30 março 2007

27 março 2007

Apenas

Preciso de tão pouco
para que o dia me levante.

Preciso apenas das gotas
de chuva na janela
do rumorejar das folhas
que sussurram
do pincel
dos teus dedos
na minha pele.

E no entanto
para ter
assim tanto
vivo apenas no espanto
de querer.

26 março 2007

Corrupção

Corrupção é encolher os ombros e murmurar ao ouvido do lado as iniquidades de quem manda;

corrupção é olhar na direcção contrária e estender a mão debaixo da mesa, para receber a aprovação de quem manda;

corrupção é fechar os olhos, os ouvidos e o nariz e sorrir apreciativamente aos espaventos estertorosos de quem manda;

corrupção é levantar-se do único lugar da esplanada para o dar a quem manda, e ficar com as réstias de sol que lhe sobra.

A corrupção é o resultado de milhões de anónimos tentando ignorar anonimamente o abuso de outros anónimos que se sentem com direito a ter nome.

E quem é que os nomeia?

E quem é que nos incendeia?

25 março 2007

Ainda

Esperam-nos pássaros caminhos
não ouvidos não caminhados.

Esperam-nos sonhos carinhos
não sentidos não sonhados.

Que faremos por merecer
nas pedras fontes do amanhecer?

Que faremos para entender
os mundos que sobram para viver?


(pintura de Nacera Guerin: one path)

Miséria e grandeza

Entre as cinzentas, pomposas e circunstanciais celebrações dos 50 anos da União Europeia, entendeu o nosso Excelentíssimo e Digníssimo Presidente da República excluir dos convidados de tão interessantes eventos o Dr. Mário Soares, antigo Presidente da República e, apenas e só, aquele que assinou o tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1985.

É verdade que Mário Soares se escapuliu da cerimónia de cumprimentos a Cavaco Silva, aquando da sua tomada de posse como Presidente. Não o devia ter feito, por todas as razões que nos lembremos e mais ainda.

Mas este gesto de Cavaco Silva, como uma vingança mesquinha, só demonstra a pequenez com que interpreta o seu papel na história recente de Portugal, e a sua falta de grandeza ao não reconhecer as grandezas de outros, entre as inúmeras misérias de que todos somos protagonistas.

Ficou-lhe mal a ele, como pessoa, e ficou muito mal ao país, que ele representa, pois não foi capaz de honrar a quem muito deve.

(fotografia da assinatura do tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, 12/06/1985, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa)

Eventualmente...

Segundo as notícias que li nos jornais impressos, on-line e em blogues (informação a sério), que ouvi nas rádios e que vi e ouvi nas televisões, o Tribunal de Contas (TC) confirmou um relatório da Inspecção Geral de Finanças (IGF), em que se demonstram numerosas irregularidades nas empresas municipais, na figura de uso indevido de dinheiros públicos, com numerosos autarcas a acumularem funções como quadros dirigentes das ditas empresas, e a auferirem ordenados e benesses muito acima e para além daquilo a que teriam direito.

Então e agora? Que vai acontecer a essas pessoas, que têm nome, cara, funções como autarcas (representantes do povo) e gestores? Vão ser obrigados a repor o dinheiro? Vão demitir-se dos seus variados cargos? Vão ser constituídas comissões de inquérito para eventuais processos de eventuais arguidos que eventualmente declararão consciências (eventuais) totalmente tranquilas?

E os anos que ainda não foram investigados? O que se vai seguir?

O negócio informativo (2)

Voltando ao post anterior sobre as interdependências entre a informação e os poderes económico e político, parece-me que algumas ideias não ficaram bem claras.

Todo o poder político tem a tentação de controlar a informação, de forma a veicular e propagandear as suas ideias e, principalmente, a esconder, por omissão ou por deturpação, os factos que poderão contrariar a verdade oficial.

Os regimes ditatoriais, tais como o comunismo e o nazismo, o franquismo e o nosso caseiro salazarismo, só para citar exemplos próximos, fizeram do controle da informação uma arma poderosíssima e um meio de excelência para impedir a disputa do poder. Outro exemplo é a organização que suporta a Igreja Católica, por exemplo, que sempre fez do controlo das fontes de informação, da censura e do impedimento ao conhecimento livre, uma das suas fontes de poder.

O exemplo tipificado por Sílvio Berlusconi é, apesar de tudo, ligeiramente diferente. Neste caso a informação é controlada pelo poder económico, concentrada num homem ou numa empresa, que usa o controlo informativo e o poder económico como armas para ascender ao poder político. Ou seja, o facto de se ter dinheiro, compra a informação e a propaganda e compra um lugar na política.

É claro que esta é uma análise mito simplista da situação. Mas talvez seja importante pensar que são indispensáveis mecanismos de regulação, garantidos pelo estado, através dos seus representantes legitimamente eleitos, impedindo a concentração do poder económico e a concentração do poder informativo, sob a alçada do primeiro. Se essa regulação não existir talvez seja difícil garantir a liberdade de discussão de ideias, a liberdade de expressão de pensamento, ou mesmo a democracia, tal como a concebemos hoje em dia.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...