02 setembro 2007

Serviço público

Muito já se falou sobre a invasão da plantação de milho transgénico. É interessante assistir a alguns comentários à prestação de Mário Crespo na entrevista que fez a Gualter Baptista (28 anos, engenheiro do ambiente).

Não sou particularmente apreciadora do estilo redondo e palavroso de Mário Crespo, da excelência de conteúdos ou das suas opiniões, que não deveriam ser manifestas nas entrevistas que faz.

Mas exceptuando o estilo, Mário Crespo apenas fez o que muitos jornalistas não fazem: confrontar o entrevistado com as suas posições, com as suas palavras, com os seus actos, descascando a retórica e as frases feitas de modo a assistirmos à coerência (ou falta dela) do entrevistado.

Na verdade o grande delito de Mário Crespo foi ter exposto, sem compaixão (e com gozo, convenhamos, que não lhe ficou bem), a total ausência de pensamento estruturado, de conhecimento científico e de carácter de um indivíduo que se reclama estar a restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática que tem sido constantemente deteriorada pelas políticas da União Europeia e pelo Governo português. Ainda por cima tentando demarcar-se da própria acção, querendo dar a entender que estava lá sem lá estar.

É pena que noutras entrevistas esta moda não pegue. Porque seria, de facto, uma excelência de conteúdo e um verdadeiro serviço público.

Milésimo

Este é o milésimo texto que escrevo neste blogue. Com maior ou menor regularidade, com maior ou menor inflamação, com maior ou menor reflexão, mas sempre com um gozo enorme, vou usando este espaço como uma forma de participar no mundo.

Tenho lido muitos outros blogues, muitas outras paixões, às vezes intimistas, às vezes azedas, muitas vezes divertidas, que vão enriquecendo e maturando as minhas próprias ideias.

É muitíssimo interessante fazer parte desta comunidade, que se alimenta a que serve de alimento a outros tipos de meios de informação, sendo neste momento uma extraordinária fonte de informação e de actividade da sociedade civil. É também extraordinária a capacidade de agressividade insultuosa de quem se esconde atrás de um anonimato e da possibilidade, que pensa democrática, de espalhar maledicência e fel.

A todos os que me visitam, lêem e comentam agradeço, pois é gratificante perceber se o que dizemos ou pensamos é, pelo menos, perceptível, mesmo que de orientação totalmente diferente. E assim vou continuar.

01 setembro 2007

Vamos lá

Depois do imenso espreguiçar do país em Agosto, todos afinam máquinas e competências para Setembro.

Talvez seja o tempo mais propício ao pensamento e à acção, talvez os nossos representantes se tenham cansado de tanta inanição.

Fermentou a crítica dos sindicatos, as desculpas do governo, estudaram-se números para manipular, empilharam-se razões para reportagens inflamadas, ensaiaram-se frases e escândalos à medida dos próximos meses.

Se tudo correr como previsto, conseguiremos passar mais um ano sem aflorar assuntos fundamentais, poderemos chegar ao próximo ano com os mesmos tiques governamentais, os mesmos arrufos da oposição e dos bem-pensantes, com a mesma aridez ideológica à esquerda e à direita.

Enfim, Setembro aí está, para quem quiser continuar.

Vamos lá.

31 agosto 2007

Agosto

Longo Agosto
de ventos mudos
quente pleno
maduro.

Venham as chuvas
de Setembro.


(pintura de Cory Behara: leaf #1)

29 agosto 2007

A ausência

Cavaco Silva vetou outro diploma. Depois da Lei da Paridade, do Estatuto dos Jornalistas e da Responsabilidade Civil extra-contratual do Estado, é a vez da Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana.

Vários comentadores e pensadores avisam o PS e o governo, pois acham que podem estar em causa o equilíbrio e a colaboração institucional. Também vêem os vetos presidenciais como um exercício de poder legítimo, mas provocador.

Há até quem comece a falar de partidos presidencialistas. Todos acham que o PS e o governo devem estar preocupados. Sim, mas preocupação maior esperava-se do PSD, do CDS, do PCP e do BE, pois todas estas atenções aos vetos e às palavras do Presidente, inclusivamente quando as não deveria proferir, só demonstram a ausência e a demissão da oposição.

Se a oposição se instalar em Belém, ninguém tem motivos para se congratular, nem mesmo o Presidente. E quanto a partidos presidencialistas, a aventura Eanista com o PRD não foi muito prometedora.

Outra vez Dalila

Correndo mais uma vez o risco de ser insultada por acérrimos defensores da liberdade de expressão, vou falar novamente do caso Dalila Rodrigues.

Ontem Marques Mendes visitou o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) onde foi recebido pela ainda directora do museu, Dalila Rodrigues.

Acompanhados pelas câmaras da SIC, durante a conversa mantida entre os dois, Dalila Rodrigues demonstrou à exaustão porque não deveria ser reconduzida naquele cargo. Na opinião dela, muito válida e estimável, como é óbvio, o MNAA deveria gozar de autonomia administrativa e financeira, não consagrada na lei pela qual ela teria que se reger; demonstrou ainda que, na sua estimável e válida opinião, os directores de museus nacionais, nomeados pelo governo, para prosseguirem a política delineada pelo governo, podem fazer campanha política pela oposição, enquanto desempenham funções, em representação do governo que os nomeou.

Para além disso o facto de Dalila Rodrigues colocar a hipótese de mover uma acção judicial, provavelmente ao Estado, não sei bem, por violação de direitos básicos, designadamente o de ser avisada com 60 dias de antecedência da não renovação da comissão de serviço é, quanto a mim, absurda e não abona nada a favor da sua hombridade, por muito que, legalmente, o possa fazer.

Pode discutir-se a necessidade de certo tipo de cargos serem obrigatoriamente por nomeação, mas não é aceitável que quem os aceita, sabendo que são de confiança política, não tenha a decência de se afastar quando não concorda com o rumo imposto ou com as regras que tem de cumprir. E é ainda mais inaceitável que use esse cargo para atacar politicamente aqueles a quem tem dever de lealdade.

Adenda: totalmente de acordo com Pacheco Pereira

27 agosto 2007

8.

Em infinita discussão contigo mesmo,
estudas o manual de gestão de acidentes pessoais.
Nas paredes aparecem-te escritas as mensagens
que a ti próprio envias. Como se não pudesses esquecer
que és tu, nas tuas próprias mãos, quem te vale.


(poema de Luís Filipe Cristóvão; Pequeña antologia para el cuerpo)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...