Há 32 anos não fui ao liceu. Havia qualquer coisa no ar. Lembro-me do clima de suspeição conspirativa que reinava nos supermercados da zona, da agitação constante no liceu, na rua, nas fábricas, no parlamento, ameaças várias de reacção, ameaças contra a reacção, do Pinheiro de Azevedo a puxar os suspensórios, do Vasco Lourenço a suceder a Otelo Saraiva de Carvalho, o amigo da revolução, do Vasco Gonçalves desgrenhado e alucinado, levando a revolução a reboque, das manifestações e contra manifestações, do constante matraquear da muralha d’aço, do meu pai à janela, à espera que aparecêssemos, coisa inédita e nunca vista.E depois do jantar daquele dia fora do normal, em que a ausência do meu pai já era hábito, a minha vizinha embrulhada em mantas ou xailes, ou qualquer coisa levemente cor-de-rosa e felpuda, aninhar-se no sofá da sala, com aspecto preocupado, pois o seu marido também faltava muito, nos dias que corriam.
Inusitadamente ouvíamos o Capitão Duran Clemente, a explicar qualquer coisa que ninguém entendia, mas todos entendiam que o camuflado na tv não trazia bons augúrios, e inusitadamente começamos a ver um filme cómico com o Danny Kaye, o que nós adorámos até porque a minha mãe, inusitadamente, não nos mandava para a cama, tão enrolada como a vizinha em xailes ou mantas, levemente acastanhadas.
Depois foi Ramalho Eanes, as suas patilhas e os seus óculos escuros, Melo Antunes, a salvar os comunistas da perseguição e do anonimato, Jaime Neves a passear o seu ar ameaçador por todo o lado.
Esse foi o dia em que se refundou o 25 de Abril, em que a utopia de alguns acabou para dar lugar à realidade da democracia pluralista.
Ainda bem que assim foi.



