que ficamos?

Maus hábitos

Durante o dia de ontem, desde manhã, que ouvimos, nas rádios, incitações para acarinharmos a selecção, pois se apoiássemos a selecção os jogadores teriam muita vontade de corresponder e dar alegria aos portugueses. Fomos lembrados pelo treinador Scolari, que devíamos vaiar o seleccionador e os jogadores finlandeses, independentemente do que a selecção fizésse.

Portanto, se quiséssemos ter um bom espectáculo, teríamos que mostrar à selecção quanto a amamos, para que ela, na sua infinita generosidade, se dignasse dar um bom espectáculo.

No fim de mais um jogo da selecção (de que só vi resumos), determinante para o apuramento da fase final do campeonato europeu, depois de os portugueses, obedientemente, terem apoiado a selecção, o jogo terminou empatado e, dizem os entendidos, ninguém vibrou com a qualidade.

Pois Scolari, no auge da sua importância, indignado pela falta das humildes criaturas que ousam dizer que Portugal não joga bem e que o apuramento foi sofrido, ofende-se enormemente e abandona a sala com estrépito.

Nós estamos, de facto, mal habituados, pois aguentamos estas notícias e estas estopadas todas, estas arrogâncias e estas prima donas, dando-lhes a importância que elas não merecem.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...