18 outubro 2007

Na tua direcção

Apetece-me um armário vazio
estranho saber de pedras
de perdas de raízes.

Apetece-me uma grande mesa
sem forma um vidro
frágil colorido.

Apetece-me na tua boca
areia do tempo
algas eternas.

Apetece-me no teu corpo
mapas sinais
roda do mundo.

Na tua direcção.

(Steele Wrought Iron & Custom Metal Art: greentable)

Nódoa

Olha com mais atenção. Nem a limpeza das calças consegue manter, a única especificidade lisa, asseada, campestre, sóbria mas sofisticada, a que tem direito.

Uma nódoa cinzenta sobressai com uma lanterna na escuridão da noite. Molha a ponta do indicador com saliva e esfrega aplicadamente o tecido rugoso.

Desapareceu. Com a nódoa, ela também.

Eco

O estrondo da porta
ainda faz eco
transmite-se pelo ar
pelo corpo
em ondas de choque
como um terramoto
e as suas réplicas.

(pintura de Mauricio Ortiz: Echo)

Perfeito

Perfeito o nome
o contorno
as letras que respiram,

perfeito o sabor
indizível
dos tempos que resistem,

perfeito o sangue
espesso
dos amores que persistem.

(pintura de Magritte: Le Beau Monde)

16 outubro 2007

Ponteiros

Passam os segundos
nos ponteiros.
Páginas
de eternidade
em serena
cumplicidade.

(pintura de Francis Picabia)

Paula Rego - exposição em Madrid

Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.

De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.

As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.

Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.

Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.

Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.

Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.

Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.

É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.


(pinturas de Paula Rego: Salazar vomiting the Homeland – 1960; The maids – 1987; War – 2003; O repouso na fuga para o Egipto – 1998; Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia 3 – 1995; Scavengers – 1994;)

14 outubro 2007

Longe

Tanta terra
tanta gente
tantos sonhos
nos separam

Ambos sabemos
das praias
do mar
que nos guardam

da imensidão
do mundo
do amor
que queremos.


(desenho de Salvador Dali: quadros bíblicos)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...