01 junho 2007

canção solar

faça como
de costume,
arrume o cabelo,
ponha
o seu perfume,
deixe
que pela fresta
vague o lume,
dance ao som
daquele blues
no último volume,
faça como
de costume,
rode a baiana,
desarrume,
entre no meu
coração,
e saia impune,
como de costume.


(poema de Múcio Góes: Traversuras; desenho de Karen Kucharski: earlier than usual again)

Mudar

Como sociedade devemos estar gratos a Conceição Oliveira pela frontalidade com que se observou e decidiu que não era capaz de julgar séria e imparcialmente.

Como pessoa compreendo a sua ânsia e necessidade de partir em busca de outros rumos.

Mudar faz bem, mexe o espaço das ideias e reflecte o movimento. Mudar abana as certezas e potencia a inovação, desastrada ou gloriosa.

(escultura de A. Ceschiatti: a justiça)

A greve

Já todos disseram e repetiram, mais simuladamente ou mais às claras, que a greve geral foi um fracasso.

A greve é um direito de quem trabalha, que deve ser exercido em liberdade, sem os constrangimentos e as pressões cada vez mais explícitas das entidades empregadoras. A existência de comissões arbitrais que definem serviços mínimos compostas por quem simpatiza com um dos lados, é desonesta e cerceadora das liberdades individuais.

A greve é uma demonstração de desagrado, é um processo de luta, é um gesto de solidariedade. Por isso não deve ser desperdiçada. Por isso não se entendeu o porquê desta greve geral. Com a crise de desemprego, de trabalho precário, de redução do poder reivindicativo dos trabalhadores, esta derrota terá consequências e era evitável. Será que Carvalho da Silva o percebeu?

29 maio 2007

Pandemia

Seguramente, embora ainda não identificado, há um vírus extremamente perigoso, com latência variável, que infecta todos os que ocupam lugares de poder.

Os sintomas são variados mas conduzem sempre ao mesmo desfecho: autoritarismo crónico intenso, tentativa de controlo dos subordinados, desconfiança, suspeição e autismo.

Não se conhece vacina nem cura e a terapêutica sintomática é, habitualmente, rejeitada pelos doentes que não reconhecem a própria enfermidade.

Sugere-se a formação de equipas multidisciplinares de forma a desenvolver estudos científicos que possibilitem a descoberta de uma vacina minimamente eficaz.

A única arma é a prevenção: nunca assumir a direcção ou a condução de quaiquer processos, por muito inócuos que pareçam, nem que seja a escolha do local de encontro de amigos, para o habitual almoço psicanalítico!

27 maio 2007

Blogues com tomates


Bom, de facto, embora ligeiramente espantada com esta distinção, como dizer, tão vegetal, não posso deixar de agradecer ao J.F. por tão gentil (?) nomeação!

E, tal como ele, aqui publicito as minhas cinco nomeações:

A duas mãos

Inventar um sorriso
à distância de um segredo
desenhar o amor
à sombra de um degredo
abrir as cortinas
derrubar o muro
apagar o medo.

(poema de Ana)



Sal e sangue
nos dias do paraíso
são nossos os braços em cruz
com que erguemos o muro.

Sal e sangue
nos dias em que é preciso
moldarmos pedras e ventos
com que enfrentamos o mundo.


(pintura de Nereida García Ferraz: De Semillas)

26 maio 2007

Supor

Supor felicidade
à distância de um sorriso
supor amor
à distância das palavras
supor dias seguros
à distância dos dedos.

Abrem-se neblinas
sinais de gozo
gotas de sol transparente.
Mas persistem cortinas
e medos
muros desenhados
e secretos.


(pintura de
Arnaud Juncker: terres lointaines)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...