13 junho 2007

Nós

Costuramos atalhos
fragmentos tecidos
pacientemente.

Remendamos vidas
pequenas contínuas
vagarosamente.

Passajamos dores
vexames amores
solidariamente.

Rezamos responsos
cansados sentidos
solitariamente.


(pintura de: Mbugua: girlfriends)

Dizem-me

Dizem-me almas cuidadosas
das nuvens dos fumos
da chuva de pedras
dos caminhos revoltosos.

Dizem-me vozes sussurrantes
das palavras inodoras
dos súbitos abismos
dos ventos uivantes.

Mas eu prefiro olhar o cume
no centro do sonho sentir
centelhas que nascem
e reacender o lume.


(pintura de Kim: Hammack Dreams)

10 junho 2007

OTA sim - OTA não

Afinal foi a CIP que encomendou o estudo contra a Ota e a favor de outras alternativas, ou seja de Alcochete, ou foi apenas Francisco Van Zeller?

O dito estudo foi entregue ao Presidente da República. Mas então é o Presidente da República que decide a localização do novo aeroporto? Não é o governo?

Todos desconfiam muito dos interesses obscuros por detrás da opção da OTA. Mas não haverá interesses obscurecidos por entre os detractores da OTA?

D. Manuel Martins - cidadão

A interligação entre a Igreja Católica e o Estado, apesar de proibida pela Constituição, continua, mesmo que disfarçada.

A recente discussão sobre a Lei das precedências do Protocolo do Estado Português, no que respeita aos representantes da Igreja Católica, a presença continuada de símbolos da religião católica em estabelecimentos públicos de ensino, de saúde e outros, a benzedura de instalações e afins em actos oficiais de inauguração, tudo isto dá razão às associações que reclamam a neutralidade do estado em relação à orientação espiritual dos cidadãos, assim como a lei de liberdade religiosa, em que o estado se obriga a prover aos cidadãos possibilidade de serem assistidos consoante a sua confissão, nomeadamente nos hospitais, se tal solicitarem.

Por isso mesmo, e à luz da necessária laicidade do Estado Republicano, não percebo a indignação de alguns pela condecoração de Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo por destacados serviços prestados ao País, nestas últimas cerimónias de comemoração do 10 de Junho.

D. Manuel Martins esteve cerca de 23 anos à frente da diocese de Setúbal, exercendo as suas funções de tal forma que algumas autarquias o distinguiram como cidadão honorário, dando inclusivamente o seu nome a um pólo universitário e a uma escola. Esta condecoração não está a distinguir uma Igreja nem uma confissão religiosa, mas sim uma pessoa que, nas suas funções, se destacou e prestou serviço às populações, ou seja, ao país.

Convém que a separação entre a Igreja e o Estado seja observada em todos os aspectos.

Portugal - que Portugal?

Na datas oficiais de glorificação da memória colectiva, são tristes e repetitivos os festejos, com cheiro a mofo e a naftalina.

Se andarmos minimamente atentos pelo país, observamos a pouca consideração que vamos tendo pela ideia de nação como um todo, como não nos revemos no que vivemos, como suspiramos eternamente por glórias antigas, mais mitificadas que realizadas, como não nos aceitamos, amálgama de raças, de etnias, de preguiça, de esperteza, de generosidade e de valentia.

Continuamos a mostrar desfiles de exércitos, discursos solenes, horas de penoso olhar parado e institucional.

Não seria mais interessante comemorar o facto de sermos um país em transformação demográfica, abrindo os braços a todos os que quiserem vir, incentivar o trabalho e a criatividade, abanando as traves mestras do sono de tantos séculos e construindo novos navios, desbravando outros mares, como o da inteligência e o do amparo?

Os laços que perduram são os da língua e os do viver sobre este sol, nesta terra bravia e melodiosa. Talvez pudéssemos exaltar a solidariedade e a integração, a música e a inventividade que se esconde em cada um de nós e que só se manifesta em épocas de adversidade, neste Portugal que nos pesa.

(pintura de Engrácia Cardoso – 1º andar)

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios, despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.

(poema de Natália Correia; escultura de Francisco Simões, música e voz de José Mário Branco)

SNS - ausência de plano?

Não li a entrevista concedida à Visão por Paulo Kuteev Moreira, um dos membros que fizeram parte da comissão para o estudo da sustentabilidade financeira do SNS, e que se demitiu pouco antes da saída do relatório final, por não se rever nele nem nas suas recomendações.

Mas na verdade, e tal como afirma Paulo Gorjão, ninguém sabe quais são os planos, a ideologia, o caminho que este governo, mais precisamente o ministro Correia de Campos, quer para o SNS. Desdobra-se em afirmações de intenções mas não elaborou nada por escrito, pelo menos que se conheça, sobre as grandes opções dentro da reforma e da reorganização do mesmo.

Vemos medidas contraditórias, mais anunciadas que concretizadas, avanços e recuos sistemáticos, ameaças e desmentidos sobre essas mesmas ameaças, não se percebendo porque é que o referido relatório não é tornado público, nem se percebendo quais são as decisões políticas que serão tomadas com base nesse relatório.

Já aqui afirmei por várias vezes o meu apoio à reorganização e concentração de meios técnicos e humanos, porque melhora a qualidade do atendimento e reduz o desperdício. Também manifestei largamente o meu apoio a uma política de redução dos custos de medicamentos, aumentando a parcela dos genéricos, elaborando protocolos de terapêuticas e implementando a venda de unidoses.

Mas o que se tem verificado é que a confiança neste ministro e neste ministério é cada vez menor. Não se percebe a implementação de taxas para cirurgias e internamentos. Não se percebe porque é que Correia de Campos recuou no regime de incompatibilidades nas acumulações de prestação de cuidados nos hospitais públicos e privados.

A filosofia de prestação individual de serviços, em detrimento de um sistema integrador do pessoal num serviço com objectivos avaliáveis, em que a produtividade tenha em conta a qualidade da prestação de cuidados médicos, de enfermagem, de apoios de todos os tipos, com controles internos e externos, levará à falência da formação pós graduada, médica, de enfermagem, de técnicos de vários tipos, pelo menos como ela é entendida agora, e também não se vislumbra outro sistema que a substitua.

A compra de serviços exteriores ao hospital, nomeadamente para técnicas complementares de diagnóstico, mesmo que motivados por preços competitivos, aliados à redução dos encargos com pessoal, aumenta enormemente a probabilidade de diminuição da qualidade de resposta, seja pelo tempo de demora, seja pela menor qualificação e/ou diferenciação dos contratados, pelo menos nas áreas de especialidades mais carenciadas.

Nada se percebe e tudo se suspeita. Onde está a avaliação dos responsáveis pelas administrações hospitalares e a sua devida responsabilização?

O país desespera por respostas, por uma demonstração de consideração dos seus governantes para com os governados. O governo que diga claramente o que quer do SNS, como o quer reformar, revitalizar, reformar, ou se o quer reduzir a uma prestação de serviços mínimos, para quem só pode pagar o mínimo.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...