À medida que vai deixando de haver ideias, debates de ideias, definições ideológicas, missões a cumprir, desígnios nacionais ou internacionais, lutas colectivas; à medida que o individualismo vai substituindo a noção da sociedade, da comunidade, em que o bem comum é menos importante que o bem próprio; à medida que os objectivos políticos se esbatem e em que não há diferenças entre os vários partidos; à medida que deixamos de acreditar em ideias passamos a acreditar nas pessoas.
Deixamos de pensar no geral para darmos importância ao particular, deixamos de ver o Homem como parte da humanidade, que tem uma função a bem da humanidade, para fazer de um homem o centro da humanidade e o responsável por ela.
Exigimos-lhe a perfeição; tem que ser belo, forte, sensível, saudável, inteligente, culto, bem pensante, sedutor, apaixonado, íntegro. Tem que ter sucesso, ter preocupações ambientais, dizer as coisas certas nos momentos certos, ser tudo o que nós não somos e gostaríamos de ser.
Nós não somos mas ele tem que ser. O nosso herói, o nosso deus, que nos salvará de todos e de nós mesmos. Retrocedemos da fase adulta para a fase da infância e da adolescência, em que os nossos pais são a encarnação do bem, capazes de tudo e imortais.
Temo esta sociedade cada vez mais perigosa, pela falta de esperança naquilo que podemos fazer enquanto comunidade, e pela demasiada ilusão na exigência a quem damos o supremo dom da nossa cega confiança.