19 abril 2007

A música das palavras

A música das palavras,
o sabor das letras na língua
quando se enrolam e deleitam
nos lábios, o estremecer dos ditongos,
o espanto das combinações,
a espera das razões que se criam.

O desenho das palavras,
as ondas que reflectem
nos olhos, entre os braços,
que correm pelo sangue
e embriagam as emoções.

Enquanto gritamos,
lambemos, seduzimos,
amamos e vivemos
de palavras,
não desfazemos

desmerecemos,
enfraquecemos,
nem explodimos
o mundo.


[pintura de Jacob King (palavras de Wiliam Faulkner, lidas de baixo para cima, espelhando a esperança apesar da adversidade): we will prevail]

"Explicação dos pássaros" (corrigido)

(…) estes pássaros merecem uma atenção especial: são considerados os mais bonitos da Europa, como se pode constatar pela foto junta. Com o nome latino de merops apiaster só têm um defeito: é quase impossível chegar perto deles! (…)
Pedro

(…) O voo é único porque as asas são triangulares e parecem papagaios de papel a planar. Fazem os ninhos em buracos escavados em "paredes" de areia dura (há muitos em antigas saibreiras). Uma vez, num documentário, vimos toda a colónia a atacar uma cobra que queria aproximar-se dos ninhos: faziam verdadeiras picadas em cima dela até que a dissuadiram! (…)
São

(abelharucos)

17 abril 2007

Pássaros

Os pássaros de asas longas
pousados no fio do tempo,
abrem gritos mudos
e sobem no horizonte
que nos espera.
Guardam eternidades
de vazio.


(pintura de: Tamryn Pöhl)

Câmara de Ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

(poema de Waly Salomão; pintura de Regi BarDavid)

La Llorona

Fui lembrada da existência deste portento da canção ranchera. Chavela Vargas faz 88 anos. Vale a pena ouvi-la, bem alto, com pouca luz e com um copito de tequila, ou de mezcal.


Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde,
Llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.

Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al rio
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frio

Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona
¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?

15 abril 2007

Odete Santos

Odete Santos é excessiva, arrasadora, fiteira, dramática, manipuladora, apalhaçada, berrante, descabelada, descomposta.

Odete Santos foi deputada (por 26 anos), é actriz, comediante, diseur.

Odete Santos nunca se importou de ser quem é, dedica-se de alma, coração, de corpo inteiro às causas em que acredita, como uma missionária, como uma testemunha do saber divino.

Num mundo em que os políticos são fabricados pela imagem, ela impôs a sua imagem como uma política de gema, como uma marca de paixão.

Não concordei com ela muitíssimas vezes, na maior parte das vezes, mas é como ela que penso que os nossos representantes na Assembleia deveriam agir, incansáveis na defesa dos seus ideais.

Suspeições

Muito se tem falado sobre o fenómeno da emergência de blogues, com denúncias anónimas de males públicos e privados, antros de maledicência e de egos ressentidos, crispados e mal amados.

Haverá milhares deles assim. Como há milhares de pessoas assim. Mas o que preocupa o jornalismo ortodoxo, exclusivista e bem pensante, tanto como os políticos, enredados ou não em jogos pouco claros, é o pouco conhecimento que têm do fenómeno blogosférico, travestido de desprezo e arrogância (como se prova pelas declarações lamentáveis do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro), e a indisfarçável incapacidade de o controlar.

Não é admissível que se façam insinuações e ataques mais ou menos encapotados ao bom-nome das pessoas em blogues, a coberto de anonimatos ou não. Para isso, se se provarem crimes de difamação, existem leis e, caso não existam aplicadas à blogosfera, deverão ser estudadas e criadas pelos órgãos legislativos próprios.

O problema da credibilidade das pessoas e das instituições, que tanto tem preocupado os nossos fazedores de opinião, estende-se que nem fogo em palha seca a todos os media, com especial destaque à imprensa escrita.

Só para citar um exemplo recente, as notícias sobre o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça relativamente à condenação do jornal Público, obrigando-o a pagar uma indemnização ao Sporting Clube de Portugal apesar do reconhecimento da verdade das notícias publicadas. Entretanto saiu um artigo no site do clube negando o facto de o Supremo Tribunal de Justiça ter reconhecido a veracidade das acusações por parte do Público. Até hoje, embora eu não conheça todas as notícias que saíram sobre o assunto, não me lembro de ter lido nada sobre a correcção ou incorrecção do desmentido do Sporting.

Afinal em que ficamos? Em quem podemos acreditar?

Essa é a verdadeira tragédia: não acreditamos no governo, porque só diz o que lhe interessa, independentemente dos factos; não acreditamos na oposição porque só desdiz o governo, independentemente das razões que lhe poderão assistir; não acreditamos nos media porque a informação é cirurgicamente manipulada, para servir determinados interesses, mesmo que não nos apercebamos bem de quais.

De facto, como diz JPN no respirar o mesmo ar, em Portugal respira-se e vive-se na suspeita e de suspeitas.


(pintura de Anne Karin Glass: suspicion)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...