21 março 2007

Poemas

Os poemas são nocturnos:
têm luas e letras
flores imediatas
que crescem entre dedos
atados de mãos insensatas.

Os versos são madrugadas:
acendem a luz do farol
desdobram brandos sorrisos
nas diáfanas cortinas
com que cobrimos o sol.


(pintura de Nancy Tuttle May: New Dawn I)

O estado dos assuntos

Será que o que restar do CDS / PP após o assalto ao poder, tão ansiado, propagandeado e implorado por Paulo Portas e seus apaniguados terá um décimo do interesse que têm merecido estas lutas tristes e de baixo nível?

Onde está a pose de estadista responsável que Paulo Portas criou enquanto Ministro de Estado, Ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar e Ministro da Defesa Nacional?

Interpretações (deficitárias...)

Para quem gosta de balanços e os tem feito, dos dois anos de governo de Sócrates, o défice a 3,9% em vez dos programados (e ansiados) 4,6%, pode ser uma forma de aferir se as politicas governamentais estão ou não a dar resultados.

Segundo alguns comentadores, isto terá sido estudado, ou seja, o governo sugeriu um número superior para se poder gabar de ter conseguido ficar num número inferior. Noutros casos, há quem afirme que isto foi conseguido por aumento de impostos e redução da fuga ao fisco, outros afinal descobrem, em artigos relegados para os fundos das páginas interiores dos jornais, que foi à custa da redução da despesa (tudo isto fui lendo na blogosfera, o verdadeiro espaço de informação).

São tudo interpretações, fluidas, é claro!

Também é claro que só mesmo Marques Mendes pode desafiar o governo a baixar os impostos, já que conseguiu reduzir o défice demais, um autêntico horror! Mais claro ainda é que se fosse o PS ou o Sócrates a sugerirem levemente uma subtil redução de impostos, não passariam de manobras eleitoralistas.

Enfim, seriedade, precisa-se. E já agora, poderia acabar-se com aquela farsa da discussão mensal no parlamento, de um tema escolhido pelo governo. Porque não escolhe a oposição? A fiscalização da acção governativa não é sobre temas cómodos mas sim sobre aqueles que o governo não quer discutir!

Será que o Parlamento e os seus deputados não poderiam mudar esta peça mal encenada e muito mal interpretada?

19 março 2007

Inteiro

Uma só palavra
bem soletrada
bem rolada

entre a língua
os dentes,
o som da voz
bem modelada
bem espalhada
como sementes
como restos esmagados
de nós.

Uma só palavra
que sintetize o poder
de ser inteiro.


(pintura de Ogambi: Women's Burden 3)

Adormecer

A raiva esfuma-se pelo peso que encolhe, pelo peso que abate, pelo peso que impede. Não querer saber, o mundo fica melhor sem os poucos loucos que um dia pensaram nos caminhos a direito.

A raiva transforma-se em rugas e olhares vazios, em encolher de ombros e mudanças de assunto, em sorrisos fátuos e palavras de circunstância,

A raiva é substituída por uma tal sensação de exaustão física, que daremos tudo para adormecer.

18 março 2007

Dentro da vida

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

(poema de Gastão Cruz; pintura de Tom Lieber: sem título)

17 março 2007

Nadir Afonso

Nadir Afonso é um pintor único, pelas formas, pelas cores, pela geometria, pelo urbanismo, pelo rigor do traço e do pincel, pela sua figura longilínea, ossuda, com dedos de pincel e olhos escavados e abstractos.

Nadir Afonso é um pintor único pela juventude perpétua, pelo olhar rejuvenescido e vibrante que nos devolve, pela dimensão das suas telas e da sua energia.

Na Galeria António Prates, até 18 de Abril, obras recentes (acrílicos, guaches) da 1ª década do séc. XXI, como ele diz; na galeria de arte do Casino Estoril, desde 9 deste mês, uma retrospectiva da obra, incluindo serigrafias, acrílicos e guaches, das diferentes fases do pintor (do figurativo ao abstracto).


(pintura de Nadir Afonso: Vera Cruz – 1ª décado do séc. XXI)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...