Na caixa uma empregada com facies de ave, com cabelos de um louro totalmente suspeito, com pálpebras meio descidas e ombros descaídos, vai passando as diversas mercearias com pouca diligência, mas carregando no pedal que faz andar o tapete das compras com grande velocidade.
Com os sacos de plástico a fecharem-se teimosamente e a fugirem do controle das mãos, ocupadas a abrir as bocas moles dos sacos, a agarrar produtos escorregadios e a tentar ser rápida, não me aguento mais e resmungo, de forma bastante audível, que assim é muito mais difícil!
A única manifestação, o único sinal, de que algo zumbe ao seu ouvido é a paragem instantânea do rolar do tapete, o que faz com que algumas garrafas de coca-cola, em equilíbrio instável, caiam com estrondo, arrastando o harpic sanitas. Já quase no fim do martírio pergunto, com péssimos modos, se não faz parte das funções da empregada da caixa ajudar os clientes a ensacar as compras.
Com a diligência de um caracol e com a expressão de uma múmia, não levantando nem mais um milímetro das pálpebras, ela responde: Só para as entregas.



