29 setembro 2007

Capelanias hospitalares

A existência de Capelanias hospitalares e o pagamento pelo Estado a Ministros de uma confissão religiosa, seja ela qual for, é um prolongamento inaceitável de uma situação que vai contra o princípio da laicidade do Estado, inscrito na Constituição Portuguesa.

Uma coisa é o direito que os católicos têm (assim como protestantes, budistas, agnósticos, muçulmanos, ateus) de serem assistidos e confortados espiritualmente quando estão num hospital, doentes ou em acompanhamento de um amigo ou familiar doente. Outra coisa muito diferente é o estado pagar essa assistência e apenas a uma parte dos seus cidadãos, porque só o faz (que eu saiba) a ministros da Igreja Católica.

Este PSD

Ao contrário de que alguns pensam (gostariam), acho que a eleição de Luís Filipe Menezes aumentou o seguro de vida política e governamental ao Engenheiro Sócrates.

A julgar pela campanha que conduziu, a oposição será de tal forma inconsequente, populista e sem conteúdo que o PS não terá dificuldade em manter o poder. No PSD não havia alternativa credível, pois as hipóteses de uma liderança diferente foram aferrolhadas para um possível futuro longínquo, onde se resguardaram os tão falados barões, à espera de melhores dias e de melhor sorte, sem vontade nem brio para arriscar.

Mas esta não é uma alternativa credível para o país. Por muito barulho que faça, por muito que se ressuscitem algumas figuras como Santana Lopes, Duarte Lima, Rui Gomes da Silva, Arlindo Cunha, Ângelo Correia, figuras de antanho, este PSD está a transformar-se num grupelho com tiradas semelhantes às de Paulo Portas e com a relevância do CDS/PP.

Quanto à formação de novos partidos, essa solução já foi tentada noutras circunstâncias e não deu grandes resultados.

Temo que nas próximas eleições a abstenção suba vertiginosamente.

Les feuilles mortes

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

Refrão:
C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai !

Refrão

[letra: Jacques Prévert; música: Joseph Kosma (1946); intérprete: Yves Montand - Les feuilles mortes]

Fim de Setembro

Setembro acaba e já se perfilam o vento e a chuva, os dias cinzentos e o peso do quotidiano.

Somos bombardeados com títulos desesperantes e deprimentes, que nos conduzem a uma revolta permanente e a um descrédito nas estruturas, mas sobretudo nas pessoas que nos representam, que têm o dever de governar e de transformar o caos em ordem.

Os consumidores perdem a confiança, o petróleo sobe, os pobres empobrecem, os livros são mais caros, os horários dos estudantes são horríveis, os pais e as mães matam os filhos, a justiça entrega crianças aos bandidos, as prisões soltam perigosos criminosos, desmantela-se o serviço nacional de saúde, o Irão tem a bomba, na Birmânia assassinam-se populações que clamam por liberdade, rebentam suicidas em autocarros apinhados no Afganistão e no Iraque.

Em toda esta avalanche informativa sinto-me uma bandeira ao vento, sem tempo nem capacidade para procurar a luz ao fundo do túnel, os factos por entre as interpretações e opiniões, alguma coisa mais próxima da realidade.

A dúvida metódica é uma atitude que, levada ao seu máximo expoente, pode paralisar o progresso ou até a simples existência rotineira da vida. Mas quando se vai percebendo que aquilo que se lê, se ouve, se vê, é apenas uma ínfima e camuflada parte do todo, as crenças no rigor e na competência vacilam, resultando no exagero da dúvida perpétua.

A possibilidade de tudo ser mostrado, comentado, expressado, é uma conquista inalienável da democracia e algo porque devemos lutar sempre. Só assim é possível comparar muitas partes ínfimas da verdade, misturá-las, somá-las e hierarquizá-las. Pressupõe-se, no entanto, que há boa-fé por parte de quem informa e de quem é informado.

Mas apercebemo-nos de que isso é uma ficção. Assim como é cada vez mais ficcional a possibilidade de se sentir informado, não pela existência de censura ou por falta de informação, mas pela omnipresença da desinformação, seja ela intencional ou resultado de negligência, ignorância ou incapacidade profissional.

Vamos, a pouco e pouco, procurando o refúgio de uma realidade virtual, de assuntos pouco complicados, cuja escolha por nós decidida não implica desestruturação de estilo de vida, de novas formas de pensamento, de novas dúvidas.

Vamos, a pouco e pouco, perdendo a capacidade crítica, pelo exercício sistemático da incerteza.

Em Setembro voam folhas caducas, amareladas, quebradiças, preparando os ramos para o pousio invernal, para o renovar da vida na Primavera.

Que estamos nós a preparar? Que vamos nós construir?

27 setembro 2007

Critérios editoriais

Não concordo com Santana Lopes. Fez um mau serviço ao país e ao seu partido quando foi um péssimo primeiro-ministro. Não gosto da atitude, da postura, do ar blasé, do populismo, da irresponsabilidade, de quase tudo o que lhe diz respeito.

Mas ontem fez aquilo que já há muito alguém devia ter feito: afrontar o sacrossanto critério jornalístico, a omnisciência do sempre comentador Ricardo Costa.

Já na cerimónia de posse do Presidente da República a SIC notícias interrompeu o discurso de Jaime Gama para que alguns comentadores, nomeadamente o próprio Ricardo Costa, dizerem algumas inanidades, considerando-se muito interessantes.

Desta vez tiro o meu chapéu a Santana Lopes. E a SIC notícias faria melhor em reconhecer o erro e pedir desculpa a Santana Lopes e principalmente aos espectadores, diariamente desrespeitados por esses excelentíssimos critérios editoriais.

26 setembro 2007

Deste lado

Algo indistinto e profundo
impede a porta de fechar.

O peso em pesadelos
doces e cruéis perfumes
sedosos fios de chumbo
sentidos a definhar.

Algo irrelevante e obscuro
impede o olhar.

Parte o espelho
e foge.

(pintura de Stephen Barclay: Broken Window)

Roda livre

O espectáculo degradante a que todos nós assistimos pela performance dos dois candidatos a líderes do PSD é, para além do mais, muito preocupante.

José Sócrates continua em roda livre, sem ninguém que o interpele, que o incentive a fazer melhor, sem mostrar que é uma alternativa. O pensamento único de líder único e indiscutível nunca foi benéfico.

O Primeiro-Ministro não precisa de se esforçar para continuar no poder. E o país bem precisa que se esforcem por ele.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...