07 abril 2007

Novo (desconhecido) Tratado Constitucional Europeu

Parece que tem havido algumas tentativas para arredar ainda mais a discussão do novo Tratado Constitucional europeu dos cidadãos europeus.

Se a necessidade da existência de uma Constituição Europeia é, por si só, discutível, se a redacção desse Tratado Constitucional/Constituição deveria partir de uma assembleia eleita para esse fim, a existência de manobras de bastidores para fazer aprovar um texto desconhecido dos cidadãos e nem sequer referendado (pelo menos seria uma ocasião para ser conhecido) não augura nada de bom.

Relíquias

Nestes dias de santidade cristã e fabricação de beatos e santos, tem alguma graça irónica a descoberta da falsidade das relíquias atribuídas a Joana d’Arc.

Não há dúvida que a ciência e o conhecimento são um perigo para instituições que se mantém à custa da credulidade e da ignorância dos povos.

O desmontar de crenças, mitos e lendas é tão importante como a tradição da manutenção cultural das mesmas. Não percebo porque se impede a investigação dos restos mortais (se é que existem) dos túmulos de D. Afonso Henriques e de D. Sebastião, ou o estudo dos enigmas do sudário.

A fé e os ensinamentos daqueles que são tornados santos e transformados em deuses não diminuem pelo conhecimento real e científico dos factos, mesmo que seja para desmascarar mentiras seculares. A fé é um assunto privado e tem a ver com o mecanismo da nossa mente, do nosso cérebro, não com a alimentação de mitos que, mais tarde o mais cedo, cairão esmagados pela evidência.

[Centre Historique des Archives Nationales, Paris: Imagem de Joana d’Arc (1450 – 1500)]

Diplomas e afins

Quase todos os dias têm saído notícias sobre o percurso académico de Sócrates, insinuando que alguém lhe arranjou o diploma sem que ele, por isso, lutasse.

Já aqui aflorei a questão, quando saiu a primeira matéria no Público, que fazia uma grande e importante investigação, concluindo apenas que a Universidade Independente poderia favorecer passagens administrativas ou de outro tipo, sem que fossem necessários quaisquer créditos de conhecimentos e de prestação de provas.

É um problema grave, tanto mais que põe em dúvida quaisquer diplomas entretanto saídos desta Universidade, portanto a credibilidade da própria Universidade e do ensino superior privado, por generalização, quantas vezes abusiva.

Espero que o primeiro-ministro esclareça o que tem a esclarecer, ou seja, que não comprou o seu diploma, que não usou a sua influência de político e homem público para obter créditos de formação que nunca teve.

Porque este é o verdadeiro problema, uma questão do carácter do cidadão José Sócrates e da forma como se usa o poder, seja ele de que tipo for e em que circunstâncias forem.

Relativamente à forma como algumas universidades funcionam e funcionaram, gostaria que todos os profissionais e pessoas com responsabilidades políticas olhassem para os seus próprios cursos e diplomas universitários. Que me lembre, houve numerosas passagens administrativas e cadeiras feitas com trabalhos pseudo políticos em todos os tipos de curso, nomeadamente nos de Medicina, em épocas que já lá vão. Será que esses alunos recusaram as conclusões das cadeiras universitárias ou as notas igualitárias para quem tinha o nome em trabalhos que nunca fez, por nobreza, rectidão e amor à verdade? Qual a credibilidade que esses profissionais têm nas mais diversas áreas, e que ocupam agora lugares de responsabilidade técnica e política? E que tal o Público investigar essas tão candentes e importantes matérias?

Esta é uma campanha de assassinato de carácter. Vamos ver se José Sócrates o tem ou não. Mas não por ter feito o curso melhor ou pior, não pelo rigor das aulas ou das avaliações, mas apenas se foi só para ele, por ter capacidade de influência política.

Quanto ao resto, talvez fosse mais produtivo discutir a sério a fraude que foi e é o negócio do ensino superior privado, sem regras nem critérios de qualidade, deitando para o desemprego quaisquer indivíduos que por lá passem.

Por outro lado a americanização do escrutínio das figuras públicas assusta-me. A pseudo moralização da vida pública e privada é um engano. As pessoas que nós elegemos não são obrigatoriamente santas, não têm vidas sem mácula, são tal e qual como todos nós. Uma coisa é a fraude e as atitudes que são criminalmente julgadas, outra coisa os pecados cometidos que não impossibilitam uma actuação de serviço público.

