10 agosto 2007

Casa no campo

Conheci esta canção através da voz de Elis Regina. Inesquecível, embriagante, solene.

Para uma tarde de Verão (dedicada a uma amiga muito querida).



Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sape
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais


(autores: Zé Rodrix – Tavito, 1972)

07 agosto 2007

Sigo

Tal como o pardal
na imensa estrada
que no último instante
vê o perigo

em voo rasante
de susto e de vento
sacudo o medo

e sigo.

[pintura de Origa (Olga Hooper): Birch tree and sparrows]

06 agosto 2007

No sítio do costume

Compras, supermercado, vento, calor, modorra, tudo para um só dia de domingo, igual a tantos outros passados e, seguramente, a tantos outros futuros.

Na caixa uma empregada com facies de ave, com cabelos de um louro totalmente suspeito, com pálpebras meio descidas e ombros descaídos, vai passando as diversas mercearias com pouca diligência, mas carregando no pedal que faz andar o tapete das compras com grande velocidade.

Com os sacos de plástico a fecharem-se teimosamente e a fugirem do controle das mãos, ocupadas a abrir as bocas moles dos sacos, a agarrar produtos escorregadios e a tentar ser rápida, não me aguento mais e resmungo, de forma bastante audível, que assim é muito mais difícil!

A única manifestação, o único sinal, de que algo zumbe ao seu ouvido é a paragem instantânea do rolar do tapete, o que faz com que algumas garrafas de coca-cola, em equilíbrio instável, caiam com estrondo, arrastando o harpic sanitas. Já quase no fim do martírio pergunto, com péssimos modos, se não faz parte das funções da empregada da caixa ajudar os clientes a ensacar as compras.

Com a diligência de um caracol e com a expressão de uma múmia, não levantando nem mais um milímetro das pálpebras, ela responde: Só para as entregas.

Incenso

Queimo incenso
espero

que a noite
me transforme

em cinzas
perfumadas

em poeira
de vento.

05 agosto 2007

Fontes

Seguiremos pelas fontes
até ao âmago da água
elementar e cristalina
pura de ausência.

Seguiremos pela sede
até ao eterno desejo
límpido e sibilino
gota de essência.

Seguiremos pela sombra
até ao limite da luz
matinal e repentina
sopro de consciência.


(escultura de RalphCurtisRoyer: Cross Fountain #2)

Apoucamento ideológico

António Barreto, em entrevista ao DN, a propósito dos 30 anos da Lei Barreto, afirma que O PS está num processo acelerado de desertificação ao nível dos conteúdos, ideias, projectos, causas e programas (esta parte da entrevista não está transcrita no DN on-line).

Infelizmente António Barreto tem razão. O PS está ocupado em gerir a maioria absoluta, em elogiar o pragmatismo e em calar o debate ideológico.

Ao contrário do que se está sempre a dizer, cada vez interessam mais as ideologias, cada vez é mais premente a clarificação das ideias à esquerda e à direita, a estruturação de soluções políticas para a nossa sociedade, a procura de soluções para os excluídos, para a regulamentação do trabalho, para a preservação do meio ambiente, para o apoio aos idosos, para o aumento da natalidade.

É em redor da discussão ideológica que se podem congregar as populações, que se podem motivar as pessoas. O PS está a percorrer um caminho que pretende de auto preservação, mas que será inevitavelmente de destruição. A moda é gerir a crise e dizer que não há alternativas.

Há sempre uma alternativa. E a pior é o descrédito no regime democrático, o divórcio entre os governados e os governantes, o autismo do poder.

Este PS está numa deriva de apoucamento ideológico. Ao contrário do que António Barreto crê, eu penso que José Sócrates irá ganhar as próximas eleições, e até com maioria absoluta, pois o apoucamento ideológico não é exclusivo do PS nem da esquerda.

Mas quem perde com tudo isto é o próprio regime. Abrem-se brechas que não são aproveitadas para a necessária renovação.

Outro dia, em conversa de café, alguém me dizia que não seria possível que António Barreto fizesse parte por muito tempo do governo actual. Infelizmente, pessoas da sua craveira e com o seu empenhamento estão fora de moda. Já há bastante tempo.

(imagem do cartaz retirada daqui)

Nomeações e reconduções

Ainda sobre Dalila Rodrigues.

Dalila Rodrigues foi nomeada para uma comissão de serviço de 3 anos como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na vigência da anterior Ministra da Cultura, Maria João Burstoff, em Setembro de 2004.

Parece que não restam dúvidas de que exerceu esse cargo com empenhamento e competência, a julgar pela avaliação que dela faz o próprio director do Instituto de Museus e Conservação (IMC), Manuel Bairrão Oleiro.

Por ser um cargo temporário e de nomeação, está sujeito à confiança política de quem a nomeia. Neste caso à Ministra da Cultura actual (que, ela sim, deveria ter dito já qualquer coisa sobre esta polémica) ou, mais directamente, do director do IMC.

Acho admirável como é que uma pessoa que declarada e publicamente se manifesta contra a nova lei orgânica do IMC, que é, aliás, um direito que lhe assiste, espera poder ser reconduzida no cargo de directora do MNAA. Acho ainda mais extraordinário que se sinta perseguida por tal facto e que tenha ficado surpreendida.

Em primeiro lugar ficámos a saber que a renovação das comissões de serviço são obrigatórias. Depois ficámos também a saber que, embora as pessoas declarem publicamente que discordam da política do governo, neste caso de um ínfimo pormenor como é a lei orgânica do organismo que tutela directamente a estrutura a dirigir, devem sacrificar-se a concretizar políticas de que discordam, ou com meios que consideram inadequados.

A liberdade de expressão é um direito, o assumir as responsabilidades das suas posições políticas é um dever. Dalila Rodrigues não foi demitida, nem foi castigada, apenas não vai cumprir mais uma comissão de serviço como directora de um Museu, que se regerá por regras com que ela não concorda.

Se Manuel Bairrão Oleiro decidiu bem, isso é o que será avaliado daqui para a frente.

Quanto ao abaixo-assinado subscrito por 16 directores de museus nacionais, que se demarcaram da posição de Dalila Rodrigues, tem o mesmo significado que outros abaixo-assinados subscritos por outras pessoas, sobre os mais diversos assuntos. A conclusão de que esses directores estariam a defender os seus lugares é, no mínimo, extremamente deselegante, como Dalila Rodrigues insinua, a respeito dos seus ex-homólogos. Será Dalila Rodrigues mais honesta, mais sincera e mais competente que os directores dos outros museus, apenas porque tem uma opinião contrária à da tutela?

Adenda: tenho muita pena de não ter acesso ao documento subscrito pelos 16 directores, pois não gosto muito de ler notícias com bocados escolhidos; gosto mais de escolher eu.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...