De novo a Festa do Avante, de novo as FARC. De novo?A Festa do Avante, há muitos anos, teve um papel relevante na divulgação de determinado tipo de cultura e de um ideal de sociedade que, no Portugal do pós 25 de Abril, era aceite como a terra prometida da liberdade, da democracia, da igualdade, da felicidade a que todos poderíamos aceder.
Como fomos descobrindo, mais ou menos dolorosamente, essa utopia baseava-se numa realidade bem diversa, em que as perseguições políticas, a censura, o atraso no desenvolvimento tecnológico criou uma sociedade de uma imensa maioria de tolhidos, revoltados, pobres e excluídos, e uma escassíssima minoria de privilegiados, ditadores e corruptos, tal como em todos os estados ditatoriais.
Por ser um regime fundamentado na ideologia socialista, de esquerda, a mesma esquerda política ainda hoje tem alguma dificuldade em descolar da depressão que se seguiu à queda do muro, à exposição do engano e à desilusão.
Só assim se compreende a retórica de algumas pessoas bem intencionadas mas presas de um passado que não volta mais. E não me estou a referir aos dirigentes dos partidos políticos que acabam por ser cúmplices de indiscutíveis e indesculpáveis atentados à liberdade e à democracia, como é a manutenção de desculpas ridículas sobre a natureza das FARC, convidadas da Festa do Avante, ou o permanente elogio do regime cubano e seus amigos.
É muito triste que o debate ideológico esteja preso a cumplicidades que não se entendem, e que conspurcam à partida a boa fé de quem argumenta.
Entretanto, Putin soma, segue e continua. Tudo é nebuloso e escuso, jornalistas assassinados, envenenamentos de contornos pouco precisos, livros à medida da mentira e da manutenção da censura.
A Festa do Avante transformou-se numa caricatura de si mesma.
Adenda: ler também O PCP, os ditadores e o anti-comunismo, e A desonestidade política do PCP.


