04 outubro 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

(letra e música de Jorge Palma: encosta-te a mim)

Registo final

O corpo estende-se em perspectiva, maiores os pés que a cabeça. Regista mentalmente o tom marmóreo, a temperatura frigorífica, a simetria das mamas, os livores, as unhas dos pés espessas e curvas. Toma nota da distribuição pilosa, da espessura do panículo adiposo, das cicatrizes, dos edemas, da rigidez dos membros.



O som da água a correr em fio, o tabuleiro em equilíbrio instável, a triste afirmação do corpo que chegou ao fim e se expõe, na nudez e despojamento que a todos reduz ao máximo comum da morte.



Homens ou mulheres, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, cobardes ou heróis, alegres ou melancólicos, mestres ou alunos, novos ou velhos, todos somos uma mistura de órgãos, sangue e dejectos, com as mesmas cores e consistências, as mesmas pregas e espessuras, máquinas orgânicas com validade finita.



Falta o relatório completo e pormenorizado, num registo quantificado, medido e pesado do que se gastou e do que viveu.

(desenho de Leonardo Da Vinci)

Desistência espiritual

Espero que o espírito do diálogo, o acordo com a Constituição e com a Concordata não sejam uma benzedura subserviente e amarfanhante do primeiro-ministro, tão forte e convicto com quem não tem força, tão benevolente e sorridente com os porta-vozes do além.

Myanmar

Myanmar, Mianmar, Mianmá, Birmânia, Burma - tantos nomes para uma só realidade.

International Bloggers' Day for Burma on the 4th of October

03 outubro 2007

Chaves

Transportamos por dentro
fragmentos passados
com ferro tatuados
caixas vazias
esquecidas de segredos.

Perdemos as chaves
enterradas em bolsos
sem fundos
queimando teimosas
no relevo das mãos.

Em horas bravias
quebramos o vidro
de absurdas razões
e abrimos caminho
a outras paixões.


(pintura de Todd Bellanca: wardrobes, closets, doors)

Preço do petróleo

Há pouco mais de um ano todos os dias se falava com grande alarmismo na subida do preço do petróleo que atingiu, em Julho de 2006, um máximo de $78,40.

Este ano o preço do petróleo já atingiu $83,60 mas ninguém parece importar-se grandemente.

Ou seja os problemas só existem se nos disserem que existem e só são graves se nos convencerem de que são graves. É tudo completamente independente dos problemas em si.

Tratado de Lisboa

Portugal conseguiu trabalhar o suficiente, em contactos, diplomacia e palavras, para terminar a elaboração do documento a que quer chamar Tratado de Lisboa.

O optimismo reina entre os responsáveis da União Europeia quanto à certeza da aprovação do tratado.

Mas aprovação não significa ratificação. Para isso, é necessário que o Presidente da República, os partidos políticos e os cidadãos, colectiva ou individualmente, leiam, discutam e promovam a discussão do Tratado, exigindo um referendo.

Quanto maior for a União Europeia mais imperativa a ligação realista entre os cidadãos e os seus representantes.

Esperemos que o sentir democrático prevaleça.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...