06 outubro 2007

A Escola (2)

(…) As condições nas escolas de Lisboa estão, portanto, longe de garantir uma escola que seja um local digno de aprendizagem, de cidadania participativa e de vida comunitária.

Só uma escola revalorizada e bem inserida no tecido urbano é capaz de responder com sucesso às necessidades da comunidade educativa.

As crianças de Lisboa exigem-no, os professores merecem-no e a revitalização da cidade não permite qualquer adiamento.

A modernização e a qualificação da Escola deve pois ser o programa que permita simultaneamente afirmar a viva actualidade do ideário da República e a satisfação de uma necessidade dramática do presente.

(…) Deve o Município acompanhar o Estado neste esforço, com o lançamento de um programa especial de modernização e qualificação do pré-escolar e ao 1º ciclo do ensino básico na cidade de Lisboa. Um programa a desenvolver entre 2008/2009 e 2011/2012 e que assim comemore o duplo centenário da 1ª Vereação Republicana e da descentralização para os Municípios das competências relativas ao ensino primário.

É na prioridade à Escola que começaremos a construir uma estratégia sustentada de afirmação de Lisboa como cidade criativa. (…)

(discurso do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na cerimónia de comemoração do 5 de Outubro de 1910)


Há quem tenha interpretado as palavras de Cavaco Silva como um incentivo ou como um recado ao governo; há quem tenha interpretado a coincidência de temas abordados pelo Presidente e por António Costa como um incentivo do primeiro, ou como uma manobra de antecipação do segundo.

Pois eu interpreto as palavras e o tema de ambos como uma prova de que não se pode adiar mais a revolução cultural de que necessitamos, como povo.

Projecto de Tratado Reformador (2)

A minha satisfação pela publicação dos textos do projecto de tratado reformador foi imensamente precipitada.

Tal como diz Luís Naves no DN em letras garrafais, são quase ilegíveis, pois apenas remetem para as transformações, adições e subtracções de texto a tratados prévios, incompreensíveis para quem não os sabe de cor, e uma tarefa hercúlea para quem os queira comparar.

Desconfio que, como muito bem sugeriu A. Teixeira, que esta solução não será inocente. Ao contrário do que deveria ser o dever dos nossos representantes, dificulta-se ao máximo a participação cívica, a discussão das ideias fundamentadas, servindo-se a verdade oficial em fascículos, cirurgicamente combinada entre os vários actores.

Esvazia-se assim de conteúdo a proposta referendária. Referendar algo incompreensível, com cerca de trezentas páginas, é impossível.

Parabéns aos arquitectos dos directórios que tecem as teias onde, cada vez mais, se instala a descrença e a distância entre quem fala e quem ouve. Já ninguém presta atenção e preferem-se outras ocupações.

No entretanto, e para entreter as massas, há sempre a eterna Casa Pia e Catalina Pestana, a corrupção e João Cravinho.

05 outubro 2007

Projecto de Tratado Reformador (1)


Já estão online os documentos do Projecto de Tratado Reformador. Para ler e discutir acesa e lealmente.

A Escola (1)

(…) Entre eles, destacaria o ideal educativo, que sempre marcou o programa político do regime instituído em Outubro de 1910.

(…) Tratámos a escola como um problema de governo e não como um problema de regime. E concentrámo-nos em demasia na relação entre o Estado e a escola, sem atender ao papel e às responsabilidades próprias da sociedade civil.

(…) Devemos começar por afirmar que uma escola republicana é uma escola plural e aberta, que cultiva a convivência entre as mais diversas convicções, credos ou ideologias.

É também uma escola neutra, no sentido em que não se encontra ao serviço de uma qualquer ideologia oficial patrocinada pelo Estado ou qualquer organização.

Por outro lado, importa sublinhar que a educação é a base da verdadeira inclusão social, pois esta encontra-se associada, em larga medida, às qualificações e competências de que cada um dispõe.

Mas também num outro sentido se deve salientar o carácter inclusivo da escola: a democratização do ensino e a escolaridade obrigatória são factores de igualdade e elementos de convivência interclassista, interracial ou interconfessional.

(…) Preocupamo-nos em cuidar dos nossos filhos no plano material, mas é frequente julgarmos que a educação, o bem mais importante e decisivo para o seu futuro, é tarefa que compete sobretudo a outros.

(…) Há toda uma cultura de autoexigência que deve ser estimulada nos pais, levando-os a envolver-se de forma mais activa e participante na qualidade do ensino, na funcionalidade e na conservação das instalações escolares, no apoio ao difícil trabalho dos professores.

A escola está inserida na comunidade. Poder-se-á dizer, de certo modo, que uma comunidade deve ser construída tendo a escola como centro. Daí que as autarquias locais devam assumir maiores responsabilidades relativamente aos estabelecimentos de ensino.

(...) Esse envolvimento pressupõe também, como é natural, que a figura do professor seja prestigiada e acarinhada pela comunidade, o que requer, desde logo, a estabilidade do corpo docente.

É também necessário compreender que, em larga medida, a dignidade da função docente assenta no respeito e na admiração que os professores são capazes de suscitar na comunidade educativa, junto dos colegas, dos pais e dos alunos.
(…)


Não tarda nada e começo a gostar (um bocadinho) de Cavaco Silva…

(
discurso do Presidente na cerimónia de comemoração do 5 de Outubro de 1910)

Pecados públicos

A propósito do projecto de regulamentação da assistência religiosa nas unidades públicas de saúde, documento ainda não disponível online (pelo menos que eu conseguisse encontrar), as informações sobre o seu conteúdo são, para dizer o mínimo, ligeiramente desencontradas.

Enquanto o coro de jograis constituído por diversos Bispos e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, orientados e amplificados por Marcelo Rebelo de Sousa, nos sermões dominicais, clama a heresia do governo e as malfeitorias dos não católicos, Fernanda Câncio assina dois artigos (um de opinião) no DN de hoje, em que denuncia a enorme desinformação orquestrada pela Igreja Católica a respeito do referido projecto.

Gostava de ler o documento para tirar as minhas próprias conclusões. Tomando como factos os relatados por Fernanda Câncio, continuo a desconfiar das promessas dialogantes do nosso Primeiro-Ministro. Por outro lado as certezas do Prof. Marcelo estão já a fazer parte do anedotário nacional.

A República

Senha
Mandou-me procurar?
e contra-senha
Passe cidadão!

utilizadas pelos revolucionários republicanos de 1910

04 outubro 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

(letra e música de Jorge Palma: encosta-te a mim)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...