É por estas e por outras que há um afastamento cada vez maior entre os governantes e os governados. E os media deveriam reflectir se estão a cumprir a sua missão de informar, ou apenas a participar de uma luta política sórdida, ou mesmo de uma vingança do poder económico em relação ao poder político (ele há algumas coincidências…).

04 abril 2007

A marca de Deus (2)

Com a chegada de Jesus Cristo, a marca de Deus passou a ser o comportamento do indivíduo, os seus valores de humanidade, solidariedade e tolerância. A partir dessa altura Deus passa a ser universal e olha por todos, crentes e não crentes, desde que a sua vida espelhe esses valores.

De facto, há uma grande diferença entre o Antigo e o Novo Testamento, no que diz respeito à imagem de Deus e ao significado da vivência religiosa.

Não é fácil para quem não é religioso falar sobre estes assuntos. Mas a religião ou o misticismo não religioso faz parte da vida humana. A procura de explicações para o inexplicável pode sintetizar os saltos de aprendizagem e conhecimento. A aceitação do divino pode ser uma necessidade individual, mas nunca deve ser confundida com a realidade e nunca deve ser usada como substituição do real.

A discussão a que se tem assistido nos últimos tempos sobre o criacionismo é reveladora da confusão que se pretende criar entre o que é a ideologia e a fé e o que é o estudo controlado, reprodutível, científico, dos fenómenos a que assistimos, sejam eles biológicos ou comportamentais, orgânicos ou inorgânicos, animais ou vegetais, moleculares ou planetários, da matemática, da paleontologia ou da neurociência.

Esta é uma época especialmente manipuladora, para quem tem uma visão evangelizadora da própria fé. O estado, os serviços públicos, devem ser rigorosamente laicos. Só assim é possível aceitar todas as tendências religiosas, ateias ou agnósticas, e garantir que todas sejam respeitadas de igual forma.

Por vezes, e olhando para as programações da televisão pública, para algumas comemorações oficiais, para a água benta aspergida em inaugurações do estado, pergunto-me onde está a República laica, a separação entre a Igreja (qualquer uma) e o Estado.

[Ugolino Lorenzetti (1300's): The Crucifixion of Christ]

Portugal, Um Retrato Social

Vi ontem o segundo episódio do programa de António Barreto (Portugal, Um Retrato Social), que desde que foi anunciado andei a perseguir, tendo perdido ingloriamente o primeiro episódio.

De facto, Portugal modificou-se muitíssimo neste últimos 40, 50 anos. As ambições, as expectativas, as oportunidades que os filhos dos carpinteiros, dos lavradores, dos homens e mulheres que povoavam o campo, pobres e analfabetos, as diferenças entre os géneros, a influência da Igreja nos usos, nos costumes e na consciência colectiva, o respeitinho, mudaram radicalmente e em pouco tempo.

Apesar das diversas crises, económica, educativa, judicial e outras, sucessivas e duradouras, Portugal é, hoje em dia, um país onde se vive melhor, com infra-estruturas, em que há maior igualdade de oportunidades para todos, independentemente do meio sócio económico em que se vive.

No entanto a perpetuação do sistema educativo tal como está, com os preconceitos pseudo esquerdistas, a falta de rigor e disciplina, o aligeiramento dos curricula, a desculpabilização e paternalismo da ignorância, pode novamente subverter o objectivo de igualizar as oportunidades, independentemente do poder económico e social.

Um dos maiores desafios do nosso país é precisamente esse: a melhoria da qualificação e a motivação das aprendizagens, sem ceder ao populismo do chamado eduquês. Isso é condenar os filhos dos iletrados a iletrados quase obrigatórios, apenas porque o estado não zela por esse direito e não faz o seu dever.

03 abril 2007

02 abril 2007

Solidão

Abre a porta e pesa-lhe o silêncio. A sala é imensa e negra, perfumada pela ausência. Arrepia-se a abre as persianas com o esforço que tudo lhe exige, olhar, respirar, até limpar as lágrimas com as costas da mão.

O arrastar dos sapatos faz eco. Aproxima-se da cama e deita-se. A leveza do corpo gasto e exausto mal estremece a madeira.

Pode ser que adormeça. Para sempre.


(pintura de Anthony Whishaw: study of an old man)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...